(7) ditos de Zóssima, 74: ... mas se lhe pareço assim tão bem-disposto, digo-lhe desde já que, mais do que qualquer outra, essa é a observação que mais me alegra. Porque foi para a felicidade que as pessoas foram criadas …
6.6.06
12.5.06
(6) ditos de Zóssima, 71: ... não tenhas medo de nada, nunca tenhas medo e não te atormentes.
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5.5.06
(5) ditos de Zóssima, 69: ... não te consoles, não deves consolar-te, sê inconsolável e chora, mas, de cada vez que chorares, lembra-te que ...
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3.5.06
(4) ditos de Zóssima, 62: ... é que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade?
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26.4.06
(3) ditos de Zóssima, 62: o principal é o senhor não mentir a si próprio. Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta...
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23.4.06
21.4.06
(1) ditos de Zóssima, 61: e... o principal: não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque isso é a causa de tudo.
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(0) as citações de Fiódor Dostoiévski, irmãos, são da edição da Editorial Presença, 2002, volume um.
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5.3.06
(4) Depois Fat vai com dois amigos a um filme onde reconhece imagens que reflectem a sua teologia; depois Fat encontra o actor principal, uma vedeta rock, e a sua mulher; depois a mulher e a vedeta têm uma filha; depois esta filha é o salvador; depois o salvador é morto; entretanto, K. Dick reconhece que Fat não é senão ele; depois Fat torna a ser outra coisa e anda pelos mares do sul à procura de novo salvador.
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24.2.06
(3) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, tinha, antes, tido, portanto, um colapso nervoso com consequências teológicas que, agora, o tinham tornado uma autoridade gnóstica. Ora, pode ser curioso verificar quais as consequências destas consequências. E mais porque são sumamente curiosas. Se não vejamos. Vejamos como tudo – e, aqui, em rigor, quase tudo – retorna ao ponto de partida. O colapso nervoso, como sabemos, produziu em Fat uma produção teológica. Mas não sabemos, vamos ficar a saber que a produção teológica de Fat acabou por produzir uma visão de um universo nervoso e em colapso…. É assim. A partir de Heraclito: «É o que diz Edward Hussey, Leitor de Filosofia na Universidade de Oxford e «Fellow» do Colégio de Todas as Almas, no seu livro THE PRESOCRATICS, publicado por Charles Scribners Sons, Nova Iorque, 1972, páginas 37-38. Em todas as minhas leituras não encontrei – quero dizer Horselover Fat nunca encontrou – nada de mais significativo sobre a natureza da realidade. No Fragmento 123, Heraclito diz: «a natureza das coisas está no hábito de se esconder ela própria.» E no Fragmento 54 ele diz: «a estrutura latente é a mestra da estrutura óbvia», ao que Edward Hussey acrescenta: «portanto, ele (Heraclito) concorda necessariamente em que… a realidade está de certo modo “escondida”» (58) – Então, duas coisas podem ser derivadas daqui: é apenas real a realidade divina que está por trás e nos feixes que atingiram o cérebro de Fat; isto é, é real Deus e as suas teofanias; entretanto, se Deus é Logos, o nosso mundo habitual, o universo, porque ilusório, é ilógico, e por isso insano. É o que nos diz a página 59: «portanto quem esteja em contacto com a realidade está, por definição, em contacto com o insano, impregnado com o irracional.»
