Empastelar 14. É isto, é este tudo fazer que resolve tudo menos o que há para resolver, este pensar tudo, este falar tudo, que pensa tudo e tudo fala menos do que há para pensar e para falar. São estas camadas sucessivas para tapar um buraco que ainda assim não se enche.
2.3.05
1.3.05
Empastelar 13. A coisa passa por algo assim. O jogador olha para o pé. Está para marcar o penalty. O estádio em silêncio. A mulher na cama não percebe. A casa em silêncio. Como é evidente, empastelar será dar a volta ao campo, treinar os cinco mil metros. A estupefacção, claro, será menor se abrir braços e pernas, xis e xis, momentaneamente ginástica sueca. Do mesmo modo, a mulher nas compras, quando o marido nas noites dos últimos meses, não parece ter sede dos seios, da humidade da boca. Ou seria e é quando pensa, racional, no preço do creme, sopa, laca. Claro que não o dirá. Mesmo se encontra a amiga, por acaso, numa loja, do Gaia Shopping, e conversa, ante um quarto de pizza, de tudo e nada, pois quase toda a conversa é pretexto para empastelar.
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17.2.05
Empastelar 12. Adensemos o delírio e comparemos a lustrosa bola de Berlim ao desgraçado pastel de carne. Que desgraçada composição a deste! - Como compreender tal insucesso!? – Não sei o suficiente acerca dos valores calóricos ou energéticos que justifiquem o abandono consensual do pastel quando os emagrecesses começam a sê-lo. De facto, qualquer candidato à saúde ou à linha deixa facilmente o folhado, e vê-se em obras para deixar de salivar perante a bola laranja. A razão que aqui deixo é estética. Massa e forma. Quando emagrecemos ou alinhamos, e preferimos o pastel à bola, estamos de sentido estético alterado. Bola e pastel vivem na fissura. Mas a bola, formalmente, por ser redonda, traz consigo uma ilusão de fechamento – e por isso de fechamento do problema da fissura – e de um fechamento que por ser geométrico apela para as noções intuitivas da perfeição – e por isso para um fechamento perfeito da fissura – um dos mais poderosos desejos. Já o de carne, não só vive o signo do rectângulo, como o vive de modo irregular e, digamo-lo, com toda a franqueza, do desleixo. Tal chegaria para justificar o seu abandono, mas mais o pastel junta a essa opção. Primeiro, porque se dobra triste sobre si mesmo e inclina desleixadamente a cabeça sobre os pés. Mete dó. Depois, porque quando comparamos os dois objectos massivamente, se ambos vivem da fissura, a fêmea exibe a fissura de modo cremoso, enquanto o macho vive a vergonha de a esconder, cobrindo-a com negros detritos orgânicos. Assim se a massa da fêmea é sólida e macia, a do pastel é estilhaçada e promete em cada estilhaço uma agressão às nossas delicadas gengivas.
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16.2.05
Empastelar 11. Dito isto, dita a fissura, poderemos lembrar-nos de mais, mas pelo que posso ver na vitrina do meu café habitual, os bagaços poisados em cima, logo pela oito da manhã, apenas posso ver um pastel digno desse nome. A bola de Berlim. Qual doce nata, qual salgado, poderá exibir desnudadamente a magnífica fissura e o desejo do pasteleiro de transformar a dor da brecha em doce e amarelo creme?
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Empastelar 10. A origem do empastelamento é a fissura. Numa criatura não empastelada, a fissura surge sem constrangimento. É o caso da criança que brinca sem pensar na dor que anteriormente sofreu. Numa criatura empastelada, para se dar a fissura, a criatura tem de algum modo estar distraída. É o caso do sedutor que explica a uma nova amiga como não liga ao amor e que ao sentir a necessidade de novo encontro para lhe provar que é assim, duvida por momentos do juízo que faz da paixão. Depois, ri-se e compõe a figura.
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15.2.05
Empastelar 9. Pré empastelamento. Claro que antes há um pré-pré empastelamento. Um pré-pré-pré. Um pré-pré-pré-pré. O pré empastelamento pode consistir no seguinte: ele, por exemplo, diz aos amigos que não ama, nem há-de amar. Que outra coisa. E na repetição, acontece que fica pré empastelado… Mas temos de nos aproximar do empastelamento. O que é o empastelamento? – Tem a ver com pastel, tinta, massa folhada, pintar, colar com creme amarelo. Com um mandar para lá. Pensamentos, memórias – curioso é o facto da selecção da memória –, muito frequentemente imaginação. O empastelamento é um processo que joga forte, e por isso, manda para cima, todos os recursos que tem. Pensamentos, pastéis, tintas, o seleccionado na memória, o elaborado pela imaginação. E mais tivesse, mais mandava. Para cima. Por isso, é – primeiro ‘xioma* – um processo global e insatisfeito.
