Na sacristia pergunta-me o que penso da distância que vai da letra, espírito, do Evangelho à sua concretização na prática. E eu penso algumas coisas. A primeira é que posso estar redondamente enganado. Contudo, e ainda assim, com ou sem erro, aqui vai. Por vezes, grande parte das vezes, há de facto, uma dificuldade em vê-lo realizado na prática. Porque também é assim que muitas vezes vejo a sua concretização, posso dizer que pelo menos no meu caso, isto tem por trás do fenómeno o seguinte. É uma das leis da óptica – ui, o que é que eu disse – que vejamos melhor o que é maior. Como é uma das leis do pensamento que compreendamos melhor o que se encontra em sistema. Por isso, observamos com maior facilidade os grandes gestos e as grandes decisões que os inspiram. E passa-nos ao lado os pequenos gestos e as pequenas decisões. Os pequenos gestos de amor. Um professor debruçado e preocupado com a aprendizagem de um aluno que se mostra recalcitrante. Um grupo de alunos preocupado com a saúde de um professor que sai da sala subitamente zangado. Uma prostituta que ali para os lados da Avenida da Boavista é capaz de superar a frustração de não sermos seus clientes e que nos diz com gentileza as horas. Outros gestos e outras decisões assim. Ora, a esta dificuldade de visão soma-se uma dificuldade de teoria. Tanto quanto eu sei, com dificuldade construiremos uma extensa e sistemática teoria que seja capaz de dar conta das semelhanças de motivação que ocorrem nas acções do professor, do aluno e da prostituta. Claro que podemos dizer que todas elas são fruto de generosidade e que a generosidade é cristã. Se o dissermos penso que dizemos muito. Chegados aqui, pergunto-me vezes sem conta se é preciso dizer mais. Seja lá como for, a minha opinião é então que se não vemos a concretização do Evangelho, não é porque ele não se concretize. É porque não temos olhos para ver a sua concretização e porque temos um pensamento que tem tendência para se deixar arrastar para o inchaço.
15.3.06
22.7.05
A doutrina, José, CC, tem por função construir um quadro universal. Um quadro susceptível de nortear o pensamento de todos, susceptível de nortear o comportamento universal. Isto é pesado. Mas é um peso que tem de ser carregado. Precisamos de referentes; para os aceitarmos, para os modificarmos, para os rejeitarmos. Na teoria e na prática. O problema do fundamentalismo, cristão ou islâmico, socialista ou capitalista, é outro; não é o de advogarem doutrinas e referentes; o problema é de não deixarem na teoria e na prática, espaço para os aceitarmos. O problema é que parecem imunes ao facto de Deus nos ter conferido liberdade.
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14.5.05
Evangélicos e protestantes. Um esclarecimento. Por Mário Martins. Via mail. - Evangélicos e protestantes partilham a mesma base histórica e teológica. Em ambos os grupos a primazia é dada à Fé, à Graça e à Bíblia. Mas as divergências surgem logo nos primeiros tempos da Reforma. E relacionam-se com a forma de conceber a Igreja. Digamos que os evangélicos (que se chamavam por esses tempos radicais, puritanos ou separatistas) pretendiam levar a Reforma até às últimas consequências. Queriam igrejas separadas do Estado, formadas apenas por membros que aderissem consciente e responsavelmente e que se apagassem de vez os resquícios do passado (sacramentos, hierarquias nacionais e transnacionais, baptismo infantil, etc.). Estes movimentos surgiram dentro das igrejas reformadas e ou foram reabsorvidos ou foram expulsos ou auto – excluíram-se. Por exemplo, os puritanos permaneceram na Igreja Anglicana, enquanto que os separatistas romperam com ela (e foram os “Pilgrim Fathers” da América). Em Portugal as coisas não foram muito diferentes. As igrejas protestantes “tradicionais” chegaram primeiro, em meados do século XIX. As igrejas “livres” vieram mais tarde, no fim do século. No entanto, entre elas havia alguma ligação, e colaboração até, o que tornava o termo “protestante” perfeitamente aceitável para designar ambos os grupos. O século XX veio, no entanto, trazer o afastamento. Sobretudo com a teologia liberal dos protestantes, à qual os evangélicos opõem a teologia mais fundamentalista, e pelo ecumenismo, que os protestantes abraçaram como uma das prioridades. Com o concílio Vaticano II católicos e protestantes deram passos de aproximação, o que veio ainda ampliar mais o fosso entre estes e os evangélicos. Parece-me que faz sentido, em nome da clareza doutrinária, a diferenciação entre protestantes e evangélicos. Obviamente assumo, como evangélico, a minha herança teológica. E tenho orgulho nela. Mas evita-se com a designação mais precisa as incorrecções tão frequentes. Como a de João César das Neves, recentemente no Diário de Notícias. Dizia ele que umas das coisas que ainda separavam a Igreja Católica Romana das igrejas protestantes eram as questões da moral e da sexualidade. Ora, isto é verdade, se tomarmos em conta as igrejas protestantes “tradicionais”. Resulta do seu liberalismo. Mas se considerarmos as igrejas evangélicas veremos que esta é a área em que precisamente se dá a maior convergência com o catolicismo. As posições em relação ao aborto, à eutanásia, à homossexualidade, ao divórcio, etc., são praticamente as mesmas. Ou seja, em Portugal a maior parte dos protestantes, no uso abrangente do termo, defende a posição oposta à referida por César das Neves. Porque são evangélicos.
