Mostrar mensagens com a etiqueta curto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta curto. Mostrar todas as mensagens

20.10.07

A manhã continuava de sol e de frio. Tinha sido uma boa opção. Estava perto. Fazia todo o sentido. A porta feita de névoa sem humidade. E nada de sólido. Entrou. No túnel, feito do mesmo material, não sentiu, já não se sentia qualquer pressão. Por isso, não estranhou a ausência de ruído. Ligeiramente mais, estranhou não ver ninguém. Mas o que poderiam fazer por ali? – Respondeu: - o mesmo que eu! – Sorriu e agarrou o prazer para si. Ao sair do túnel, em cima do prado verde, onde se viam os primeiros sinais de solidez, estavam uma mota, um pequeno barco e um avião de igual tamanho. Nas letras garrafais que pairavam no ar, leu: aqui, há obrigações, mas não há horários! E nem sequer te será dito: “deambula!”

2.11.05

Tenho uma divergência com o coreógrafo. Não tem a ver com o facto de eu não saber dançar sem tropeçar. Nisso estou como os outros. Não. Tem a ver com o facto de após estas duas semanas, continuar parado. Agora, sem delongas, passo a explicar. Antes de fazer, como tenho feito, de cisne, no São João, estava em casa, a fazer o que sempre faço. A pensar no que poderia fazer, a pensar no que não faço. Não sofro muito. Sou felizmente uma criatura a quem foi concedido o dom de pensar pouco no que não faz e muito no que poderá fazer. É, não duvideis, grande medicina e melhor remédio. De outro modo, sofreria muito. Sofreria com a ignorância do que não sei. Sofreria com os esforços para adivinhar o que poderá ser. Ou, talvez pior, com as dores de saber que quando souber, o sonho poderá não ser realizado. Acontece. E a quem acontece, acontece sofrimento. Não sou desses. Quando não tenho consciência do que quero, algo vago me serve. Quando não o consigo encontrar, penso que se sempre encontrei, não vai ser agora que a regra se irá quebrar. E a isso me agarro. Todavia, não posso dizer que não me preocupe a distância entre o que poderei vir a ser e o que realmente faço. Tenho consciência do que quero e do que faço, preocupa-me a distância, e a distância dói-me. Mas a dor é curta e de pouca monta. De facto, quando me assombra a distância, fixo fixamente o horizonte. O que não acontece com o cisne. Não conheço o horizonte. Há-de vir, mas enquanto não vier, nada posso contrapor ao que me disse o coreógrafo. A nossa relação – que palavra feia – começou assim. Não é de agora. Há para aí alguns, não muitos, realizadores, encenadores e coreógrafos, que não gostam de profissionais. Dizem: os profissionais estão viciados, não conseguem espontaneidade. Afincam-se a isso, sofrem com isso, e procuram nos seus filmes, peças e bailados, pessoas como eu. Amadoras. Aqui, para abono da verdade, nenhuma poderá reclamar como eu tanta propriedade em tal estatuto. No casting, talvez tenha sido isso que jogou a meu favor. O coreógrafo – gostei do fato – não me deixou dar mais de quatro passos. Quero esse, disse. E fui seleccionado. Não me deu um papel principal. Nem um secundário. Deve ter pensado que eu merecia melhor: um papel especial. Era o lago dos cisnes. Por isso, deu-me o de cisne. Nos ensaios, tinha em tão grande conta a minha espontaneidade que nada me mandava fazer. Deixava-me deambular pelo palco, à vontade dos meus caprichos. Pedia apenas que não desse encontrões à canastrona da primeira bailarina. Assim fazia. Na estreia, enfiei o fatinho justo no rabo, pus as penas no pescoço, e marchei para o palco. Iria deslumbrar. Não tinha dúvidas. Já tinha deslumbrado um especialista. Todavia, não sei o que me deu, pois depois de entrar no palco, perante o balcão e a plateia, perante o teatro cheio, parei. E parado fiquei até ao final do espectáculo. Com o soar das palmas, fiquei na mesma. Não me aproximei para agradecer na boca de cena. Só me mexi, quando as cortinas foram definitivamente encerradas. Fomos até à Ribeira, a dar palmadas nas costas uns dos outros. Não foi, por isso, boa altura para conversa séria. Mas, eu precisava de a ter. No meio das cervejas, cheguei à fala com o coreógrafo. Que achas de eu ter ficado parado? – O que ouvi quase me tirava do sério. Era para ser surpresa. Mas não aguentava. Iria pôr o meu nome em primeiro plano no cartaz. Tinha dado ordens para que o novo cartaz começasse a ser feito amanhã. Que eu era, sem sombra de dúvida, um génio. Um génio da dança. Que poderia revolucioná-la. Que por favor, por favor, não me mexesse. Poderia ser equiparado ao negro sobre o negro da vanguarda. Para além dos minutos, poderia ser as horas de silêncio da minimal. Poderia ser o que Beckett não tivera coragem para fazer. Porra. Era demais. Era lisonjeiro. Agradável. Bonito. Mas não para mim. Eu quero mexer-me. Diga lá ele o que disser, só quando penso em mexer-me, fico feliz.

25.10.05

Uma colher não. Era demais. Costumo, exagero, faço-o algumas vezes, levar à minha vizinha um pouco de limão, quando mo pede nas escadas. É curioso, pois tem sempre limão. Por vezes, andrajoso. Limão. Não sei porque mo pede. Não precisa do meu para nada. Nem de mim. Não fala comigo. Mas sorri sempre que me vê. Não mais, nas escadas. E os olhos são verdes. Esmeraldas. Não sei porque lho dou. Não gosto de a ver assim. Teve graça. Agora, definha. Não gosto de sentir que contribuo. Não contribuo. E contribuo. Tarde ou cedo, fina-se. Fica numa viagem. Madrid ou Londres. Tanto faz. Quando penso nisso, fico triste. Não gosto da ideia de a ver morrer longe. De não olhar a última vez a sua face. Se pudesse, não lho dava. Dava. Que posso fazer? – Sinto-me mal. Subo as escadas, abro a porta, desço, dou-lhe o limão, regresso até cima. Rigorosamente incompreensível. Sobretudo, a necessidade que tem de se sentar nas escadas, fora de casa, abaixo de casa. Podia estar lá dentro. Senta-se ali. Com um amigo.

