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5.5.07

Amatória e Invernosa "- Bem (diz o Sr. Teste) - O essencial é contra a vida" - Anacreonte não pode senão concordar, mas não sabe exactamente o que isso quer dizer. -

6.3.06

Joseph Conrad o coração das trevas. Vou lendo aos soluços, uma modalidade que não conhecia. Há muito que ando para o ler. Para perceber quem poderá ser Kurtz’s Conrad. O misterioso Conrad’s Kurtz. O misterioso coração da trevas. Espero entre um soluço e outro. E penso que não espero coisa pouca. Contudo, antes disso, fica em bronze o excerto: «sabem como odeio, detesto, não tolero mentiras, não por ser melhor do que os outros mas simplesmente porque me assusta. Têm um ar fúnebre, sabem a morte – exactamente aquilo que mais odeio e detesto no mundo – o que mais quero esquecer. Deixam-me infeliz e doente como se tivesse trincado qualquer coisa podre. Ao que julgo, questão de feitio.»

13.2.06

Na Invasão Divina de Philip K. Dick, hologramas, uma Bíblia, por exemplo, em formato de holograma, com capacidade para se reorganizar em função do ponto a partir do qual se cria o holograma, naves espaciais, cápsulas, viagens no tempo, fazem o dia de hoje, hoje, a terra governada pelo Partido Comunista e pela Igreja cristã islâmica, Belial, o Grande Inimigo à solta. Por isso, de novo uma nova necessidade de salvação. Mas qual a nova encarnação de Emanuel? Como poderia passar a teia de defesa e de ataque tecnológica, sobrenatural, montada pela ordem deste mundo e pelo Inimigo que também anda no outro para o impedir? - É este o pretexto para a ficção que aparece na Invasão de Philip K. Dick, 328 da colecção argonauta, dos livros do Brasil. Deixo de lado, a análise, que me ultrapassa, dos elementos especulativos, cabalísticos (?), e mais do que pôr em destaque este longo fragmento: «- É o pai? – perguntou-lhe o médico. – Sim – respondera Herb Asher. O doutor sorrira e anotara isso no boletim. – Pensamos que devíamos casar. – É uma boa atitude (…) Sabe que é um rapaz? – Sim – certamente que era. – Há uma coisa que não compreendo – confessou o médico. – A impregnação foi natural? Não terá sido artificial? É que o hímen está intacto. – Sim? – perguntara Herb Asher. – É raro mas pode acontecer. Portanto teoricamente a sua esposa ainda está virgem.» (98) gostaria que a minha memória retivesse: «A imagem de Linda Fox no espírito de Herb Asher continuou a sofrer uma transformação desanimadora; ela via-a grosseira e de má pele, uma coisa flácida que comia demasiado e deambulava sem destino, e compreendeu que essa era a visão do acusador; a criatura cabrito era a acusadora de Linda Fox, era quem a mostrava – quem mostrava tudo na criação – sob a pior luz possível, sob o aspecto da fealdade.» (198-199)

27.1.06

... alguns milhares de páginas em Tolkien e em Faria, por isso no lado de lá, são uma das justificações para não ter passado muito por cá ...

18.11.05

Comecei a ler. Assim, começa: «O jardim está perfeitamente sereno. Varro um pó colorido de restos de flores e folhas e coloco o silêncio num prato branco.» O livro de poemas de Cristina Tavares de 2005. Irei continuar o seu Trabalho de Jardim. Antes disso, obrigado ao ar líquido.

25.7.05


leningrad cowboys: quais são os critérios do sucesso? - estes homens foram procurar sucesso para a América em 1989. não há notícias que tenham sido bem sucedidos. é uma injustiça.

25.6.05

23.6.05

Laranja Mecânica. É arte. E pormenor. A arte tem de lidar com o pormenor. O que se vê no envelhecimento dos filmes. Durante anos, a minha única ambição monetária era a de ter dinheiro para comprar um gira-discos igual ao que aparecia no quarto. Nunca me informei do preço. Nem nunca trabalhei para isso. Mas tinha a ambição. Passei tempos babados na montra da discoteca de Santo António a tentar verificar se o aparelho que esteva na montra era igual ao do Laranja Mecânica. Isto manteve o filme bem vivo. Mas, podia ter sido a farpela. Não seria impossível imitá-la. Com jeito, na altura, muitos eram capazes de comprar uns suspensórios e usá-los em dias de calor. Como nós que fomos ao Nuno Alvares. Éramos os três do Trindade. Os três para caquécticos: um perto do cancro, outro do enfarte, o terceiro da trombose. Mas não é por isso que o filme está velho. A Laranja está velha porque não provoca imitação. Não da violência. Mas, do pormenor: do gira-discos, das botas, dos suspensórios, dos protectores de testículos…

20.6.05

Em grande e pequeno. Vi e gostei. Para quem quiser partilhar o gosto, um primeiro passo pode passar por clicar em cima da imagem. Outro por clicar em cima deste link.

