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31.3.08

Talvez porque o centro da atenção esteja na cabeça e na cabeça habite o pensamento, estamos sobretudo atentos aos nossos pensamentos. Quem se vicia nesta atenção, dá, claro, conta, por exemplo, da dor, quando lhe dói. A dor tem essa coisa de impor-se. O prazer também. Mas, o caso da alegria é mais complicado. A alegria é sempre gentil e para entrar é preciso deixá-la entrar. Sobretudo nos casos em que o que a motiva é doce, manso e suave. Eu já estive completamente pendurado no pensamento. Parecia que o pensamento comia, bebia, tinha pernas e andava. Ou que o corpo do outro e a sua pessoalidade estava dentro dele. Pendurado, disse bem. Pelas orelhas e o chão distante dos pés. É por isso que a oração é uma coisa diferente. Une o pensamento a um resto que é bem mais importante do que ele.

23.11.06

Imperativo categórico... e eis que vai largando pantufas e calçando sapatilhas a máxima: o pior é para todos.

20.11.06

O homem abstracto floresce. Floresce? – Multiplica. Quem é este homem? – O que traça planos no papel e na cabeça para depois os tentar impor à realidade. A realidade geme? – O som deve ser abafado nas duras razões que o plano traçou.

21.6.06

O mundo e os conceitos? - Responde o Doutor Bernardo: ouvi dizer a um homem de siso, de muito siso, ou pelo menos assim, nessa conta, o tenho, que podemos, nem que seja geometricamente, traçar abstractamente a génese da avenida da seguinte maneira – num primeiro momento, os conceitos querem-se definidos, com limites claros na extensão e na compreensão; que lancem focos de luz no negrume, que pontilhem de pontos precisos a escuridão; para que a pele do mundo se possa tornar pele de dálmata; num segundo momento, há a clara consciência de que não podemos ler o mundo de um modo tão pontuado, mesmo se a crueza dos pontos surge compensada pela irregularidade com que se distribuem; por isso, há a clara necessidade de fazer bailar conceito contra conceito, de criar zonas de sombra e de intercessão; mais ainda, e isto já numa fase posterior, para uns uma fase dolorosa, para outros excitantemente obsessiva, de fazer com que os conceitos – jogados uns contra os outros – se destruam; podemos perder tempo nisso, ficar fixados no jogo da contradição; mas não atingiremos a verdadeira forma do mundo: a avenida que se abre quando deixamos vir até nós o espaço que está suspenso na fixidez dos conceitos ou revolto no pó que se levanta no momento da oposição: é essa a minha opinião.

10.5.06

Penso por vezes escrever palavras que morrem; é impossível; outras vezes conselhos que perdurem; é impossível. Entretanto, consolo-me: se as impossibilidades trazem consigo intrínsecas frustrações, não deixa de ser verdade que a escrita apenas se pode desdobrar quando as impossibilidades da escrita são assumidas. Por isso.

15.4.06

Não me apetece precisar quem e como foi dito, que literatura e filosofia, por exemplo, são dois modos insignes de ficção; nem o seu lado contrário: que letras e pensamentos são dois modos insignes de realidade; apetece-me no entanto dizer que precisamos de doses maiores de realidade; que quer isto dizer? – acentuando a coisa de um certo modo, não me parece que a coisa se diga …

29.1.06

Podemos pensar pelo mandamento honra os teus pais, se os honramos. Uma coisa parece certa, pelo que sei: há uma relação entre o respeito que temos aos nossos pais e o respeito que temos aos outros. Por exemplo, a seguinte: não respeitamos os nossos pais, não respeitamos os outros. Podemos dizer que nem sempre as coisas são assim. Que podemos respeitar os outros, sem que respeitemos os nossos pais. Pode ser. Mas, não podemos deixar de assinalar aí, um certo nó, uma certa dureza. E sempre latente, uma certa predisposição para o desrespeito. A questão é como é óbvio mais lata. Mas aqui fica este apontamento, entretanto.

8.9.05

«O meu pensamento não cobre mais do que dez metros, contados desde o local onde me encontro; mais centímetro, menos centímetro, não mais» - No que me diz respeito, teria respeito por quem assim o dissesse.