22.10.05

Foi muito mau. E se não fossem os sapatos tinha sido pior. Tínhamos ido visitar os tios dela, faziam vinte e cinco anos de casados, o clima era de festa, e a festa era solene. Tinham-nos concedido a honra de um quarto. Não podia comportar-me de modo impróprio. Por isso, aceitei. Com compreensão. Com resistência. Penso que ela esperava pior. No caminho para a herdade do Alentejo, fomos em silêncio. Ela estava um pouco tensa. Os tios receberam-nos à porta, olharam-nos com simpatia, mandaram um empregado levar as nossas malas para o quarto. Ela tomou banho primeiro. Eu tomei depois. E ali estava em cima da cama. Uma prenda para ti, disse. Não esperava aquilo. De algum modo, ela tinha razão. Não era dia para calças de ganga, casaco de couro, mesmo que calças e couro fossem acabados de comprar. Compreendi, repito, e não gostei. Como compreendi e aceitei que não me tivesse comprado os sapatos. Não é fácil comprar sapatos para os outros. É a história da gata borralheira. E a minha. Sempre que compro roupa para a minha amante, evito sempre duas coisas. A roupa interior por opção. Os sapatos por impossibilidade. Por isso, perante o ar malicioso dela, o orgulho no resultado, enfiei o fato azul, a gravata branca e a camisa da mesma cor. As minhas meias e os meus sapatos. Entretanto, os carros chegavam. A azáfama corria o resto da casa. Antes de sair do quarto, senti-me menos-mal. Havia ainda o contraste entre a armadura e os sapatos. Ao sair, na sala, no jantar, de copo na mão, até voltar para o quarto, senti-me péssimo. Senti-me sobretudo dos pés para cima. E sabia que poucos poderiam adivinhar quem eu era dos tornozelos para baixo. Por isso, mexi e remexi, vezes sem conta, os sapatos debaixo da mesa, levantei e baixei mil vezes os pés em frente do sofá. Contudo, nem o facto de não ter perdido por completo a minha identidade evitou que eu fosse brusco na recusa de cumprir na cama os deveres conjugais. Ela sim. Quebrou uma regra. E foi excepcionalmente tolerante.

20.10.05

vocês conhecem a paisagem de fotografia; ou podem conhecer; as explicações geológicas, alguns; não todos; e todos com dificuldade; dois montes arredondados, um de cada lado, do monte maior, escarpado, erguido ao céu; o conjunto é motivo de risos; de espantos e contemplação, se o Inverno o enche de neve; contudo, penso eu, não deve ter sido o conjunto que impressionou o monge que chegado de terras distantes, instalou no monte maior um convento; mas a oportunidade de estar longe de todos; perto do céu; os aldeões das aldeias em volta, reza a lenda, ficaram espantados; é sabido, também deles, como os movimentos religiosos, coabitam mal com o sexo; e desde tempos imemoriais, diziam eles, ali estava o falo do mundo; por isso, chamavam ao monte maior, monte da pila erguida; é essa a história, essa lenda que agora leio; e um episódio em particular me faz matutar; desde que se iniciara a construção, os monges iam às aldeias em volta, com os seus burros, mendigar tigelas de sopa; um pequeno grupo descia, ia às aldeias, e regressava com a caridade dos aldeões; no entanto, aqui e ali, ficavam acabrunhados quando ouviam os aldeões mais atrevidos, “pois, sim, com gosto, ofereço a minha sopa para a pila erguida”; por vezes, regressados às pedras amontoadas para lapidar, faziam queixa das graçolas ao monge fundador; um dia, coube-lhe a vez; assim, desceu, à frente do pequeno grupo de monges; como não podia deixar de ser a sua figura impôs respeito aos aldeões; e dessa vez, não se ouviram as graçolas; contudo, um aldeão não resistiu: não te incomodam as piadas que fazemos; como poderiam incomodar, retorquiu; gosto que riam; solta-vos os nervos; mas, e perdoai a minha seriedade, gostaria que não vos fosse estranho o pensamento que há coisas mais importantes do que o que pensamos ou dizemos; que há importâncias mais importantes do que as importâncias que temos; se isto fosse um guião para uma curta, poria aqui o vento a soprar e a zumbir; e depois deixaria o silêncio ribombar pelos vales em redor; e acabaria com dois grandes planos; a face do aldeão iluminada pela pergunta: mesmo que o mosteiro caia; a face do monge passando da tristeza à alegria de partilhar uma mesma compreensão.

17.10.05

Há noites destas. Blof, blof. O carro sem gasolina. No Porto. Disse-me ela, ao lado, estava o jardim de São Lázaro. Situação complicada. Precisávamos de um sítio para dormir. Não íamos ficar o resto da noite no carro. Eram três da manhã. Saímos para fumar um cigarro. Demos uns passos na rua. Chovia, regressamos ao carro. Não tens mais!? - Não tenho, disse-lhe. E tu!? – Também não. Dois cartões de crédito a zero. De manhã, podia telefonar para Lisboa, para ver se alguma alma caridosa seria capaz de depositar dinheiro na minha conta. Agora, não. Matavam-me. E tu!? – Não posso acordar os meus pais. Seria a morte certa. Era duro. Eu tinha vindo de Lisboa, ela viva aqui. Tinha acabado de conhecê-la. Mas isso pouco interessa. Foi, como sempre, longo e trivial. Embora, não pareça. Copos, sorrisos, conversa. O interessante veio depois. Ficámos no carro, em silêncio, sem saber o que pensar. Nem eu, nem ela. Ela a ver se eu tinha coragem. Eu a tentar decifrar que coragem seria a minha, se aceitasse usar o cartão Multibanco que o seu último namorado lhe tinha emprestado.

13.10.05

Estava de café e Porto, quando Barros Novais me perguntou: então e tu o que fazes!? – Havia algum travo de álcool, acidez em excesso, uma intimidade que me humilhou. Mais quando despachei: bom, neste momento, nada faço! – Ia para continuar, mas não o pude fazer. Naquele preciso momento, passaram para os charutos e para o sofá. Fiquei envergonhado. Arrogantemente envergonhado. O que tinha sido motivo de orgulho, agora, era motivo de vergonha. Tenho de perceber melhor como estas coisas funcionam. Como deixamos que se imponham. Mas uma coisa já sei: instalam-se como vírus e produzem doença. Permanecem idênticas nas mutações e adaptam-se às novas situações. Por exemplo, àquele jantar. Jantávamos: duas das eminências em biologia, Barros Novais, doutor, o doutor Fontes Carvalho; a esposa de Fontes Carvalho, o assistente de Barros Novais e a nova assistente de Fontes Carvalho. Corriam, na casa de Fontes Carvalho, ostras, limão, peixe grelhado, pato, vinho do Douro, e uma sobremesa esquisita. Nunca pensei sentar-me em tão magno repasto. E foi com dificuldade que aceitei o convite da minha amiga, a filha mais nova de Fontes Carvalho. Tinha ido ter com ela, de vespa, à chuva. Estava encharcado. Pediu: os pais queriam que ficasse e que não havia mal que eu ficasse também; se não me importasse, adiávamos o restaurante para outro dia; seduziu-me: estava lá Barros Novais, o nosso ídolo. Aceitei. Na casa de banho, passei o cabelo e a roupa pela toalha. Atravessei a largura da sala e sentei-me à ampla mesa. Mantive-me calado. Eles brincavam com as pequenas malandrices do meio. Eu quanto mais os ouvia, mais consciente ficava da distância que nos separava. Apenas queria poder continuar a fazer investigação em biologia. E tanto que tinha largado o ensino na esperança de uma bolsa que nunca mais vinha.