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28.4.05
A TdA começava assim há um ano: Quarta-feira, Abril 28: NÓS OS VENCIDOS DO CATOLICISMO. Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
(Ruy Belo)
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18.2.05
No filme, uma colaboradora de Madre Teresa mostra-se fisicamente incapaz de continuar a colaborar com a obra na Índia. Madre Teresa pede-lhe: vai para Londres e reza, rezar é sumamente importante.
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14.2.05
19.1.05
No filme, Teresa está nos Estados Unidos, numa das reuniões da sua organização que entretanto se tornara internacional. Um dos dirigentes apresenta algo como um relatório e contas, um orçamento. E avisa para o acréscimo de despesas. Há que deixar de usar telefone, passar a usar sms. Poupa-se… Teresa pergunta ao criado: «quanto custa esta garrafa de água?» – O criado diz-lhe o preço. Teresa franze o sobrolho. Com aquele dinheiro, daria para… Faz contas. E rápida toma uma decisão: «declaro acabada esta organização». Alguém a interpela com angústia: mas como poderemos garantir que os esforços que desenvolvemos até agora não irão desaparecer? – Teresa responde: deixo isso nas mãos de Deus.
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18.1.05
No filme, para o jornalista que teimava em denegrir Madre Teresa, diz o padre que teimava em polir a sua imagem: - você diz que Madre Teresa esquece as questões sociais e políticas e que o que o faz serve interesses políticos ocultos! Não: você tem dificuldade em compreender que a única política de Madre Teresa é cuidar dos necessitados um a um.
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11.1.05
Celebrou-se ontem. "Na sua História Eclesiástica de Portugal, o Padre Miguel de Oliveira diz apenas o seguinte: «S. Gonçalo de Amarante que se supõe falecido a 10 de Janeiro de 1259; o seu culto foi permitido pelo Papa Júlio III (24 de Abril de 1551) e confirmado por Pio IV (1561); Clemente X estendeu o ofício e a Missa a toda a Ordem dominicana (1671)»." Em.
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29.12.04
No filme, Madre Teresa de Calcutá, numa visita a Roma e ao Vaticano, diz: «na Índia, a fome; aqui, talvez mais terrível, a fome de amor!» - Europa.
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15.12.04
«Estou assim a falar duma coisa que penso ser novamente necessária: um corpo de padres pregadores, com as características, a formação e o carisma necessários, que andassem de paróquia em paróquia, não apenas para comer as sopas do prior e ler o evangelho na missa, mas sobretudo para serem eles a dizer a homilia, como já antes se fez e devia voltar a fazer-se.» - Hoje na Terra, o José.
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6.12.04
A propriedade da terra - a propósito da terra, mas não desta que esta no ar; uma anterior. Gosto de questões assim. E gosto que sejam colocadas por quem vive a influência que se manifesta viva por trás delas. Significa que a influência inquieta. Que tem capacidade de inquietar. Revolve terra. Não a deixa adormecer. Quem se lembraria hoje, de discutir a propriedade da terra? – É questão ultrapassada, diz-se. Quem se lembraria hoje, de discutir a doação da terra à humanidade, não a mim ou a ti? A vós? Então:
«O Catecismo da Igreja Católica (certamente também considerado por muitos como mais uma obra ideológica ultrapassada, que não se compadece com os tempos modernos, uma manifestação do desajuste da Igreja à contemporaneidade) refere expressamente que o direito à propriedade privada não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da humanidade (2403). E a Constituição Gaudium et Spes adverte que «quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas também comuns, no sentido que possam beneficiar não só a si mas também aos outros» (69 § 1).»
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19.11.04
Um filme com um padre - aqui fica a informação - Diário de um Padre na Cidade.
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15.10.04
Hoje a Igreja celebra : Santa Teresa de Ávila, virgem, doutora da Igreja, +1582.
