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23.5.07

Em 1787, numa estalem perto de Moulins, estava a morrer um velho, amigo de Diderot, formado pelos filósofos. Os padres das redondezas estavam extenuados: tinham tentado tudo em vão; o homenzinho recusava os últimos sacramentos. O Sr. de Rollebon, que passou por ali e que não acreditava em nada, apostou com o pároco de Moulins que, em menos de duas horas, seria capaz de converter o doente aos sentimentos cristãos. O pároco aceitou a aposta, e perdeu: atacado às três horas da manhã, o doente confessou-se às cinco e morreu às sete. «Sois, na verdade, muito forte na arte da controvérsia», reconheceu o pároco; «levais a palma aos nossos!» «Não controverti», respondeu o Sr. de Rollebon, «meti-lhe medo com o Inferno.»
J. P. Sartre, A Náusea.

12.5.07

«A esperança ilusória assenta em nós considerarmo-nos demasiado importantes. Não conseguimos imaginar que as coisas continuem indiferentemente a existir sem nós, que não sofram com a nossa ausência. Do mesmo modo como para aqueles que navegam, as montanhas, os campos, as cidades, céu e terra se escapam à medida que eles próprios se afastam, assim também nós imaginamos que faltaríamos às coisas na medida em que elas nos escapam.» Hans Blumenberg, Naufrágio com espectador, Vega, 30.

13.4.07

Plutôt nous y dissoudre que d’entendre une certaine voix ! Nous ne commençons à nous sentir menacés dans ce qu’il nous plaît de nommer notre autonomie que lorsque retentit au dehors de nous cette voix qui nous appelle. Or l’appel ne peut venir que de Quelqu’un. Voilà pourquoi nous prenons en pensée tant de précautions pour éviter d’avoir à reconnaitre à la Divinité la voix d’un être personnel. Nous ne voulons pas être appelés, appelés par notre nom. Nous ne voulons pas être prévenus, nous ne voulons pas être aimés.
Henri de Lubac, La rencontre du bouddhisme et de l’occident, Aubier, 281

12.4.07

Son cas illustre l’attirance qu’exerce naturellement le bouddhisme sur une pensée qui s´éveille de ses illusions sans se départir de ce que M. Albert Camus nomme `a si juste titre «l’orgueil européen» qui veut se relier à l’Éternel sans avoir à confier à un Être, échapper à sa solitude sans avoir à répondre à un autre, à l’Autre.
Henri de Lubac, La rencontre du bouddhisme et de l’occident, Aubier, 176

19.3.07

«Enfin, parmi les occasions des mortification, les meilleurs sont celles que l'on ne choisit pas et qu'on ne s'inflige pas artificiellement. Le froid, la pluie, la neige sont inévitables (...) il faut supporter de bon coeur ces intempéries" (La vie érémitique d’après la doctrine du Bienheureux Paul Giustiniani por Dom Jean Leclercq, Plon, 119. Negrito meu)

6.3.07

Bienheureux Paul Giustiniani: «Malheur à celui qui commence à trouver les journées trop longues!»

5.3.07

Bienheureux Paul Giustiniani: «mais la plus pernicieuse de toutes les imperfections est de trop ressentir les imperfections des autres et de ne pouvoir les supporter d'une âme toujours égale»

2.6.06

«Tudo o que passa, fica. É isso a nostalgia?» - no antes que me deite:uma frase que brilha no escuro.

23.4.06

«Sim, porque a vida não é aqui!»... alguém o disse, Bastet também e agora fica aqui.

8.3.06

«Foi a última oportunidade de eu emitir opinião, mas reconheço, humilhado, que provavelmente não teria nada a dizer. Esta a razão de eu afirmar que Kurtz era um homem notável. Tinha qualquer coisa para dizer. E disse-a.» - Joseph Conrad em O Coração das Trevas.