22.7.05

Pobreza. Bom, José, pedras, pedras, levaria alguém que dissesse: afinal que importância tem o petróleo, e, por arrastamento, os problemas da gestão da economia mundial? – Quem perguntará tal coisa? – Quem dirá que não!? - Quem poderá pensar que poderemos viver sem ar condicionado, sem carros nas auto-estradas, sem os níveis de riqueza que sustentam as nossas actividades produtivas e o nosso comércio? – Eu não: mas sim aqueles que no anúncio publicitário da Renault, constroem uma cópia do modelo scenic puxado a cavalos. Contudo, aos homens de barba longa, chapéu negro e de negro vestidos ninguém lhes atira pedras. Pelo contrário: são alvo de uma simpatia condescendente. Não são levados a sério. Mas é séria e fresca, água da Primavera, a questão: seríamos nós capazes de retomar e de viver níveis mais baixos de riqueza?

2.4.05

O Timóteo, na terra, traz as Partículas Elementares e uma breve história de algumas preocupações comportamentais mais fortes do século vinte. A tese descrita e que percorre partes do romance de Michel Houellebecq parece defensável: a vida de Sade pode ilustrar o caminho que vai dos hippies a Charles Manson. Da procura da satisfação pelo sexo, à procura da satisfação pela violência. Tal trajecto é reactualizado de diversas formas. Essa tese é conjugada em Houellebecq com uma segunda. Vivemos para afastar a velhice. Velhos, queremos ser juvenis. Tese plausível. É a roupa, são os cremes, o modo como os velhos falam. No entanto, penso que, no século vinte, maior do que o medo da velhice é o medo da morte.

1.4.05

Tim: «Penso que no referido livro a aversão à velhice surge como um sub-produto do hedonismo libertário. Parece-me de facto estruturalmente incompatível o exacerbar do princípio do prazer com a aceitação do princípio da realidade. Freud dixit...» - Podemos perguntar: será que o hedonismo libertário e sua aposta no prazer trazem como sub-produto a aversão à velhice? Ou será que é a aversão à velhice que traz consigo como sub-produto o hedonismo libertário e sua aposta no prazer? – Se aceitarmos que ambas, uma coisa, hedonismo, e outra, aversão à velhice, estão intimamente relacionados, pode parecer que estamos perante a antiga questão da galinha e do ovo: quem nasceu primeiro, o hedonismo ou a aversão? – Assim encarada, a questão parece não ter grande importância. Talvez seja. Mas, se lhe dermos uma volta, talvez mereça um pouco da nossa atenção.
Dizer que é o hedonismo que produz a aversão à velhice, é fazer do hedonismo uma aposta positiva. Há uma aposta no hedonismo e a partir daí surgem consequências: valorizar o prazer, valorizar as fases da vida onde é potenciado; desvalorização do desprazer, desvalorização das fases da vida onde o desprazer é potenciado… Então, o hedonismo é claramente visto como algo positivo. E o prazer surge então como o centro sobre o qual tudo gira.
Até aqui tudo parece claro. Já não é tão fácil lidar com a segunda opção, dizer que é a aversão à velhice que leva ao hedonismo e ao culto do prazer. Em primeiro lugar, porque uma coisa é apostar numa coisa – como no caso da aposta no prazer –, outra coisa é apostar em rechaçar uma coisa – como no caso da aversão à velhice. Habitualmente, temos tendência a pensar que apostar numa coisa é algo que deve ser avaliado positivamente e que apostar numa aversão é algo que deve merecer alguma avaliação negativa. Mas, num segundo momento, podemos ver que quando fazemos de uma aversão a aposta principal e quando a dizemos assim, é porque há algo que entretanto não foi dito e que ainda assim é principal.
No caso da aversão à velhice, se existe aversão à velhice é porque existe apego à juventude. É porque há um primeiro apego à juventude que rechaçamos a velhice. Se este raciocínio for correcto, teremos então: é o apego à juventude que traz como primeiro sub-produto a aversão à velhice e como segundo sub-produto, a aposta no prazer. Ou de um modo rápido: é a aposta na juventude que traz como sub-produto o prazer.
Agora, se tomarmos como ponto de partida a primeira questão colocada “será que o hedonismo libertário traz consigo como sub-produto a aversão à velhice?”, podemos, então, também, com os dados agora obtidos, traduzir a questão do seguinte modo: será que o hedonismo libertário traz consigo como sub-produto uma aposta na juventude? - E a partir daqui podemos reformular o dilema inicial: será que é o hedonismo libertário que traz como sub-produto uma aposta na juventude ou é a aposta na juventude que traz consigo como sub-produto uma aposta no hedonismo?
Este dilema não interessa!? Pode ser. Ou talvez não. Não talvez se voltarmos ao ovo e à galinha. Mas sim talvez, se pensarmos no dilema em termos de centralidade. Na primeira opção, o hedonismo arrasta para si a juventude; na segunda, a juventude arrasta o hedonismo. Na primeira, o hedonismo faz de maquinista; na segunda, a juventude puxa o comboio.
Como é óbvio, decidir da centralidade do hedonismo ou da juventude depende em última instância do que julgamos prazer e juventude, como se cruzam ou como se deveriam cruzar um e outra.