30.9.05

gostaria de contar aquela história; quando ele chega a estação, depois de durante a noite, ter decidido confessar o seu amor, ela, quinze minutos antes de entrar no comboio, beija outro; não há nada a fazer; ele sabia; ela tinha esperado por ele; mas, ele demorara tempo demais; contudo, mais do que fazer este relato, podíamos discutir se não seria mais interessante contar o modo como ele sentiu o que viu; se não soubesse o que fazer, se ficasse completamente paralisado, se na sua cabeça nem sequer surgisse a hipótese de fingir que tinha vindo comprar o jornal, poderíamos concluir que a amava verdadeiramente; depois, poderíamos pensar o que isto significa realmente; não sei é se não nos teríamos de calar.

27.9.05

esses dias foram felizes; conta-se de um mosteiro, na longa história de séculos, que o mais jovem abade foi um monge que tomados os primeiros votos, rapidamente ascendeu; os anais dão para isso uma razão singela e obscura; mostrava no semblante sinais de rara alegria pelo voto de pobreza; não querendo aceitar, dizia não ver em si mérito suficiente; no entanto, aceitou; ouviu que o cargo não era para si, mas para a alegria que o habitava.

21.7.05

Um gajo tem de ganhar a vida. Há para aí uma quantidade enorme que não tem nada para fazer. Fica em casa e por melhor que seja, ninguém lhe dá trabalho. Há gente a mais, é o que é. Já se foi o tempo em que podíamos escolher. Mesmo quando isso tinha o seu preço. Porém, quando muito, as actrizes levavam na pita. Depois, lá vinham uns papéis decentes. Agora, só nos sai disto. O que explica porque andei, faca na mão, na Marechal, autêntico palhaço, cara pintada de roxo, olhos carregados de vermelho, num enredo, como chamá-lo!? – A ideia foi fazer terror. Português. Na reunião no café da Praça do Império, o realizador explicou: há poucos. São precisos mais. Como se pode perceber, é um indivíduo empreendedor. E deu-me dinheiro a ganhar. Mas foi isso, só isso, sublinho, que me levou a entrar na maquinaria da morte. O filme começa com a reunião dos ricos da Gomes da Costa, no pequeno jardim que existe em frente das bombas de gasolina, antes da Marechal entrar na Boavista. Uma reunião americana. Os senhores e as senhoras estão sentados na relva em cadeiras de praia. Uma bela quarentona, saia e casaco azul, loura e platinada, discursa em cima do estrado. Não se ouve o que diz, pois o que diz está coberto por acordes nervosos de violino. No fundo do estrado, há um painel onde se pode ler: um novo monumento é um novo caminho para a felicidade. Entretanto, o guru passa na sua carrinha quatro éle. Pára o veículo. O que vê? – A oradora a apontar para o embrulho e a assistência a aplaudir em pé. Não é para menos. Penso que o realizador insinua qualquer coisa do género: o que obelisco não pode, podem os anjos. O monumento, o obelisco aos empresários, está coberto à Christo e tem um anjo estampado. Isso deixa o guru indignado. Ouve-se. Vocifera: há que chaciná-los. É o título do filme. Deduzo eu, mas tenho de vos fornecer mais dados. Antigamente, os marginais de diversa proveniência costumavam reunir-se em frente ao cat, centro de apoio à toxicodependência, que existe por perto. Agora, reúnem-se neste jardim. Bebem cerveja e trocam impressões. Civilizadamente, diga-se de passagem, e coisa só vista nas melhores cidades da Alemanha. A água que cai no obelisco, sossega-os. Por isso, raramente incomodam os transeuntes que passam de carro ou a pé. Entretanto, depois do guru ter dito o que disse, o filme dá um salto. Tipo Nova Iorque fora de horas, segue nove moços em momentos significativos do quotidiano. Todos estudam na Católica. Vemos sair um, depois outro, depois outro. Num grande plano sobre as fitas das capas, identificamos o que estudam. Dois são de Direito. Três de Teologia. Quatro de Artes. A seguir, somos confrontados com os efeitos dos seus desejos. Vemos as caras dos de Direito, num toque de cinema russo, de Ivan, de terrível, a esganarem longas masturbações. Os teológicos a arrancarem páginas à dentada, punho no ar, em quartos decorados com fotos de Estaline. O primeiro artístico a dar um acorde e a destruir a guitarra eléctrica. Outro a deitar fogo aos quadros. A mim – um poeta – a olhar bisonhamente o bairro da Pasteleira. O último, de vocação indistinta, sentado com a cabeça enfiada entre as mãos. O filme dá novo salto. Estamos numa sessão de esclarecimento. No seu quarto, o guru está em contra-luz, perto da janela, e nós espalhados pelo chão. Diz que faz falta ao mundo mais sexo, mais ignorância, mais fama. Pergunta o que achamos. Os das gajas dizem que está bem, que ficam com elas. Os teológicos que está mal, que nada aprendem em latim. Os artistas respondem com o conhecido «porque não?» – O guru adverte: é preciso dar cabo da cabeça da hidra. Dos poderosos, dos ricos. Dos responsáveis pelo mal que andam a colocar Christos entre a Marechal e a Boavista. É mau exemplo. O orçamento não dá para mais. Na cena seguinte, numa sala sombria, na poeira, – no ritual que despoleta a chacina –, um zoom sobre o símbolo satânico leva-o a invadir a tela. A câmara salta, pica a cabra, e afasta-se rapidamente para fazer uma fotografia de família. Os dez em redor do círculo. Nove com a cabeça enfiada em capuzes de serapilheira negra. O guru, a meu lado, numa túnica de cetim amarelo… Algaravia, mas percebe-se: «é dia, é dia!» – Damos urros em estilo gregoriano. Estamos contentes. A rodagem está a meio. E o filme inova. Não começa à noite. Entro em acção às cinco da tarde. Subo a Marechal, toco à campainha, degolo a empregada. Avio a família: o pai, a mãe, as duas filhas, os dois avós, o cão e o periquito. Mal acabo, entra em cena um sexual. Depois, um teológico. E assim, sucessivamente. Cada um com a sua arma: um machado, uma pistola de Carnaval com ácido, um agrafador industrial, um macaco assassino, a incontornável moto serra, um simples calhau, um implante dentário afiado. Até que chega a vez do último artista, o jovem de vocação indistinta. É ele quem tem a responsabilidade de executar o gesto simbólico final. Uma rajada de metralhadora corta os baraços que seguram o plástico. Depois, quando a ventoinha põe o anjo cravejado no ar, o jovem continua a disparar sobre o obelisco. Dispara. Dispara. Dispara. A câmara recua. O jovem fica mais e mais distante e quase desaparece. Felizmente, por sintonia, a ficha técnica é pouco clara. As letras não têm o tamanho necessário para que qualquer um de nós possa ler aí o seu nome.