28.12.05

«O quadro traçado por Strawson contém uma interessante «mudança gestaltista». A princípio pode parecer que as atitudes morais associadas à censura seriam duras e desapiedadas; podemos ser tentados a pensar que seria uma melhoria significativa se preferíssemos atitudes mais liberais e compreensivas para com coisas como crimes e «comportamentos desviantes». Tratar as pessoas como pacientes, e não como criminosos, parece um passo numa direcção humanamente mais correcta. Strawson pede que nos confrontemos com o que se perde com esta alteração. E sugere que muito daquilo que faz das relações humanas algo de especificamente humano se perde. Suponhamos, por exemplo, que pretendo explicar a alguém as razões de ter adoptado um certo comportamento. Verifico, afinal, que as pessoas ouvem a minha história olhando-me de uma maneira que sugere que aquilo que estou a dizer é mais um sintoma. Tratar-se-ia apenas de um sinal de que necessito de ser conduzido ou cuidado ou curado ou educado. Fui, portanto, desumanizado. Quero que a minha decisão seja compreendida e não encarada com paternalismo. Quero que as outras pessoas «ouçam a minha voz», o que significa compreenderem o meu ponto de vista, verem de que modo as coisas se me apresentam e não interrogarem-me quanto às causas que conduziram um organismo a comportar-se deste modo.» Simon Blackburn, Pense, Gradiva, 116.

7.12.05

“A enorme grandeza do cristianismo reside no facto de não procurar um remédio sobrenatural contra o sofrimento, mas sim uma prática sobrenatural do sofrimento.” Simone Weil, A Gravidade e a Graça (ed.Relógio d´Água) no Guia dos Perplexos.

18.11.05

gosto deste tipo de exemplos: «suponhamos que estímulos auditivos eram fornecidos ao córtex visual e estímulos visuais eram fornecidos ao córtex auditivo. Que aconteceria? Tanto quanto eu sei, ninguém alguma vez fez esta experiência (…) Embora esta hipótese seja especulativa, tem algum apoio independente se reflectirmos no facto de que um soco nos olhos produz um clarão visual («ver estrelas»), embora não seja um estímulo óptico.» (Searle, Mente, Cérebro e Ciência, edições setenta, 14)

27.10.05

«Ve el dolor y la maldad en el mundo; pero, lejos de comprender que ambas cosas no son sino los dos lados del fenómeno único de la voluntad de vivir, le parecen cosas contrarias y con frecuencia recurre a la malicia, es decir, trata de mortificar a los demás para librarse de los dolores y afecciones de su propia individualidad extraviado por los errores de la individuación y engañado por el velo de Maya.» - Arthur Schopenhauer na net e na malícia humana.

3.9.05

«Espero que não te pasmes com o facto de Lúcifer te falar de religião. Com a breca! Só desejo saber quem, a não ser eu, poderá falar-te dela hoje em dia. Certamente não um teólogo liberal! Afinal de contas, sou agora quase o único a conservá-la! A quem quererás conceder uma existência teológica a não ser a mim? E quem poderá levar uma existência teológica sem mim? A religião é meu elemento, tão indiscutivelmente como deixou de ser matéria da cultura burguesa. A Cultura, desde que renegou o culto e se pôs a cultivar-se a si mesma, não passa de um refugo, e depois de meros quinhentos anos de tal situação, todo o mundo está tão farto e cansado dela, como se tivesse engolido, salva venia, panelas cheias de tal comida…» - Doutor Fausto de Thomas Mann, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, 329.

7.6.05

«Mas, quando uma esposa, um filho, um parente ou um amigo realiza o que desejamos, com relutância e resmungando, com expressões de desagrado e contrariedade, a manifesta dificuldade a que eles se sujeitam contribuiu para realçar grandemente o carácter coactivo da obrigação. Como esta observação é daquelas que poucos leitores seriam capazes de fazer sozinhos, considerei conveniente dar-lhes uma ajuda; mas não esperem que este esforço se repita muitas vezes ao longo da minha obra. Na verdade só muito raramente o favorecerei nestes domínios, salvo em circunstâncias análogas a esta, quando somente a inspiração com que nós, os autores, somos dotados, pode permitir a uma pessoa fazer semelhantes descobertas.» - Henry Fielding, Tom Jones, 24.