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20.2.06
(2) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, lá se havia como podia com a morte do gato e com outras questões afins. Com o mal no mundo. 1 – O que elaborava era gnóstico. Soube que era um “profeta” gnóstico, depois de dar entrada no hospital psiquiátrico, após a última tentativa de suicídio. Fat informou o doutor psiquiatra Stone de uma das suas anotações: «- anotação numero vinte e quatro. Na forma adormecida de semente, como informação viva, o plasmato dormitou na soterrada biblioteca de códices em Chenoboskion até que… – Que é "Chenoboskion"? – perguntou o doutor Stone. – Nag Hammadi. – Ah, a biblioteca Gnóstica – confirmou o Dr. Stone com um movimento de cabeça – descoberta e lida em 1945 mas nunca publicada…» (88) 2 – Mais lhe disse Fat. E tanto e tão bem que « – Então, tenho razão quanto a Nag Hammadi? – disse ele ao doutor Stone. – Deve saber isso – observou o doutor Stone, e depois disse uma coisa que ninguém dissera a Fat – você é a autoridade.» (96)
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17.2.06
(1) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, tem em Valis 1, de K. Dick, um colapso nervoso. O que daí se segue pode ser explicado por 1 – «Os mentalmente perturbados não usam o princípio da parcimónia científica: a busca da teoria mais simples que explique o maior número de factos. Disparam logo para o barroco.» (31, Argonauta).
Assim, se explica que 2 – «Ao fim de um longo período (ou “desertos de vasta eternidade”, como ele diria) Fat desenvolveu uma quantidade de teorias invulgares para explicar o seu contacto com Deus e a informação dai derivada. Uma em particular impressionou-me como interessante diferente das outras. Consistia numa espécie de capitulação mental por Fat àquilo que na realidade ele estava a passar. Esta teoria afirmava que na realidade ele não estava a sentir coisa alguma. Sítios do seu cérebro estavam a ser selectivamente estimulados por finos feixes de energia emanados de muito longe, talvez a milhões de quilómetros de distância. Essas impressões selectivas (….)» (34-35, livros do Brasil) – provinham de Deus, eram o seu Logos.
Claro que alguém assim pode ser facilmente torturado pelos amigos. Era o que acontecia e não era preciso muito 3 – «Não era preciso apanhar Fat com perguntas tolas como «se Deus pode fazer tudo, poderá ele criar uma valsa tão grande que não a possa saltar?». Tínhamos abundância de problemas verdadeiros a que Fat não podia responder. O nosso amigo Kevin começava sempre o seu ataque do mesmo modo. «E o meu gato morto?»» (op. cit., 38).
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8.11.04
(22NP) Por lá andamos. No Inferno e no Purgatório. Mas o pretexto, o título da obra de Lodge é Notícias do Paraíso. É irónico. Bernard o grande protagonista deste livro é o único que não procura o Paraíso nas ilhas azuis do Pacífico, pois só até aí foi para visitar uma tia doente. Todos os outros – quase – que o acompanharam no avião desde Inglaterra, foram à procura do Paraíso. Mas se o título é irónico, relata a pouco irónica crença contemporânea que é mudando de lugar. Por isso iremos falar de lugares. De troca de lugares… Uma das crenças mais enraizadas na cultura contemporânea afirma que a mudança de lugar pode ser uma solução para os problemas. Nos problemas sexuais, dando como suposto que existem problemas sexuais, diz-se então que por exemplo após a longa prática do por cima e por baixo, um sempre por cima, outro sempre por baixo, será bom para acabar com a monotonia trocar de altitude, antes de algum dos dois ser capaz de praticar a posição canina. Que quando esses problemas existem a variação de lugar pode ser uma boa solução. Entretanto, se os gestos mais íntimos – ou antigos e íntimos – parecem ter encontrado um elixir na mudança espacial, os gestos mais públicos parecem muitas vezes viver da mesma solução. Pense-se por exemplo no acto de ensinar e no facto da carteira do professor se ter movido para o nível do aluno. Isto para não falarmos dos gestos que envolvem público e privado e que são tão bem sustentados pelos tacões. Com eles, as faces aproximam-se no hálito. E publicamente esta ascensão pode ser olhada como uma expressão de ascensão social, pelo preço envolvido nos tacões, ou ainda mais radicalmente como uma fuga ao determinismo genético, mesmo que o custo desta oportunidade se traduza pela possibilidade da entorse. O que no dizer de Baden Powell diz muito da personalidade da pessoa. Pois se esta – pessoa - no dizer do fundador do escutismo se define primeiramente pelos sapatos que usa, o uso de sapatos que arriscam a entorse, diz radicalmente a presença de alguém que faz da genética e da capacidade económica uma fonte de risco. E aqui, convenhamos, que estamos muito necessitados de este tipo de pessoa. De facto, … mas, antes disso, leiam a terra. Já saiu.