17.6.05



Amanhã, vestido, Virgílio Liquito. Um livro que não é para todos os gostos. Eu gostei. Sem concessões, cru, uma voz singular. Mesmo. Mas é abjecção. Dentro da abjecção, um universo próprio. O refazer de um universo macabro, urbano e portuense, onde como na sua melhor tradição, século dezasseis, dezassete, outros que o digam – o pormenor abunda.

10.6.05

Herói e vilão. Quem vê os guiões do Chuck Norris, quem é se presta a julgar-se o vilão que leva com os pontapés nas ventas? – Não é fenómeno virgem. Haverá alguém que na leitura de os Irmãos, do amigo e mestre Dostoievski, se identifique com a pior das personagens? Quem se identifica com um bêbado, gordo, bufão, intrometido, falhado, com falta de respeito aos outros e com falta de respeito a si mesmo?

3.6.05

De algum tempo para cá, poucos livros me puseram a correr atrás, e a seguir, e a seguir, como o livro que contém as oitocentas e tal páginas com as aventuras de Tom Jones, no cómico século dezoito falado em inglês por Henry Fielding.

2.5.05

Via poesia distribuída na rua. A Editora Canto Escuro iniciou a sua actividade pública com a saída do prelo do livro "Esses Dias - HenryKiller.blog" da autoria de Vitor Vicente. Em breve (muito breve), numa livraria perto de si.

2.11.04

E de um filme fala o meu amigo José António Henriques. «Abril, de Nanni Moretti. Não se trata de um filme recente. Pode ser considerado um filme político já que refere aspectos da vida política italiana, sobretudo a partir da chegada de Berlusconi ao poder na Itália. Pode ser um filme autobiográfico, que invoca aspectos da vida privada do realizador/actor como o nascimento do seu filho Pietro. Mas o objectivo aqui é destacar um momento do filme: quando a personagem Nanni Moretti faz quarenta e quatro anos e, numa pequena festa, recebe alguns amigos, um há que lhe apresenta uma fita métrica e argumentando que Moretti nunca mais fez um filme, pergunta: quanto pensas viver? Setenta? Setenta e cinco? Oitenta é a resposta categórica do realizador. Assim, com a fita nos cem centímetros, o sarcástico amigo, numa atitude de gozo e amizade à mistura, faz os ajustes: reduz de cem para oitenta centímetros e, destes oitenta, subtrai quarenta e quatro. Apanhou Moretti desprevenido, que olha estupefacto para a fita métrica diminuída. É o que lhe resta. Já na sua lambreta, circulando pelas ruas, Nanni faz as contas, sem responder: "oitenta menos quarenta e quatro. Oitenta menos quarenta e quatro.". Ainda com a fita, reconhece que deve concentrar-se no essencial e não em filmar coisas feias; deve deitar fora artigos de jornal que havia guardado desde há vinte anos só porque o deixavam irritado. Diremos que é uma parte do filme muito reveladora: deitemos fora tudo quanto nos angustia e persegue; deixemos de dar relevância a coisas bem pouco importantes e às quais tantas vezes concedemos tempo. Em que nos temos desgastado? Há razões para perguntar, pois a fita métrica só diminui.»

30.7.04

Win Wenders. Anjos. Parece que quem aprecie – como aprecio – as asas do desejo de Win Wenders pode dizer uma coisa. Se aqueles anjos são anjos, não parecem viver a tensão dos anjos, a tensão que vivem os anjos por também estarem sujeitos ao veredicto divino. Por isso, quando um dos anjos de Wenders resolve tornar-se homem, nesse momento vive a verdadeira tensão dos anjos. Entra no jogo de ganhar e perder, viver ou ser expulso do amor; primeiro da trapezista, depois…

29.7.04

O Anjo Mudo de Heinrich Böll. Alemanha, 8 de Maio de 1945. A guerra acabou e os homens e mulheres retornam. Colónia, onde a acção se desenrola, estava submersa em escombros: igrejas bombardeadas e hospitais de emergência. Böll retrata os que deambulam sofrendo e chorando. É o caso de Regina Unger e Hans Schnitzler que se encontram fruto do acaso e desenvolvem entre si uma história de amor procurando, ao mesmo tempo, a sobrevivência, pois se a guerra acabou, a fome não. As dúvidas sobre a paz são evidentes nas palavras de Hans: “Eu sei que a guerra já acabou, mas paz?”. É um mundo minado pela incerteza do amanhã e pelas memórias visíveis do passado. Hans combateu pela Alemanha e, no seu regresso, procura um passaporte para escapar às repressões dos aliados e obter uma nova identidade. Celebrou o dia do armistício, sentado sobre um caixote de lixo, a comer fatias de pão. Recebe apoio de um capelão: a solidariedade é possível. Mas encontra também indivíduos que personificam o mal, obcecados pelo dinheiro, que fingem que nada se passou no país: o doutor Fischer. O Anjo Mudo apresenta a descrença nos homens apesar do amor e a ideia de que não há pátria neste mundo, embora germine a possibilidade de refazer a vida ali, num país arrasado. (Colaboração de José António Henriques)