8.11.04

A metáfora da troca de lugares como solução para os problemas é uma metáfora corrente. Ei-la via alerta amarelo na terra da alegria.

«Contam os homens dignos de fé (mas só Alá é omnisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem possuidor de riquezas, mas tão magnânimo e liberal que as perdeu todas menos a casa de seu pai e se viu forçado a trabalhar para ganhar o pão. Trabalhou tanto que o sono o venceu uma noite debaixo duma figueira do seu jardim e viu no sonho um homem todo encharcado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse:
“A tua fortuna está na Pérsia, em Isfaján; vai lá buscá-la.”
Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfaján, mas no recinto dessa cidade surpreendeu-o a noite e deitou-se a dormir no pátio duma mesquita. Havia junto à mesquita, uma casa e pelo decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladrões atravessou a mesquita e meteu-se na casa, e as pessoas que estavam a dormir acordaram com o barulho dos ladrões e gritaram por socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquelas redondezas acudiu com os seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou revistar a mesquita e nela encontraram o homem do Cairo e deram-lhe tantos açoites com varas de bambu que esteve às portas da morte. Ao fim de dois dias, recuperou os sentidos na prisão.
O capitão mandou-o buscar e disse-lhe:
“Quem és tu e qual é a tua pátria?”
O outro declarou:
“Sou da famosa cidade do Cairo e o meu nome é Mohamed El Magrebí.”
O capitão perguntou-lhe:
“O que te trouxe à Pérsia?”
O outro optou pela verdade e disse-lhe:
“Um homem ordenou-me num sonho que viesse a Isfaján, porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfaján e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser os açoites que tão generosamente me deste.”
Perante semelhantes palavras, o capitão riu-se até mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer:
“Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio de sol uma figueira e a seguir à figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu contudo, aborto duma mula com um demónio, vagueaste de cidade em cidade, somente por acreditar num sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaján. Toma estas moedas e vai-te embora.”
O homem guardou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte do seu jardim (que era do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençoou e o recompensou e exaltou. Deus é o Generoso, o Oculto.»
(“História universal da infâmia”, Jorge Luis Borges, ed. Assírio & Alvim)

16.9.04

Conhecemos a cena de nós e do cinema. O rapaz depois de se apaixonar pela rapariga, à noite, sozinho no quarto, ensaia vezes o discurso que o levará no átrio da escola à primeira tentativa de contacto com a rapariga. O desfecho é típico. Nunca diz o que previamente tinha ensaiado. Entretanto, nos momentos nocturnos em que ensaia o queres vir ao café comigo, à piscina ou ao cinema, tudo nele é tremura. Sabe aí, sem que o saiba, que o que ensaia não se dirá. Então, porque teima em tanto dizê-lo? – Também isso é névoa ou cegueira. Dizia Jesus: não vos preocupeis com o que haveis de dizer nas praças ou nos tribunais. Traduzo assim: não vos enoveleis, não vos encerreis. Se tiver que acontecer, acontece.