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6.11.04
(21NP) Disse Úrsula falando do Céu.
«
-Se a longo prazo não há castigo, porque não ser mau?
- Costuma dizer-se que a virtude é a própria recompensa – disse Bernard, com um sorriso.
- Vai para o Inferno! – retorquiu Úrsula, que depois se riu das palavras que escolhera. – Já agora, e quanto ao Inferno? Também se foi pelo cano abaixo?
- Quase completamente, e ainda bem.
- E estou mesmo a ver que o Purgatório também.
- Por estranho que pareça, os teólogos modernos, mesmo os não católicos, aceitam melhor a ideia de Purgatório, muito embora as Escrituras quase não façam referência a ela. Alguns encontram analogias entre o Purgatório e a ideia de Reencarnação das religiões orientais, que estão muito em voga hoje em dia, especialmente o Budismo. Sabe como é? Uma pessoa expia numa vida os pecados de uma vida anterior, até alcançar o nirvana.
- E o que é isso?
- Hum… Bem, grosso modo, significa a extinção do eu individual, a sua assimilação pelo espírito eterno do universo. A passagem do ser ao nada.
- Não parece lá muito agradável.
- Mas a tia quer mesmo viver para sempre?
(…)
- Claro – respondeu. – Não é o que toda a gente quer? Não é o que tu queres?
- Não – disse ele. – Bem gostaria de me ver livre deste homem que sou.
»
(Lodge, op. cit., 225-226)
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4.11.04
(20NP) Nunca mais chegávamos ao Purgatório mas estamos quase. Entretanto, por uma série de razões que não cabem aqui – porque temos de sair daqui, a verdade é que o crente durante séculos não teve uma forte preocupação com a elaboração de cenários que pudessem dar uma imagem dessa vida. Seja como for, o Paraíso estava prometido àqueles que estavam livres de pecado. Com a introdução da medicina penitencial o crente foi obrigado a preocupar-se com os cenários pós morte. Ele tinha de libertar-se dos pecados. A libertação era possível pela penitência. A penitência ocupava tempo. Muito porque os pecados eram muitos. Assim, talvez fosse preciso mais tempo. O tempo depois da morte. O tempo futuro. «Foi por esta razão que os cristãos do século sétimo do Ocidente se voltaram com notável precisão e com alto sentido dramático para o assunto da passagem da alma. A paisagem do outro mundo incluía, claro, o bem conhecido Paraíso e um Inferno (…) Mas incluía também uma nova região intermédia caracterizada por uma espera agonizante. Almas “não purgadas” tinham de esperar aqui. Um diácono (…) fez uma vez uma aparição após a sua própria morte numas termas romanas. Ele pediu a um conhecido bispo que rezasse por ele. As orações resultaram. Ele já não estava ali na semana seguinte. A sua alma residiu por algum tempo numa zona intermediária, tão penosa para ele como o escaldante e sufocante fluxo da fonte termal.» (Brown, op. cit. 258-259, com pequenas alterações.)
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29.10.04
(19NP) Bom, vamos lá ver se damos despacho nisto. Primeiro com pecados e penitências. E com uma citação dentro de outra citação: «Ele (que é monge) que ama uma mulher, mas que é inconsciente do mal por trás de algumas conversas que mantém com ela, deve fazer penitência por quarenta dias. Mas se a abraça e a beija, um ano… O que apenas a ama na mente, sete dias. Mas se lhe disser (o seu amor) mesmo que não seja aceite por ela, quarenta dias.» (mesmo livro, 244). Depois com uma pergunta: para além do facto deste modo de lidar com o pecado ter tido uma enorme importância na altura, pergunta-se porque é que isso teve uma enorme importância na altura? – E também depois.