16.7.05

Com este, com aquele, com aqueloutro, as coisas eram diferentes. Com um gostava de música, com outro de jazz, com outro de rock, com um de política, com alguns de poesia e com outros de ecologia; outros eram activos; com uns fazia teatro, escrevia jornais; havia um que gostava de queimar placas de rádio com o ferro de solda; outro que jogava bilhar e criava coelhos; dois empregados de mesa, dois de escritório, um jornalista. Nenhum como ele. Com ele subia as escadas da Igreja, à tarde ou à noite, tanto fazia. Sentávamo-nos e ficávamos ali. Víamos os carros, a paragem dos autocarros, os que vinham a pé. Nessas tardes e noites, poderíamos adivinhar encontros e desencontros, amores e negócios. Mas não. Às vezes, o tédio levava a que deitássemos as costas no bico das pedras. Olhávamos o céu. Depois, voltávamos a olhar o cruzamento. Ou: «vamos dar uma volta?» – Começávamos a andar, começávamos a falar. Não de música, política, poesia, ecologia, electrónica, criação de coelhos; dizíamos mil vezes a mesma coisa: com quem queríamos casar. Não estávamos preocupados com contradições. Importante era andar sem destino. Não nos levantávamos para ir a casa de um amigo, procurar uma namorada, ver um filme, assistir a um concerto. Virávamos para a esquerda, não descíamos a rua em frente.

13.7.05

Alguns vão certamente acusar-me de ser um refinado cínico. Que estou apenas a chorar lágrimas de crocodilo. Que sou um grandessíssimo filho da puta. Que a dor deles não me diz nada. Que apenas estou à espera de nova oportunidade. Tento que não seja assim. Não nego que tenho a alma pesada. Não nego que posso estar em vias de sobrecarregá-la. Não sei. Se vos der para isso, ajuízem vocês. Eu não o consigo fazer, mesmo quando, como vereis, sei muito mais do que deveria saber.
Tomé poderia ter ido para outra cidade. Foi para Paris, e Paris é uma cidade que conheço bem. Por isso, posso descrevê-lo, sentado no Pompidou, tentando, infrutífera e desgraçadamente, distrair-se com os artistas de rua. Posso também descrever com algum rigor os dias de Telma. Primeiro, porque me telefona. Depois, porque conheço Moledo. Se Telma tivesse ido, por exemplo, para Vila Praia de Âncora, teria mais dificuldades. Não sei porquê, embora aprecie todas as praias do Minho, em Vila Praia, apenas consigo ir aos cafés. Conheço os locais para onde foram. Conheço os locais de partida. O Porto e a Madalena.
Conheço as personagens. Os dois são meus amigos. Primeiro, Tomé. Tomé, nessa noite, não foi à festa, porque tinha um exame do décimo segundo na manhã seguinte. Contudo, depois do almoço, apanhou o comboio. Bateu à porta. Luís, nosso amigo e filho do dono da casa, abriu-a. Tomé perguntou por Telma. Recebeu um ensonado “deve estar lá para baixo!» – Tomé desceu as escadas e quando chegou à cave, ficou em pânico ao ver a mancha vermelha no meio das flores do vestido. Não entrou no quarto, não desligou o candeeiro. Subiu as escadas. Ouviu Luís na cozinha. “Que se passa?”. Não se despediu. Foi até à praia. Devia estar aturdido. Incapaz de rir, chorar, incapaz de olhar o mar, incapaz de se mexer. Na Estação, teve sorte. O comboio não demorou. Pelo caminho, não tinha bilhete, o revisor não apareceu. Durante dias, ninguém soube dele.
Agora, Telma. Telma, a meio da noite, sob o efeito do álcool, caiu pelas escadas e perdeu na cama o que tanto e tão bem tinha guardado… Bem. Podeis recriminá-la. Pensai o que quiserdes. O que vi, o que sei, diz-me que ama Tomé. Isto justifica o modo melodramático como arrancou os cabelos, ao ouvir dizer que ele tinha lá estado, que tinha saído. Chorou. Berrou. Chorou. Pontapeou a mesa. Saiu desvairada da cozinha e correu louca pelo jardim. Felizmente, Luís conseguiu agarrou-a. Eu ajudei a segurá-la. Estava fraca. Deixou-se cair. Prometeu tudo e mais alguma coisa. Jurou que nunca mais beberia. Jurou que nunca mais sairia à noite. Jurou que iria matar o Luís. Jurou que acabaria por me matar. Olhava com nojo o vestido húmido da lavagem. Quando acalmou, levantamo-la. Caminhou, passo a passo, tentando a todo o custo enfiar o vestido entre as pernas.
Depois, foi com os pais para Moledo, para a casa que fica atrás da Estação. Telefonou-me várias vezes. Primeiro, a perguntar se eu sabia alguma coisa. Que tentasse. «Como, Telma, posso ter a lata de indagar?» – Depois, repetidamente, queixou-se que não conseguia contactá-lo. Por fim, disse-me que Tomé tinha atendido o telemóvel. Que Tomé não aguentava estar mais tempo sozinho em Paris. Que o tinha convidado para Moledo. Que já tinha falado com os pais. Perguntei: «e Tomé, o que respondeu?» – Respondeu: «que está em Paris à minha espera». «E tu o que pensas fazer?» – «Para já, penso ficar à espera. E tu o que achas?».
O que acho!? – Grande pergunta. Percebo porque querem ficar como estão. Tomé lá. Telma cá. Se Telma for a Paris, corre o risco de ver o arrependimento ultrajado. Se Tomé vier, corre o risco de ver o perdão diminuído. Contudo, se isto ficar como está, todos ficam mal. Tomé fica mal, Telma fica mal. Eu fico mal. Melhor seria que alguém desse um passo. E que o passo fosse dado por Tomé. O arrependimento teria acolhimento e o perdão seria claro. Se o passo for dado por Telma, a viagem pode servir para mostrar o arrependimento, mas, dificilmente, poderá criar o espaço onde Tomé possa mostrar o perdão. E se Tomé não quiser regressar? – Devo dizer a Telma para ir? – Não é fácil. São estes momentos que fazem ver que nos movemos na escuridão.
Eles estão com a escuridão deles. Eu estou com a minha. Se disser a Telma para esperar, posso contribuir para que ela fique parada em Moledo, deixando Telmo quieto em Paris, e isso pode ser o fim do namoro. Se lhe disser para ir, não sei se não estarei a contribuir para que possa sair humilhada ou para que acabe por ficar com tanta incerteza que o encontro acabe por ter o mesmo resultado. E pior, muito pior: não sei se não é isso que quero. Não sei se o álcool que bebi nessa noite não foi um pretexto para que pudesse cumprir um dos subtis mandamentos do pequeno tesão. Agora, não sei se falar, se os meus conselhos a Telma não serão apenas um outro pretexto para continuar na sua obediência. Contudo, também, não sei se devo manter-me calado. Quem poderá garantir que se o fizer, se como Pilatos lavar minhas mãos, não estarei apenas a ver se acabam, não estarei apenas a procurar uma nova oportunidade para matar a sede dos meus suplicantes testículos?

