Catolicismo 21. Julgo que basta olhar para aquilo que hoje acontece em Fátima. Ou vê-lo pela televisão. Até amanhã. Voltaremos com algumas coisas simples.
13.5.05
Catolicismo 20. Finalmente, quanto aos comentários. Se a Bastet e o amigo evangélico, em contextos diferentes, foram frequentemente colocando em discussão a economia da mediação, e se nos fomos entendendo no que diz respeito às diferenças nas posições possíveis, um último comentário do Marco e um anterior do José, puseram no ar a questão da diversidade e da pluralidade dentro do catolicismo. Não vou responder agora: até porque tal como na questão da ignorância católica, julgo ser possível uma abordagem que ponha contra o que correntemente se pensa e mesmo contra muitas das pretensões da organização hierárquica, a importância da hierarquia no fomento da pluralidade e da diversidade, e sobretudo, de uma diversidade difusa. Não é preciso muito:
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Catolicismo 19. Uma segunda nota sobre a estratégia seguida nesta série de posts. Há uma suspeição generalizada quanto ao modo como o católico vive a sua fé. Que são ignorantes. E são. Não se tratou aqui de dizer que não há motivos para isso. É de todos conhecidos que com dificuldade o católico conhece tanta encíclica, tanta carta pastoral, tanta teologia, tanta grande ou pequena indicação, tanta informação produzida ao longo dos seus já muitos séculos. O se tratou foi de tentar ver se por trás disso não poderia estar um fenómeno positivo: a confiança. Isto partindo do suposto que ter confiança é bom. Quem não o achar…
P.S. quem quiser argumentos epistemológicos para sustentar a confiança e mesmo a fé, pode, por exemplo, ir buscá-los ao meu amigo protestante Alvin.
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Catolicismo 18. Deixo, entretanto, em anexo, algumas questões que ficaram de lado. Desde logo a questão da fé. Pois confiança e fé não são a mesma coisa. Em rigor, e dentro de perspectiva que partilhamos, é a fé que sustenta a confiança, mas, acrescentamos nós que a confiança é uma manifestação clara ou escura da fé. O que estão a ver!? – Até por estas voltas de linguagem, é melhor ficarmos para já por aqui. Depois:
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Catolicismo 16. No entanto, é verdade que há católicos que deixam de o ser. E que insistem em não voltar à sua Igreja. Não vamos abordar as razões, de resto, polémicas e conhecidas, das grandes saídas em massa do catolicismo que se deram ao longo dos séculos recentes e que configuram de modo vago aquilo a que é habitual chamar protestantismo. Vamos aqui, apenas, fazer racionalidade rasteira, contemporânea. Vamos dizer o que supomos que acontece hoje ao crente comum quando resolve abandonar a Igreja a que pertence. Assim: se o católico comum resolve largar os seus hábitos, os seus mecanismos de prevenção e reposição de quebra de confiança, e insiste em não voltar para a Igreja católica, parece-nos que o católico deixa de ser católico, e não quer voltar a ser católico, não tanto porque não concorde com a teoria sacramental, com a dogmática, com a doutrina, ou com o catecismo, coisas que habitualmente não conhece bem, - e que pode bem não conhecer na base da confiança -, mas, porque tem uma relação de confiança pessoal quebrada. No andar de baixo onde se faz este post, o raciocínio é mais ou menos este: este paroquiano é assim, todos são assim; este padre é assim, todos são assim; este Papa é assim todos são assim. Mais coisa, menos coisa. Saio e por isso, não volto. Alguns poderão dizer que quem assim faz é lúcido. Outros dirão que quem assim procede é manifestamente cego. Num caso e noutro, pode ser que sim ou que não. Contudo, num caso e noutro, há que admitir que a “indução” que está em jogo, que sustenta a quebra e a manutenção da ruptura, nunca dirá com correcção o que passa em cada um dos casos que é um dos milhões de casos possíveis onde a afirmação de cegueira ou de lucidez se poderia testar. Sendo esta correcção de avaliação de todo impossível, confiar que se está bem, ou que se está mal na Igreja católica, obriga então a fazer intervir na confiança algo que vem de outro nível. Mas, não falemos dos ventosos caminhos da fé. Limitemo-nos a ficar pela terra.
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Catolicismo 15. O católico não abandona facilmente o catolicismo. Pois mesmo quando está fora, está habituado a descobrir motivos para voltar para dentro. Está de algum modo sempre disposto a voltar. Basta que alguém, algo, despolete em si, os antigos hábitos de confiança. Que alguém, algo, despolete a pertinência da crença na Igreja para além do crente, da crença na bondade que existe no homem, na crença que torna operativos os mecanismos de reposição da confiança. No entanto:
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12.5.05
Catolicismo 14. Igreja Católica há só uma. E tanto que as diversas tentativas para fazer criar e manter no catolicismo igrejas católicas nacionais, com independência de Roma, pense-se, por exemplo, na história da Igreja em França, não têm tido desenvolvimentos significativos. Ou, no caso dos velhos católicos citado nos dois dedos de conversa.