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27.10.04
(18NP) Antes que isto vire a página dos classificados do notícias, com mais uma notícia sobre a terra – mais uma vez com sabor a caril –, mas sem fugir a alguma da sua temática – apenas não vendemos apartamentos, nem carros em segunda mão –, vamos continuar com a história medicinal dos pecados. Vimos em Santo Agostinho remédio suave – ou aparentemente suave. Vamos ver agora algo mais duro – ou aparentemente mais duro. Digamos em traços gerais o seguinte: o Cristianismo depois de se progredir nas Ilhas Britânicas, viu-se com o problema de lidar com o pecado e encarou a tarefa com inusitado rigor. Isso traduziu-se na elaboração de um sistema inédito de pagamento – penitência tarifada – dos pecados através de uma lista de penitências. Assim, a cada pecado foi assinalado um determinado período de oração, jejum ou mortificação.
«Nós conhecemos este sistema através de muitos pequenos manuais, conhecidos como Penitencials (…) textos rudes. Nas suas discrições dos pecados não havia nada que não fosse preciso. Um simples Penitencial abrangia desde explosivos casos de perjúrio e assassinato aos mais íntimos detalhes do comportamento sexual. A fornicação por um bispo era mencionada a par com as relações sexuais com animais, com a masturbação, com as relações sexuais com a esposa “por trás, à maneira dos cães”, e com os jogos sexuais das crianças. Cenários inteiros de tentação eram descritos e era deixada a apropriada penitência para cada acto.»
(Brown, op. cit., 243)
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22.10.04
(17NP) Se dói é preciso medicina. No dizer de Peter Brown, a primeira foi leve mesmo tendo sido receitada pela pena de Agostinho que: «negou que algum Cristão pode estar sem pecado, mesmo depois do baptismo. A penitência para ele não era somente dirigida aos pecados maiores (o que Agostinho designava por pecados “capitais”: isto é pecados mortais). A penitência devia sempre tocar aquelas falhas da vida diária as quais deviam lembrar a todos os crentes, o tempo todo, a sua natureza humana caída. Estes “leves” pecados eram significativos, mas a sua penitência era suave. Na opinião de Agostinho era suficiente recitar cada dia com sincero arrependimento a frase do Pai-nosso, Perdoa os nossos pecados, como nós perdoamos àqueles que pecaram contra nós…» (op. cit. 256)
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21.10.04
(16NP) Não é fácil então ver. Mas é necessário. Mesmo que doa. E dói: «daqui a austeridade da Mensagem de Gregório. Quanto mais os cristãos lutam pela perfeição, acreditava ele, mais claramente devem ser a sua própria imperfeição. Para esta visão de si Gregório usa o termo horror. Por isso, ele não quer dizer o medo do Inferno. Mas referia o sentimento de pesadelo e vertigem experimentado pela pessoa piedosa ao ver a fina tenacidade, a insídia, a minuciosa particularidade dos seus próprios pecados.» (Brown, op. cit. 88)
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19.10.04
(15NP) O reconhecimento da disfunção é uma tarefa difícil. Pense-se por exemplo no cancro ou na sida. Algo no organismo é disfuncional, mas o quê não é fácil saber. Do mesmo modo, – ou pior – se pensarmos em coisa bem menos grave, por exemplo, no erro ortográfico. Aqui, erramos porque pura e simplesmente não sabemos o que seja... O pecado não é um fenómeno que possamos considerar mais fácil. O pecado implica uma quebra na adequação do comportamento com a vontade de Deus. O que implica algum conhecimento do que possa ser essa vontade. Isto justifica algo que a um primeiro olhar parece paradoxal. De facto, se no pecado há a tristeza pelo reconhecimento de que não somos capaz de cumprir com as indicações dessa vontade, por outro, há também a alegria de saber que estranhamente avançamos pelo menos um passo. De facto, o reconhecimento do pecado implica que de algum modo nós já conhecemos nem que seja de modo mínimo o que essa vontade quer de nós. O que já não é pouco. Falta apenas tudo o resto. O que é muito. Mas antes, diz o século sétimo, é preciso acertar as contas. Mas vejamos entretanto o modo indicado por Santo Agostinho para as acertarmos.
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