9.7.05

Não estão a ver, mas a estrada vem a descer, passa por aqui, quarenta metros abaixo, é plana, sobe, íngreme, depois, sei lá, cem metros, vira à direita e desaparece no monte. Costumo sentar-me, nesta mesa, a ler o jornal, a corrigir os trabalhos dos alunos, sobretudo, quando faz sol. Não passam muitos carros. À semana, ao fim de semana, um pouco mais. Jipes, nem por isso. Às vezes, durante o ano, surgem, no entanto, algumas caravanas de todo o terreno. Mas nunca vi deles fazer o que ele fez. Vi-o, passar, jipe branco, descer, depois, subir e parar. Pareceu-me reconhecer o carro. Fez uma coisa estranha. Ficou ali, sei lá, dez minutos, no meio da estrada. Fiquei a olhar para ele. A certa altura, não sei o que lhe deu, arrancou e guinou para a esquerda, e, aos solavancos, começou, lentamente, a subir o monte. Nunca tinha visto ninguém fazer aquilo. E era algo de manifesto mau senso. Mesmo com o terreno coberto de urze, dá para perceber, a irregularidade, as rochas, as fendas no terreno. Mas, ele lá ia. Aos solavancos, calcando a urze. Não sei, até hoje não me dei ao trabalho de me informar, o que o fez inclinar para a direita. Virou. Lentamente, quase a não virar, acabou por virar. Caiu, deslizou um pouco para baixo, e ficou parado de rodas para o ar. Podereis pensar que sou impassível ou indiferente às desgraças alheias. Não sou. Mas não senti nada de especial. Não sei porquê, não acreditei que pudesse ter acontecido algo de grave. O motor calou-se. Pouco depois, o condutor acabou para sair. Saiu pela janela. Parecia aturdido. Fui lá dentro, buscar os óculos. Voltei até aqui. Sentei-me. Ele estava a olhar para o jipe. Por fim, deu um ligeiro abanão no carro. O carro deslizou ligeiramente. Ele baixou-se e espreitou para dentro. Por fim, resolveu deixar o carro em sossego. Olhou para o cimo do monte, olhou para baixo, virou-se, olhou para aqui. Quando o vi de frente, pareceu-me familiar. Esforcei-me por descortinar o que era. Quando começou a andar, tive a certeza. Era o médico dentista da vila. Alto, cabelo branco, mais velho do que eu, talvez, cinquenta anos, desengonçado. Sorri. O que lhe teria dado para se meter em semelhante aventura!? – Por momentos, vi-o caminho monte abaixo. Não era fácil, por causa da urze. Encaminhou-se para a estrada. Desceu, passou o plano, começou a subir. Ainda não o disse, mas estava uma tarde cheia do calor seco que faz zumbir esta serra. Vinha empapado em suor. Tocou, em baixo, na campainha. Fui lá dentro. Pressionei o botão que abre o portão. Voltei a sentar-me nesta cadeira. Ele entrou na quinta e subiu pelo caminho empedrado. Quando a meio me olhou, não me cumprimentou, e também eu não o cumprimentei. Parou ali à minha frente, em baixo, são cinco degraus de escada, e parecia à espera que eu lhe dissesse qualquer coisa. Estava manifesta e paradoxalmente orgulhoso. Não sei se viu, perguntou. Respondi-lhe com silêncio. Ficou ligeiramente confundido. Todavia, não desistiu. Capotei o jipe, acrescentou. Respondi do mesmo modo, sem conseguir disfarçar alguma diversão. Calou-se. Olhou para os pés, procurando o chão. Não o encontrou. Desculpe, disse, sou médico… Sim, na vila, eu sei, - sorri -, dentista. Ele tentou passar ao lado do sorriso. Se não se importasse, desculpe, a senhora é, gostaria de usar o telefone, é que… Parou ao perceber que a atrapalhação me divertia. Por fim, ficou completamente confundido. O que é que se passava ali? – Ao vê-lo assim, tive vontade de brincar um pouco mais. Mas fiquei apenas a olhá-lo em paz. Não sei se me reconheceu, nem sei o que se passou com ele. Virou-me as costas e começou a descer o empedrado. Depois, subiu a estrada. Perdi-o de vista… Não fiquei com pena de ter perdido o dentista, embora tenha de confessar que não sei se eu ou ele algum dia conseguiremos perceber o tamanho desta pequena maldade.