19.5.05

«Se o senhor, Don Pietrino, não estivesse a dormir, dizia logo que os fidalgos fazem mal em desprezar assim os outros e que todos nós, igualmente, sujeitos à dupla servidão do amor e da morte, somos iguais perante o Criador; eu só poderia dar-lhe razão. Acrescentarei, porém, que não é justo culpar apenas os «senhores», porque esse vício é universal. Quem ensina na Universidade despreza o mestre da escola paroquial, ainda que não o demonstre, e como o senhor está a dormir posso dizer-lhe sem reticências que nós, os eclesiásticos, consideramo-nos superior aos leigos, nós, os jesuítas, superiores ao resto do clero, tal como vocês, os ervanários, desprezam os tira-dentes que vos pagam na mesma moeda; quanto aos médicos, troçam dos tira-dentes e dos ervanários, mas eles próprios são alcunhados de burros pelos doentes, que pretendem continuar a viver com o coração ou o fígado feitos em papas. Para os magistrados, os advogados não passam de uns maçadores que tentam protelar o funcionamento das leis, mas a literatura está cheia de sátiras conta a pomposidade, a ignorância, ou pior ainda, desses mesmos juízes. Os camponeses são os únicos que se desprezam também a si próprios; quando aprenderem a troçar dos outros o ciclo fechar-se-á e terá de recomeçar do princípio.» - G. Tomasi di Lampedusa, Leopardo, 156.

16.4.05

«Quantos anos tens? – Doze. – Então eu deveria dar-te um desconto, e é o que vou fazer. Continuemos: com um ego robusto, os teus sentimentos em relação ao dinheiro que ganhas podem ser deixados para a inteligência e para o bom senso. Nunca recebas ou aceites dinheiro que sintas que não o merecestes ganhar. Se o fizeres, a tua integridade vai-se abaixo e o ego fica cheio de minhocas.» - No Rex Stout das Aranhas Douradas, Nero Wolfe faz este discurso a um miúdo – talvez – aprendiz de detective que no dia seguinte é assassinado.

15.4.05

Pepe Carvalho: «há coisas que são contra-natura. Tentar fugir da própria idade, da própria condição social leva à tragédia.» Manuel Vázquez Montalbán, Os mares do sul.

10.4.05

«Esta carta, se por um lado agradou a Nekliudov, desagradou-lhe por outro. Agradou-lhe porque se sentiu possuidor de uma grande fortuna, mas desagradou-lhe porque se lembrou da sua mocidade e do tempo em que fora um adepto entusiasta das doutrinas de Herbert Spencer. Na sua qualidade de proprietário de bens de raiz, a tese, desenvolvida no Social Statics, segundo a qual o ideal de justiça não podia conciliar-se com a posse da terra, atingira-o com particular premência. Nessa época, animado pela franqueza e pela decisão próprias da juventude, não se contentara em proclamar que a terra não podia estar sujeita a uma apropriação privada nem se limitara a escrever, na Universidade, trabalhos sobre este assunto; fora mais longe. Passando da teoria à prática, renunciara a uma parte das propriedades, que lhe vinham da herança paterna, em favor dos camponeses, não querendo assim possuir terras que contradissessem os seus princípios. E agora que se tornara, mais uma vez por herança, um grande proprietário, tinha de seguir um de dois caminhos: renunciar aos direitos sobre duzentos hectares da herança paterna ou, por um acordo tácito, reconhecer como falsas e mentirosas as ideias que outrora sustentara.
Nekliudov não podia adoptar a primeira solução porque não possuía outro rendimento a não ser o das suas terras. Também não estava disposto a reingressar no exército e, por outro lado, não achava possível perder os hábitos de luxo a que se sentia muito ligado. Além disso, para que serviam todos esses sacrifícios se ele já não sentia a convicção, a capacidade de resolução, a vaidade e o desejo de surpreender que o moviam na juventude?» – Leão Tolstoi, Ressurreição.