24.6.04

Jean Paul Sartre, As palavras, Unibolso, s.d., s.l. As Palavras são um exercício de Sartre para reinterpretar o seu passado. Um exercício irónico. Por agora, deixo de lado a função da ironia. Na interpretação que Sartre faz do seu passado há uma insistência no carácter público da sua vida. O quer isto dizer? – Que a sua identidade é feita em função do olhar do outro. Mas porque não há um olhar, mas olhares, olhares diferenciados, a identidade corre permanentemente o risco de se perder. Para compensar este risco, Sartre quer ser. E quer ser uma coisa primeira, uma base, que permita o ir e vir da variação. Procura-a e como muitos outros encontra-a na profissão; na profissão de escritor. Ser escritor, constantemente escritor, permite suportar a variação nas amizades, nos amores, nos compromissos. Salva a variação da dissolução… Dito isto, uma nota final: Sartre assume um religioso travestido; se a santidade do religioso concede a imortalidade, Sartre procura a imortalidade na glória mundana.

4.6.04

Colaboração de José António Henriques. Mais Primo Levi. A Trégua, de Primo Levi. Regressar a casa pode ser uma tarefa difícil. Podemos afirmá-lo se pensarmos no caso dos ex-häftlinge, sobreviventes dos campos de concentração, retratados neste livro. Depois da experiência-limite de Auschwitz, onde foram, em potência, números a eliminar, Primo Levi e os seus camaradas, contactam com uma Europa devastada pela II Guerra Mundial. O comboio de mercadorias que os transporta de regresso, sob orientação dos russos, circula sem organização, entre a Polónia, Rússia, Roménia, ou mesmo, Alemanha, o que faz desta viagem uma odisseia que possibilita a Levi o contacto com homens e mulheres com histórias singulares de resistência, muitas envoltas em mistério, que se poderiam encaixar na literatura fantástica. Como o Mouro de Verona, o velho blasfemo, que praguejava contra o dia e contra a noite, contra Deus e contra os homens. Contra si mesmo. Contra os tijolos que cimentava, já que era pedreiro... Mas o regresso a casa assume ainda um sentido mais alegórico: como sobreviver ao veneno de Auschwitz? - A experiência do Lager levou Primo Levi a um sonho incessante, pleno de terror, que no seu término continha a palavra do comando da alvorada em Auschwitz: “Wstawac”, levantar.

17.5.04

Recebi via mail - José António Henriques. Se Isto É Um Homem, de Primo Levi. Trata-se de um testemunho seco e minucioso sobre a ofensa que o homem fez ao homem. Primo Levi resistiu a Auschwitz-Monowitz, fruto de várias circunstâncias como contrair escarlatina no momento da evacuação do campo pelos SS, que abandonaram os doentes à sua sorte. Quanto ao Lager (campo de concentração/extermínio) sintetizou-o como o inferno dos nossos dias, onde “a luta para sobreviver é sem remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só.” Os homens, sem nome, sem bens materiais, sem direitos, são Häftlinge (judeus, criminosos e políticos), hóspedes do Lager, e constituem uma massa uniforme de sujeitos às riscas que protagonizam entre si uma luta desigual pela sobrevivência. A lei do Lager dizia: “come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho”, de modo que cada Häftling (com desvantagem para os judeus) procurava fazer parte da classe dos homens que se salvam, embora sucumbir fosse o mais simples e acessível. Se Isto É Um Homem relata a redução do homem à sua mera animalidade já que praticamente todas as condições que identificam um homem são, naquele espaço, violentamente subtraídas. Respondemos a Primo Levi que: não, isso não é um homem.

26.4.04

Via mail (José António Henriques) A Lua e as Fogueiras de Pavese. O narrador Enguia, filho bastardo, sem pais, sem terra e sem nome, regressa à terra onde cresceu, após vinte anos por outras paragens. Guarda dentro de si algumas questões como: "quem sou?" ou "de onde sou?" A vida não lhe deu respostas, nem espera consegui-las. Tudo está consumado, e o narrador não coloca a questão "para onde vou?". O livro é um exercício terminal do próprio autor. Aqui não há amor nem esperança para as personagens. Mas não pode haver? - Não. A vida é cíclica como as estações, como as fases da lua. Tudo se repete, segundo o princípio do eterno retorno. O fatalismo do autor leva-o a considerar que não vale a pena continuar. O ciclo fecha-se em definitivo. Enguia constata tudo isto com relativa calma, e sai da terra que o viu crescer. Também Pavese sai do palco da literatura e da vida, suicidando-se.