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Catolicismo 13. Então, o católico não abandona facilmente o seu catolicismo. Quando os seus hábitos de confiança são abalados, pode pôr em jogo mecanismos de confiança na comunicação com o divino, como os que se jogam nos sacramentos, e mecanismos de confiança nos outros membros da comunidade, como os que se produzem numa Igreja a duas velocidades. Por aqui, o católico consegue um conjunto de mecanismos de prevenção e de reposição de confiança. Por isso:
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11.5.05
Catolicismo 12. Então, o católico não abandona facilmente o seu catolicismo. Não é fácil abandonar hábitos de confiança. Primeiro, pela simplicíssima razão que não é fácil abandonar um hábito. Depois, porque quando se abandona a confiança, o barco fica à deriva. Quando se deixa de confiar num pai, num irmão, num amigo, num amante, navega-se em mar encapelado, na mais funda das dores, num fim difícil terminar, num início difícil de começar. Por isso, queremos confiar.
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10.5.05
Catolicismo 11. A Igreja a duas velocidades permite pensar porque para o católico, mesmo nas alturas em que a confiança está em crise pelo comportamento de outro católico, padre, bispo, cardeal, Papa, pode ainda assim, continuar a confiar na Igreja, pois, se vê pecadores, não estranha; mas se isso produz doses excessivas de desconfiança, estas podem ser trabalhadas da seguinte forma: a Igreja diz a existência de santos; que existiram; que nada impede que existam nos dias de hoje; isto possibilita ver no seio do erro e do pecado, focos de certeza e de obediência a Deus; assim, por muito que a confiança entre em desespero, ainda assim pode esperar, porque os homens santos lhe fornecem um horizonte não só de possibilidade como de realidade; deste modo, o crente comum, por muito desconfiado que ande, tem nos santos um esteio que pode suportar os naufrágios da sua confiança. E isto, tanto por causa do passado, como por causa do presente. Pois se lhe é dito que os santos existiram no passado, nunca lhe é dito que não possam existir no presente. Aqui, penso, talvez, mal, que uma das razões da “estratégia da santificação acelerada" por parte de João Paulo II passou pela percepção dos tempos que correm como tempos de crise, tempos que, por pouco fiáveis que sejam, ainda assim não deixam, como outros não deixaram, de fornecer motivos de confiança. Então:
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9.5.05
Catolicismo 10. É pelo menos do tempo de Agostinho a concepção de uma Igreja a duas velocidades. Numa imagem a preto e branco: uma Igreja dos santos que coexiste com uma Igreja dos pecadores. O preto e o branco simplificam um pouco as coisas, mas servem. Comecemos por ver como esta concepção possibilita prevenir a desilusão, e por isso, prevenir o despoletar de altos graus de desconfiança. De uma coisa está livre o católico. Que lhe digam que o padre, bispo, cardeal, Papa não têm pecado. Que já alcançaram a Iluminação. Que lhe digam que o irmão que se senta a seu lado na Missa é um eleito. Que pode ter a certeza que carimbou o bilhete para o Céu. Antes pelo contrário. Se a Igreja é uma Igreja de pecadores, dizem-lhe – por pouco que seja e não é preciso muito, pois ele sabe porque anda por lá – que o seu irmão é pecador, dizem-lhe – por pouco que seja e não é preciso muito, pois ele sabe porque anda por lá - que o padre come vezes de mais à mesa com o rico e se esquece frequentemente do pobre, que o bispo, o cardeal, o Papa, se ocupam mais com sotainas, e menos, muito menos, com as vestes que vestem a alma. Assim, alertado, e num alerta mil vezes confirmado, se não pode reclamar inocência, se não pode reclamar ilusão, ainda assim pode continuar confiante, porque a sua Igreja resolve de vez em quando acentuar outra velocidade:
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7.5.05
Catolicismo 9. Também, por isso, o católico vê a sua confiança na Igreja católica justificada. A concepção sacramental católica faz com que mesmo quando as mãos dos sacerdotes estão escuras, a luz continua a passar. Incompreendidos, os sacramentos são fundamentais. E peças úteis, na prevenção e manutenção da confiança. Mais há mais, e um mais que lida já não com sacramentos, mas com homens: a concepção de uma Igreja a duas velocidades:
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6.5.05
Catolicismo 8. No catolicismo, ainda que um sacerdote tenha as mãos impuras, podemos, ainda assim, contar com ele. Porque há algo que passa pelas mãos do sacerdote que não é contaminado com a sujidade. Isto possibilita ao católico quando confrontado com um sacerdote que considera mau, esperar que por ele passe algo de bom; bom, não: que passe por ele, pura e simplesmente, o melhor. Assim, por muito mau que seja o padre, o bispo, o cardeal e o Papa, por muito mau que seja o factor humano, pode o católico continuar a acreditar que tal mal, não é impedimento do bem; e que – “suprema das ironias” – através desse mal, passará o melhor. Por isso:
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Catolicismo 7. Poderemos fazer entrar na série destes mecanismos de precaução, - melhor pensado, diria que também de reposição de confiança - a reiterada utilização do platonismo em diversas versões. O jogo que se produz entre arquétipo ideal e tradução – distância – concreta e histórica. Pois, muito se joga na crença de uma Igreja além dos crentes. Ou na crença da participação do humano no divino. Mas, para não ficarmos sujeitos a subtilezas filosóficas – enquanto helenísticas, discutidas e penalizadas pela pena de teólogos como Harnack – passemos – sem discutir o fundamento – a mecanismos mais taxativos; por exemplo, para a efectividade dos sacramentos:
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5.5.05
Catolicismo 6. Em muitas Igrejas reformadas, quando a liderança pessoal, teológica, não serve as orientações de parte dos indivíduos que compõem uma comunidade, essa parte da comunidade pode não a aceitar; quando isso acontece, é frequente, os indivíduos deixarem a comunidade a que pertencem, criando uma nova associação que seja capaz de cumprir as orientações que julgam pertinentes. Esta uma razão do pulular das comunidades protestantes na América. No catolicismo, isto não acontece, ou raramente acontece, mesmo quando a relação de confiança é fortemente abalada; para isso, contribuíram alguns mecanismos de precaução:
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Catolicismo 5. Qualquer hábito passa pela repetição de pensamentos, palavras e acções. O hábito de confiança pela repetição de pensamentos, palavras, acções de confiança. Hábitos diários, semanais. Ao longo da vida. Hábitos históricos. Numa história que cedo viu a existência de falhas. Antes, contudo, de pensarmos alguns mecanismos que permitem lidar com estas falhas na cadeia de confiança, observemos algo que acontece nas Igrejas reformadas:
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4.5.05
Catolicismo 4. A confiança garante solidez na cadeia de conhecimentos disponíveis. Não só por isso, mas também, para o catolicismo, a confiança é fundamental. O católico soldado raso habitua-se a confiar no católico padre, este no bispo, o bispo no cardeal e o cardeal no papa. Mesmo quando existem dúvidas, quando o padre não se comporta como devia ser, quando o bispo é distante, o cardeal fuma, o Papa não é bem aquilo que deveria ser, o católico raso dissolve em grande medida essas dúvidas no seu hábito de confiança. Isto pode ser visto muito recentemente, em muitas reacções provocadas pela actual eleição do cardeal Joseph Ratzinger. É a confiança, o hábito da confiança, que leva o crente com reticências a suspendê-las, e a aceitar quem com todo o rigor não aceitaria. Para percebermos melhor isto:
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3.5.05
Catolicismo 3. A justificação do desconhecimento que o soldado raso católico tem do catolicismo pode derivar do facto de o catolicismo apostar forte na mediação. Ao contrário, por exemplo, do protestantismo que tenta, – digo, e não mais, pois, levaria à discussão de pretensões – numa relação não mediada com Deus, o catolicismo aposta numa relação mediada pela Igreja. O protestantismo obriga a um conhecimento directo, o mais directo possível, por exemplo, a ler, conhecer, directamente, a Palavra. Uma imagem ortodoxa: o homem face ao Livro. Claro que em certos matizes protestantes, há também espaço para a mediação. No caso do conhecimento, e no caso do luteranismo, espaço ocupado pelas faculdades de teologia. Contudo, nenhuma com o peso de uma conferência episcopal ou de um concílio. Entretanto, isto é trabalhar cinzento. Voltemos ao preto e branco. Assim: no catolicismo, há espaço para outro homem: padre, bispo, cardeal, Papa. Fora de juízos de valor, é constatável que a introdução deste homem, pode evitar o desconforto de quem habita num certo registo de desconhecimento. Quando não conhece, conhece o padre, quando este não conhece, conhece o bispo, o cardeal e o Papa. O contrário, também, pode – deveria – ser verdade, mas levar-nos-ia certamente demasiado longe. Seja como for, esta cadeia de delegação, repartição, partilha, de conhecimento, por um lado, evita o problema do homem com pífaro, bombo e concertina na mão, por outro, permite que cada católico possa viver sem problemas de maior com aquilo que no catolicismo não conhece: o que não conhece é conhecido por outro, abaixo, acima, ao lado. No entanto, a cadeia só é funcional se for marcada pelo selo da confiança. O que nos leva então ao tema da confiança:
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Catolicismo 2. A visão objectiva – se é que pode ser tal – que tenho do catolicismo, tem sido muito formada por pensamento protestante. Isto justifica-se por duas razões: o protestantismo está distante e a distância permite fornecer dados com alguma frieza; por outro, precisa de encontrar a diferença e isto implica determinar identidades; a segunda razão é dupla e tem a ver com uma característica que parece singularizar a Igreja Católica; nas conversas que vou tendo com diversos amigos católicos, soldados rasos, vejo que raras as vezes temos uma imagem clara da instituição, comunidade, seja o que for; isto acontece porque: o crente comum não conhece os contornos que modelam a instituição, o que só pode acontecer porque não o informam ou é burro; inclino-me para a primeira opção; embora pouco moderno, contemporâneo, esta situação pode revelar mais que mera negatividade, pode ser um sinal de algo que merece ponderação:
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