*‘xioma do verbo chiar
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9.2.05
Empastelar 8. A propósito do Carnaval. O Carnaval é uma hipótese de des-empastelar. Usualmente, o que existe por cima, por fora, falando com os topos de Freud, empastela doses de creme, para colar o que existe por baixo, por dentro. O processo de aprendizagem cultural é também – é outras coisas, mas disso não tratamos agora -, um trabalho de empastelar e um empastelamento feito para ligar feridas narcísicas, desejos avarentos. Nessa perspectiva, podemos dizer que, ao contrário do que se pensa, a aprendizagem cultural nada tem nada a ver com as indicações que me foram dadas pela professora de Introdução à Política, nos idos anos da Revolução, “há que aprofundar, o menino não aprofundou a luta das classes”, para justificar os meus suficientes, pois, nesta perspectiva, o processo de aprendizagem tem sobretudo a ver com um processo desastrado e frenético de dar à barbatana para subir para a bóia e para cima da borracha aí ficar de gin na mão… No Carnaval, toda a gente o sabe, o processo posto em andamento pela cultivação cultural fica de pernas para o ar; de pernas que se esticam em direcção ao fora, embora, nunca ao ponto de as raparigas usarem longos pénis de silicone, ou de os rapazes… O Carnaval mostra que é possível viver num regime de des-empastelamento. Mostra que os traumas mais profundos, os desejos avarentamente modelados, encontram periodicamente uma forma que não desdiz o fundo. As calças não desdizem o cu. Mostra por outro, que o resto do tempo e o resto do ano, o empastelamento rules, e que o eu sou um outro rimbaudiano não é frase de marginal mas frase de um poeta que vota no bloco central.
P.S. - Obrigado ao C.A.P. e ao seu Rimbaud.
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3.2.05
Empastelar 7. Por exemplo, para nos convencermos que não conseguimos. A quantidade de coisas que fazemos!
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1.2.05
Empastelar 6. Concedida a possibilidade de uma sequência de posts em trapalhada, e antes ainda de algumas Patinhas de contribuição teológica, - porque, sim, li o Almanaque -, meditemos no seguinte excerto: “Sabemos que a lei é espiritual. Mas eu, sou eu, ser de carne, vendido ao poder do pecado. Porque não compreendo o que faço: pois não faço aquilo que quero, mas sim aquilo que aborreço. Ora, se eu faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. E assim, já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que não há em mim, isto é, na minha carne, coisa boa, pois quero o bem, que está ao meu alcance, mas realizá-lo não. Efectivamente, o bem que eu quero, não o faço, mas o mal que não quero é que pratico. Se, pois, faço o que não quero, já não sou eu que o realizo, mas o pecado que habita em mim. Deparo, então, com esta lei: querendo fazer o bem, é o mal que encontro.» (S. Paulo, Romanos 7:14-21).
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31.1.05
Empastelar 5. A harmonia diz o povo, diz o cu com as calças. Subindo no corpo social, no cabelo, conteúdo e forma. Então, se o conteúdo é o empastelar, os posts deviam empastelar. No que a sequência diz da forma, a forma empastelada requer trapalhice. Honra nos seja feita. Não só o propomos, como o cumprimos. Tanto que não dissemos ainda o que é o empastelamento. Afinal o que é isso?
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27.1.05
Empastelar 4. Piscando o olho às problemáticas que se podem produzir pensando o empastelamento, surge aqui uma boa questão no complexidade e contradição: Sontag tem razão: «(...) discutia-se Paula Rego. A admiração pela simplicidade do discurso era generalizada: Paula Rego tem respostas desconcertantes e afirmações muito cruas sobre o que faz. Quando confrontada com a forte simbologia de uma rosa num quadro seu, Paula Rego respondia que apenas tinha pintado a rosa porque esse canto do quadro lhe parecia muito vazio. (...) O ponto importante nesta história era evidente: o artista nem sempre sabe o que faz. A intuição (ou outra coisa qualquer) gera um impulso irreflectido que só mais tarde, a posteriori, aparece descodificado por um terceiro: o crítico. Agora, é legítimo colocar a questão: qual a importância dessa análise, quando manifestamente é algo exterior à obra, para a valorização da arte? (...) Na altura fiz o paralelo com Souto Moura (não me lembrando que recentemente foi anunciado a construção do Museu Paula Rego, em Cascais, desenho do próprio, o que se assume como uma coincidência feliz). Souto Moura possui essa qualidade (que deixa sempre a dúvida de ser intencional ou não) de reduzir o seu trabalho a um discurso simples, quase simplista, de palavras secas e desconcertantes. «Faço as coisas porque me parecem bem», dispara, pondo de lado qualquer intenção intelectual de afirmação pessoal. Quer isto dizer que as palavras que são escritas sobre a sua obra o surpreendem? Quer isto dizer que, à semelhança de Paula Rego, Souto Moura não sabe o que faz? A resposta é óbvia e serve para descobrir a intencionalidade da atitude. Os adjectivos são correctos e colam-se bem à arte. Mas se a arte (e isto é que Souto Moura e Paula Rego sabem bem) só se descobre depois dos adjectivos, então os adjectivos serão, provavelmente, errados.»
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Empastelar 3. O empastelamento é parecido, mas é outra coisa. E a diferença começa no exacto momento em que supõe um juízo negativo.
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26.1.05
Empastelar 2. Há então que desviar a criança da dor. Do choro para as festas. Há que fazer deslocar a sua atenção para outras partes do seu corpo. Depois, podemos somar ainda uma explicação física do chão e da anatomia do corpo. O que de algum modo se parece com o empastelamento, mas não é.
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25.1.05
Claro que (empastelar 1) se a criancinha fica a olhar para o joelho a sangrar, para a ferida e daí não tira os olhos está tramada.
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