6.7.05

Não vou fazer o exercício literário, «calei-me durante este tempo todo», e não sei quê, não sei quê, mas, só hoje o revelo. Não vou tentar fazer-vos crer que, entretanto, algo muito forte me impediu de o contar. Não é verdade. Já o contei. Posso contá-lo. Ainda me assusto e já assustei outras almas com esta história. Claro que demorou algum tempo, antes que pudesse contar algo de jeito. Não que fosse difícil narrar os acontecimentos. Pelo contrário. Mas, foi preciso tempo para acreditar que fossem assim… Um amigo meu tem uma quinta na Régua e a sua amizade leva-me algumas vezes a subir o rio Douro. Não recordo porquê, já passaram dez anos, era Julho, e ele tinha ido a um lado qualquer, Vila Real ou Lamego. Estava sozinho, não tinha nada para fazer e resolvi dar um passeio de mota. Levava uns calções por baixo das calças, para poder dar um mergulho no rio. Tomei a direcção do Porto. A mota era dele, uma Yamaha três e meio, uma trail refrigerada a ar. Quem tem uma mota daquelas, sabe que o motor torra os pêlos das pernas, mesmo se forem penugem. Por isso, quilómetros abaixo, vendo um areal, parei para me refrescar. Saí da estrada, rocei um pouco a pintura nas silvas, e depois de alguns solavancos, saboreei o prazer de abanar o assento, com dois ou três oitos no areal. Não dava para mais. Não me despi e devo ter acendido um cigarro, porque não foi logo. Todavia, não demorou. Eu estava sentado, quando um jovem passou ao meu lado, atravessou o areal e mergulhou no rio. Como nada tinha para fazer, fiquei a observá-lo. Vi-o nadar e afastar-se lentamente. No meio do rio, voltou para trás. Entretanto, perto do areal, deu uma guinada e começou a nadar para o outro lado. Nadou, desta vez, com grande rapidez e passou o meio do rio. Depois, abrandou, e foi com lentidão para a outra margem. A poucos metros da margem, deu uma nova guinada e voltou a nadar de modo acelerado. Depois, começou a repetir os movimentos. Para lá e para cá. Devagar e depressa. E assim se manteve, não sei por quanto tempo. Comecei a ficar preocupado. Notei que começava a ficar muito cansado. A certa altura, ele fez uma coisa esquisita: depois de desviar o olhar do local onde eu me encontrava, perscrutou com sofreguidão o areal. O que procurava!? – Na segunda vez que o fez, ultrapassei o medo de vê-lo olhar para trás, e quando o vi de costas, levantei-me e olhei em volta. Não vi nada, nem ninguém. Durante algum tempo, não o voltou a fazer. E eu fiquei pura e simplesmente hipnotizado a vê-lo nadar. Até que acabou por acontecer. Alguma cãibra, alguma coisa. Ou, talvez, não. Parou. Nadava, e depois de procurar no areal, não sei se foi assim ou se sou eu que invento, mostrou um sinal de desânimo. Um pouco para lá do meio do rio, começou a esbracejar. Esbracejava em câmara lenta. Ia ao fundo, voltava, levantava a cabeça, batia na água. Sem força, nem violência. Chapinava. Não tive tempo para decifrar o que aquilo queria dizer. Nem tempo para poder confirmar alguma pior conjectura. Vinda, não sei de onde, a jovem correu pelo areal, entrou no rio e em braçadas ansiosas encaminhou-se para ele. Olhei um e outro. Ela nadava com crescente ansiedade. Ele quando voltava à superfície, não batia os braços. Olhava-a. E voltava a afundar. Fui burro. Devia ter feito mais qualquer coisa. E fiz. Só que já era tarde. Não sei toda a história, mas para que possais saber o que sei, sempre vos digo que quando encontrei os pais de um e do outro, ambos foram sinceramente simpáticos comigo e tudo fizeram para me aliviar. De qualquer modo, castigo-me à mesma. Deve ser raro o mês em que não me vejo num sonho, a tirar o raio das botas, a descolar o couro das calças, a amaldiçoar o estupor das fivelas, a tirar a camisa, a entrar na água, a demorar por causa da merda das meias, e a vê-lo ao longe, a deixá-la aproximar, a aprisioná-la com os braços e depois mergulhar.

3.7.05

O meu patrão tem cara de cavalo, usa uma gravata vermelha, e tem preferência por fatos azuis. Os bicos das camisas estendem-se até ao peito. Não sei quais são os modelos. Nem onde é que ele os vai buscar. Mas, é um bom patrão. O modo como veste, não viria até aqui, não fosse tão contrastante com o ar moderno da filha. Dos novos que compõem a administração central, sou certamente um dos seus preferidos. Trouxe-me da comercialização de rações. É frequente convidar-me para acompanhá-lo ao pub irlandês da Avenida Brasil. Não sei como são as suas convivências. Comigo, fala pouco. Bebe e fica calado. Mas, sinto que fica bem ao pé de mim. A filha, única herdeira, rica, jovem, etecétera, etecétera, nunca me ligou nenhuma. Estou há três anos na Rua da Restauração, entra e sai, e nunca soube ao que vem, nem ao que veio. Boa tarde, bom dia, foi tudo o que lhe ouvi. Não nego: de longe já lhe espreitei as coxas, perto já dei ao decote as minhas esguelhas. Mas só. E sempre com máximo respeito. Não quero descer para burro, estou contente com a minha ração. A minha mãe, o meu pai, os meus familiares em geral, na província, nunca imaginaram, na pacata vida que levam, que eu fosse saltar para este poleiro. Por isso, todos os cuidados são poucos. Hoje, no entanto, não soube o que fazer. Manuela entrou no gabinete. Sentou-se à minha frente e bateu as pestanas. Se não queria ir beber um copo com ela. A menina sabe. Manuela, por favor, Manuela. A Manuela. Bem, se não quer. Não que não. Então. Acabamos por combinar para depois do jantar. Números de telemóvel e tudo. É sabido, estas coisas sabem-se, o patrão não gosta da vida que faz. Puro lusitano. Trabalho de dia, descanso à noite. Mas, ela não parece estar pelos ajustes. Eu, para ser sincero, ando pelo patrão. Não que seja retrógrado. Gosto da minha diversão, mas não durante a semana. Mas não fui capaz de resistir a uma miúda rica, loura, inteligente, mesmo se não soube, nem sei de onde vem o seu interesse por mim.

30.6.05

Não devíamos dizer nada, e devíamos deixar a cena a seco. Mas, o que se passou é tão pouco usual que podemos não estar preparados para reparar. Não acontece todos os dias. Dificilmente alguém dirá que o orgulho é solução. Mas foi o que se passou naquela cena em Madrid. A cena não estava a resultar. «Cavalga!» – disse o realizador irritado – «Cavalga! Porra! Cavalga!» – A intenção do realizador era mostrar o contraste entre a beleza e a fogosidade da jovem e o ar frio do namorado, acentuar o lado cómico da relação entre os dois. Um interessado, ela, outro, desinteressado, ele, um fruindo, ele, o ambiente permissivo da noite madrilena, o outro, ela, com dificuldade de encontrar um rumo para a coca e para os copos. Ao ouvir aquilo, ela parou. Saiu de cima do jovem, pôs-se de joelhos na cama, e virou-se para o realizador: «Roberto, já viste a cara deste filho da tia!? Tu – disse para a assistente – o que estás para aí a fazer!? Não vês que preciso da toalha!?» – Tinha razão. Gotas de suor rolavam pelo corpo moreno e bronzeado. Roberto levantou-se: «acendam a merda das luzes! E tu, Francisca, deixa-te de merdas! É preciso mais!» – «Merdas, Roberto!? Isto não é indiferença! Isto é de sonso! Não posso fazer mais com este sonso por baixo de mim!» – No estúdio, a tensão crepitou. A assistente levou a toalha a Francisca. Francisca sentou-se na borda da cama. Começou a limpar-se com um ar muito zangado. Atrás de si, o actor abrira finalmente os olhos. Parecia divertido. Sorrindo, levantou-se e sentou-se ao lado da actriz. Deu-lhe um toque com o cotovelo e disse num tom amigável: «desculpa lá!» – O realizador ao ver o gesto e o sorriso de Pablo, perguntou-lhe: «posso saber que merda se passa, Pablo!?» – Pablo disse com calma: «queres ouvir!?» – «Despacha-te!» – «É rápido! Eu não aguento!» – Roberto exclamou: - «o quê!?» – Pablo respondeu: «é capaz de ter razão! Francisca é boa demais!» – Calou-se. Roberto olhou-o furioso: «que maluquice vem a ser essa!?» – Pablo respondeu: «a minha cara, o meu ar, sei lá!» – «Vai mas é à merda!» – Pablo continuou: «pode ser, pode interferir! Não sei como fico! Quando Francisca abana os seios em cima de mim, para aguentar, fecho os olhos, saio da cama, desço para o metro, hora de ponta, dou um soluço com a multidão, entro, e, apertado, de braço no ar, sorrio; olho à minha volta e fico orgulhoso de ter comigo a imagem dos seios!...» – Calou-se. Roberto reflectiu por momentos; perguntou-lhe: «actor’s studio!?» – Pablo: «actor’s studio!» – Francisca resolve intervir; olha Pablo: «é mesmo assim, Pablo!?» – Pablo olha para ela: «é mesmo assim, Francisca!» – «Tens orgulho!?» – «Tenho orgulho!» – Francisca sorri: «então, não tem mal!» – Roberto aproveita o balanço: «apaguem as luzes! Toca a voltar às filmagens!»