8.7.04

Fred Kruger é intrigante. A violação colectiva da mãe de Fred diz que as ameaças são múltiplas. O facto de ter nascido da violação colectiva que somos fruto de uma ameaça difusa. O facto de viver nos nossos sonhos e de a partir daí nos aterrorizar e chacinar diz que somos impotentes para bloquear o caminho do mal que existe dentro de nós. Não temos potência para bloquear os sonhos.

29.4.04

O futuro. Vivemos culturalmente sob a figura dominante da história, mas o modo como lemos a história tem tendência a deixar de lado um dos seus horizontes. Dedicamos tempo às origens, à origem das espécies, do homem, das sociedades, do universo, mas dedicamos pouca atenção às finalidades. No entanto, ouvimos repetir com razão que não sabemos quem somos se não soubermos para onde vamos. Só com este horizonte de futuro, com a imagem do que não somos, fica completa a nossa imagem.

22.4.04

A escolha de modelos de conduta vive no reino da circularidade. A nossa escolha depende da escolha de outros que se influenciam a nossa escolha por sua vez dependem da escolha de outros que por sua vez escolhem o que escolhem porque um sistema de modelos os disponibiliza e que por sua vez só disponibiliza estes e não outros porque as escolhas incidem realmente sobre os modelos que disponibiliza, o que acaba por fazer com que este sistema dependa da nossa escolha, o que por sua vez...

13.4.04

A investigação moral é de menor valor do que a prática moral - não deixa de ser curioso que grandes moralistas – aqui no sentido de construtores de teorias morais – nos tenham deixado esta advertência. Com isto visavam situar o estudo da moral. Evitar a bazófia. O seu oposto: a auto-depreciação. Pois, se somos avisados do valor relativo do estudo moral, não somos dissuadidos de o fazer.

8.1.04

Dos inimigos. Pouco se ouve falar de semelhante fenómeno. No entanto, uma das coisas que caracteriza a vivência social quotidiana é a invenção de inimigos. Alguém que se enfia no espaço entre o nosso carro e o carro da frente, passa a inimigo... A invenção de inimigos não diz necessariamente insanidade mental. Nós precisamos de permanentemente efabular. Precisamos também de imaginar inimigos como modo de nos prepararmos para o seu encontro. Por isso, quando o carro da frente ou a piada maledicente nos perturba e quando nós vemos o condutor ou o cómico como inimigo, isso pode não trazer consigo nada de mal. Quem momentaneamente se interpõe no nosso caminho, fá-lo assim: momentaneamente. Depois, vai à sua vida. Não quer saber de nós para nada. Contudo, se paramos o tempo, esse tempo em que demoramos a imaginar que quem fica parado no carro da frente, rompendo as luvas de competição, esse tempo gasto a imaginar o sorriso sardónico suspenso à Matrix, diz o tempo que nos resta até que comecemos a imaginar que o cão da vizinha é um alien.

26.12.03

Transportamos para o sexo diversos modelos. O que de algum modo não poderia deixar de ser. Não se ensina sem se utilizar algum modelo de professor. Não se come sem um modelo de estar à mesa. Na cama, o mesmo. E um dos modelos preferidos é o do combate. Há que vencer o inimigo na cama. Obrigá-lo à rendição.

15.12.03

Não só é sensível tudo o que se relaciona com a nossa moralidade pessoal, afinal mexe com aquilo que somos e com a segurança com que habitamos a nossa pele, como também aquilo que mexe com as questões relacionadas com as minorias. Há felizmente um grande fluxo de advertências às posições dominantes. No entanto, tudo o que pode ser visto como aviso às minorias traz consigo uma enorme irritação à flor da pele. Sabendo isso, ainda assim deve ser dito que se as minorias passam frequentemente pelo sofrimento e pela injustiça, não é o facto de por aí passarem que lhes confere razão em tudo o que reclamam. E sobretudo quando reivindicam e esquecem que o caminho que palmilham é sempre feito a dois.