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14.9.04
Se Cristo viesse hoje há terra, seria ateu. Há quem o afirme, por exemplo, a teóloga alemã, Doroteia Sölle. Isto porque Jesus viveria sobretudo para os pobres. Esta tese é hoje frequentemente enfatizada, esta dimensão do pensar e da vida de Jesus tomada como exemplo maior. De algum modo, isto parece bem. “Choca” no entanto com: “ «Porque não se vendeu esse perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?» (…) Respondeu Jesus: «Deixai-a, ela tinha-o guardado para o dia da minha sepultura». Pobres, sempre os tereis convosco: mas a Mim, nem sempre Me tereis.»” (João, 12:5-8)
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27.4.04
Há tempo atrás, vi um filme que me marcou particularmente. E como por vezes acontece apenas ficou a marca e não o seu nome. O filme dava conta do serviço de um sacerdote católico numa zona degradada de Nova Iorque e das suas dificuldades para superar as adversidades no primeiro ano em que o exerceu. Penso que o filme era baseado num livro autobiográfico. Tratado cinematograficamente com os modos clássicos da narrativa de Hollywood, senti nisso uma falha. Porquê? – O sacerdote tinha começado o serviço com expectativas altas; contudo, pouco do que tinha sonhado tinha sido realizado. No fim, depois de estar perto do desespero, o sacerdote tomou a decisão de encarar o segundo ano com o mesmo empenho. Com uma diferença: aceitar desde o início do novo ano que o pouco que conseguisse fosse tudo.
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29.3.04
eXistenZ - A nAtureZa nos filmes. Já há muito havia inquirido porque é que hoje em dia pouco do que correntemente se diz – nos círculos de influência cristã – tem a ver com as questões da realidade na sua dimensão não humana, habitualmente designada por natureza. Isto, contrariamente, ao que acontece nos círculos laicos ecológicos ou nos círculos de influência da espiritualidade oriental, onde a natureza contínua a ser pretexto para se pensar o tempo, o espaço, os mecanismos de «iluminação».
Já foi dito – acentuado sobretudo por Lubac – que o pensar que se quer sob influência cristã, andou um pouco a reboque do pensamento que se instaura na modernidade – pensamento não sem revolta, diga-se de passagem, visível, por exemplo, em certo romantismo – e que por isso o seguiu no modelo que separa natureza e sobrenatureza, pensando então também a natureza como algo subsistente e dotado de autonomia.
Perante esta natureza sem Deus, o pensar cristão viveu uma dupla dificuldade. Por um lado, pensou a natureza sem os seus melhores «instrumentos»: Deus, a criação, a encarnação. Por outro, viu-se envolvido num jogo cujas regras eram ditadas pelos seus adversários. Por aqui, talvez se justifique não só o desconforto do pensar cristão sobre a natureza, como o desconforto perante a ciência, enquanto modo de acesso ao real, culturalmente privilegiado.
Se estas pistas estiverem correctas, por aqui pode entender-se também que o pensar cristão poucas vezes retire lições daquilo que a arte recente vai produzindo. Nas discussões inauguradas pelo impressionismo, pelo cubismo, expressionismo, nas questões que são suscitadas mais perto de nós, não temos grandes ecos da reflexão cristã.
Não que o pensar cristão não reflicta sobre a arte. Longe disso. Não também que não possa manter um discurso consistente sobre muito do que melhor hoje se vai produzindo em termos artísticos. Não tem por certo grande dificuldade em montar um discurso consistente sobre Bresson e o seu Journal d'un curé de campagne, nem sobre o Sacrifício de Tarkovski, ou sobre as diversas Paixões que têm assolado as nossas consciências. Tudo o que implique relações humanas ou a representação da divindade cai com facilidade sob sua alçada. Mas o que acontecerá se tiver que pensar objectos como eXistenZ de Cronenberg onde é posto claramente em jogo o modo como concebemos a realidade não humana que nos circunda?
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14.1.04
Uma cafeteira de chá forte e quente. Para ler, pensar ou relembrar no religionline: "Há algum tempo atrás, numa cidade estranha, muito longe de casa, um frio cortante nas ruas desconhecidas, uma igreja onde entrei por acaso. Um pequeno grupo celebra nesse fim de tarde de domingo. Há uma leitura de Marcos. Uma senhora, coordenadora do grupo bíblico, faz um comentário breve. Há ainda um salmo (recordo: pela tua luz veremos a luz), um poema de Milosz. Há, sobretudo, silêncio. Uma enorme contenção de gestos e de sons. No final a partilha do pão e do vinho continua noutro canto da igreja. Uma cafeteira de chá forte e quente, as conversas animam-se. Estava-se na véspera da ocupação do Iraque, nesses meses em que a Europa viveu talvez as maiores manifestações de sempre contra a guerra e o travo amargo da impotência.»
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