29.6.05

Hoje, quase à meia-noite, tomei uma decisão assim. Tenho pena de não ter prestado maior atenção. Quero encontrar aquela mulher que no noticiário das oito, disse que acabou de ficar desempregada. Sei que felizmente não precisa da minha sopa, do meu pão, ou do meu copo de vinho. Nem é isso que me move. É outra coisa. Não sei o que é. Sei que vou telefonar para o monte da virgem e a telefonista que me vai atender, vai responder que não sabe do que se trata. Não deve ter prestado atenção, o passado é longínquo a cada minuto. Vai querer despachar-me. Deve estar farta de aturar outros tão tolos como eu. É noite, é tarde, é incómodo, mas, ainda assim, não vou desistir. Voltarei a ligar. Se ela tiver um identificador de chamadas e eu acabar por concluir que pelo telefone não chego, pego no carro, e planto-me à porta. Felizmente, o portão, mesmo a estas horas da noite, está sempre aberto. Se algum segurança me barrar a entrada, ou se a recepcionista me puser à seca, num banco que presumo que exista por lá, volto para o carro, fumo uns cigarros, e depois pinto no capot o que desejo, pois irei prevenido com os sprays que o filho do vizinho esconde na garagem. Espero que então venham com as câmaras para que possa dizer o que quero. Mas se não resultar, se não houver apreço pela excentricidade, se eles acharem que não devem dar troco a um chato, não desistirei. Quando for manhã, predisponho-me a dormir sentado, meterei o carro à rua, e embora saiba que não é agradável andar com “quero falar com a mulher do noticiário das oito, desempregada!», acrescentarei na porta do meu lado e na porta do outro, “mas a televisão não deixa!» – Regressarei a casa. Não quero saber do que poderão pensar os vizinhos. Telefonarei para os sindicatos, para verem se pelo menos eles sabem qual a fábrica que hoje foi visitada pela televisão. Pode ser que não saibam. Que vejam pouca televisão. Ou que tenha acontecido que eles, embora o problema lhes diga respeito, tenham também prestado pouca atenção. Contudo, acredito que tenham uma lista das fábricas que nos últimos tempos fecharam as portas. Não preciso de mais. São muitas. Mas vou visitar uma a uma. Vila do Conde, Póvoa, Guimarães, Vila Real, Paredes, Amarante, Monção, Valença, Santo Tirso. Perto de cada uma, não tenho dúvidas que alguém há-de saber. Ou que alguém saberá quem conhece quem foi despedido. E essa proximidade vai ser a solução. Por ela, vou encontrar a mulher… Leitores atentos, estareis a perguntar: então, morcão, porque é que não te deitas, acordas, e saltas para a segunda parte? - Para quê o spray, os graffittis, a televisão, a palhaçada? – Não tenho resposta. Mas penso que tem a ver com o facto de que depois de tanta conversa, tanta intenção, eu ter necessidade de qualquer coisa que me lembre que, meia-noite e vinte, ainda estou, aqui, sentado, a escrever.

28.6.05

Fazíamos longos passeios a pé. Um belo dia, depois do jantar, fomos beber um cálice de Porto a um local onde depois só voltei para a apresentação de um livro. É para os lados do Palácio, por trás do Palácio, mas foge-me a localização e o nome. Hoje, à noite, chovendo, está, também, um belo dia. Tenho ali, quase no fim, um policial, o Dinheiro Negro de Ross MacDonald. Traz no enredo: uma jovem loura, romântica, inocente, é posta em perigo porque se liga a um jovem moreno, cínico e oportunista. Isto lembra-me o que li nos Pássaros de Seda, de Rosa Lobato Faria, onde uma jovem morena, romântica e inocente é seduzida por um jovem louro, cínico e oportunista. Mas a minha memória fica bem melhor quando recua até xis. O meu amigo xis, alto, moreno, jovem, não inocente, nem cínico, nessa noite, não sei se seduziu, se foi seduzido. Havia já qualquer coisa. De facto, algo se passava, porque à saída do Porto, embateu violentamente contra a porta de vidro. O seu nariz aquilino ficou um pouco amassado, mas isso não impediu que na descida para a marginal fosse um dos que mais discutia a sedutora figura do diabo. Éramos cinco ou seis, talvez mais, não muito mais, e as opiniões variavam. Nas escadas, eu, como sempre, resolvi contar umas historietas com que me assustaram na aldeia e que conto sempre que o tema vem à baila. Ficaram-me para sempre na memória. E isto porque, na roda do milho, as mulheres juravam a pés juntos já terem visto a terrível figura do Maligno. Mas, deixemos o campo. Voltemos à cidade. Andávamos na marginal em direcção à Ribeira, estavam caladas as teorias, e eu era o único rei e senhor da indignação com que julgavam a crença no que talvez astuciosamente me havia sido contado. O meu amigo xis puxou-me pelo braço e obrigou-me a ficar para trás. Estava com uma cara pouco amigável. O que se passava? - Eu estava incomodá-la. A quem? – Ela, disse, apontando a jovem que pela primeira vez fazia um trajecto connosco. Ora, xis! Deixa-te disso! - Disse-lhe e tomei contacto com o pelotão da frente. Eles continuavam no tema, mas tinham aproveitado a minha ausência para discutir o Inferno e os Papas de Dante. Calei-me. Reconheci que o meu tempo de antena passara. Não fiquei preocupado. Sabia que voltaria logo que viesse o breu da noite, as latadas, e em cima de nós, pousassem as uvas. Assim, foi. Mas, na subida para o colégio dos órfãos, o meu amigo xis e a jovem não me escutaram, porque há muito se tinham deixado ficar para atrás. No dia seguinte, depois do almoço, xis telefonou-me agitado. Resolvemos encontrarmo-nos a meio, e o ponto ficou por vinte e quatro de Agosto. E foi então a sua vez de me contar uma história. E uma história que não posso esquecer. Também ele jurava a pés juntos que era o diabo, que ele não a merecia, que ela era inocente e muito maltratada pelo namorado.

27.6.05

Talvez seja mais fácil começar com a Lena de Água. A propósito dos kraftwerk. Poderíamos começar com o tecnológico corpo diplomático ou com os rapazes da rua, mas, poucos serão os que se lembram do remix do pauzinho na engrenagem do Zeca Afonso, ou de canções como supermercado, superpovoado. Por isso, fiquemos pela Lena. Não para falar de música. Aqui, a música é apenas pretexto. De resto, não sei, pode ser, talvez possamos dizer que a música é apenas pretexto para que possam ser satisfeitas as necessidades do homem. Por exemplo, a de dançar. Mas porque precisamos de dançar? – Perguntais bem. Haverá muitas respostas. A nossa começa com a Lena de Água. Porque ela pode refrescar as memórias. Se nos lembrarmos do olha o robô, é para a menina e para o menino, olh-ó, talvez, possamos chegar aos kraftwerk. E se chegarmos aos kraftwerk, poderemos chegar aos que dançavam, nessa sexta feira à noite, no Porto, numa discoteca tão obscura que nunca mereceu a pena de Hélder Pacheco. Na discoteca la vie en rose, nessa sexta, um bando de quinze malucos dançaram kraftwerk; o que deu, como podeis imaginar, a bonita soma de quinze palhaços armados em robôs, e levou as secretárias dos empresários do Norte, a sentarem-se quietas a um canto, mortinhas, vivinhas, cheias de vontade de entrar nessa cadeia electrónica de produção. Tudo factos incontestáveis. E que mostrarão que o pop-rock, a dança pop-rock, ao contrário do que se possa pensar, pode levar a transmutações místicas, sem, no entanto, negarmos que pode servir também para fins diversos que nos colocam no meio da existência não autêntica do saco de trinta minhocas. Categoria de Heidegger, dizemos aos que se deixam levar pelo sorriso. Façamos como Heidegger. Mostremos como a dança pop-rock pode levar à existência autêntica e à existência não autêntica. Antes, temos de conceder uma coisa a qualquer tipo de dança. Não é de bom-tom, boa máxima, não tem jeito nenhum, os dançarinos pisarem os pés dos outros ou lançarem copos de cerveja para o ar. De facto, o tomate, a via rápida ou o estado novo, se são espaços para libertar energias, mostram que as energias devem ser libertadas dentro de estreitos limites. Pode não parecer, mas toda a dança realiza a máxima fundamental: “a minha liberdade acaba quando começa a liberdade do outro”. Máxima que se impõe de modo napoleónico e imperial. Mesmo se o dançarino for do Porto. E cúmplice dos príncipes. Concedido este valor, vejamos como pode acontecer o mau uso dessa liberdade. Vai ser senso comum, e por isso, poucos de nós, poderemos escapar. A não ser que alguém se predisponha a reactualizar a palhaçada que se deu na vie en rose. Mas, investiguemos primeiro o saco. Hoje, nas pistas do mundo, ondula-se o tronco para o lado, para a frente, para trás. Os pés têm pouco uso. A partir desse ponto fixo, ligeiramente arrastado, os dançarinos projectam a imagem de trinta minhocas. Porque, embora os códigos existam, faz isto, faz aquilo, não faças esse passo, não tropeces no outro, os códigos não conseguem promover a estilização. Os dançarinos ondulam, sem pisar, sem esmagar, na maior proximidade possível, sem nunca conseguirem o gesto claro e preciso, do mesmo modo como as minhocas se mexem pertinho umas das outras, sem se pisarem, nem se esmagarem, mas estando longe de traçar figuras geométricas. Mas porque dizemos que neste saco de trinta minhocas se dá uma existência não autêntica? – Perdoem-me a rapidez da resposta – mas tenho de guardar o resto para o meu professor de ontologia existencial literária que obriga os alunos a trabalhos originais e não publicados; assim, apenas vos posso dizer o seguinte: o saco das minhocas promove a existência não autêntica, porque promove o esquecimento do vácuo. O vazio que existe dentro de nós. Há, sabemos, modos insignes de lembrar o vazio. De estar no vazio. Dançando. É o caso dos dervixes. Mas, deixemos Rumî de lado. E passemos ao que está à mão, aos nossos robôs com a febre de sexta à noite. Eles viviam, nessa noite, uma existência autêntica, porque, ao estilizar, ao concentrarem-se no esquadro dos braços, nas mãos que tinham de ser facas e cortar desastradamente o ar, ao tentarem mexer as pernas sem dobrar os joelhos, eram, por momentos, não homens, mas máquinas, abandonavam a humanidade, e em tal abandono, conseguiam o vazio que no final da dança lhes permitia sorrir às secretárias, sem que o poder empresarial pudesse entrevar o que lhes dizia existir outra existência. Igualmente autêntica.

ps. o a-bordo errou: via comentário, via Rui fica desfeito o erro: "[um pauzinho na] engrenagem" é do José Mário Branco (álbum "Margem de Certa Maneira") e não do Zeca Afonso. Ao Rui, mais uma vez, obrigado.

22.6.05

Alguém disse, já não me lembro quem, uma daquelas evidências que furam os olhos e que eu muito aprecio. Não foi isto. Mas para que possam ter uma ideia. Por exemplo, se numa concentração motard, tira, tira, tira, pode levar a namorada a mostrar os seios em público, por muito tira que se diga, ela não o poderá fazer no meu café da esquina. Até ver. É uma evidência. E não perturba a digestão. Mas, foi outra. E tem a ver com mulheres. Não a conheci por ser amiga de um amigo meu, mas por ser amiga de uma amiga minha. É um dos reais caminhos para o conhecimento. O que de alguma forma lança uma séria suspeita sobre a aposta autonómica do iluminismo. Estamos dependentes uns dos outros. Para isto, para o conhecimento. E por mais. Porque a minha amiga que era amiga dela, começava a tê-la em fraca consideração. E eu fiquei dependente durante algum tempo dessa opinião. Durante algum tempo, pensei que fosse uma tonta. Não era uma pessoa fácil. Nem podia ser outra coisa. Movia-se num tempestade de neve. Estava em ruptura com o pai, com a mãe, com a irmã, com as colegas de escola, com os amigos, com o namorado, em ruptura com o mundo. E dedicava-se com frequência a fritar os nossos miolos. Isso, no entanto, por muito charme que tenha, – uma bela e rebelde mulher –, não foi a coisa que verdadeiramente me intrigou. Nem o que me fez mudar de opinião. Mas o facto de ainda assim, ter dias de vestir saia e casaco, sapatos de verniz, o cabelo apanhado com travessão, e usar um daqueles anéis com caveiras que se pode comprar nas Fontainhas por alturas de São João.