Alvin 32.
Apanhei o Almanaque do Tio Patinhas que a minha mãe me tinha atirado à cabeça. Ao apanhá-lo, uma carta caiu ao chão. Estava aberta: «Mãe, a Luísa deixou uma carta!» – Ouvi-a responder: «A tua irmã disse que a carta era para ti!» – Havia dentro outro envelope dirigido a mim. Abri-o. Era Alvin: «Olá, espero que esteja tudo bem contigo. Manda um beijo à tua tia. Diz-lhe que foi minha felicidade conhecer uma senhora tão perspicaz. Manda um abraço ao professor e não te esqueças de ir visitá-lo. Eles merecem. E merecem também que seja dissolvido algum mistério que lhes foi bater à porta… Eis, entretanto, o que posso contar. Tudo começou quando comecei a escutar emissões de rádio, onde o meu actual nome, bem, actual não é, era sistemática, repetida e obsessivamente evocado. Fiquei curioso. Indaguei. Certamente saberás que o professor tem uma página na net onde relata os seus interesses. Quanto mais o conhecia, mais intrigado ficava. É de convir que vinho, Kubrick, teologia contemporânea, astronomia, objectos vistos e não identificados, solidão, é uma mistura intrigante. Contudo, podia ser apenas um excêntrico. Não seria mau. Todavia, depois de ter encomendado vinho, pude constatar que se era o professor era um homem excêntrico, não se ficava apenas pela conversa. Era empenhado, fazia. E crente: um crente excentricamente fazedor. Sei que o interesse pela teologia é recente. Mas depressa aprenderás que muito do que melhor apareceu na sua história, veio por mãos excêntricas. Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino. Por isso, fiquei alerta. O professor não dava sinal de abrandar. Não obtinha resposta do espaço e continuava. Coisa difícil, mesmo para o mais abnegado dos pregadores. Tudo isso fazia crescer em mim o desejo de o conhecer. Resolvi-me. Contudo, tinha, tenho, sempre tive, uma série de trabalhos… Poderás constatar que Alvin continua por cá. Se Deus quiser, continuará. Quando resolvi conhecer o professor, tive de pôr em cena um duplo. Surpreendente!? – Nem tanto. Talvez, todos tenhamos um. Não só Elvis. Ou Sadham. Eu tenho. Conheci-o há anos num bar e ficamos espantados com a semelhança nos traços fisionómicos. Mantivemos contacto durante anos, ele acabou por ler tudo o que escrevi, e mesmo antes, já me tinha ajudado. É uma longa história. E isto é uma carta, não um romance. Mas posso dizer-te que foi ele quem apareceu, por exemplo, na série de conferências que fiz em Londres. Conferências que nos deram mútuo gozo e proveito. Poderás inquirir: não poderão agora as autoridades pôr em causa a sua identidade? – Podem. Mas nada adianta. E só lhes pode trazer problemas. Teriam de explicar mais do que querem. E arriscar perder uma fonte de receitas. Alvin vende. Por isso, penso que lhe estarão a facilitar as coisas e que os dados biológicos do antigo Alvin devem ter desaparecido. Espero que sim. Todos ganham com isso... Bom, voltemos ao assunto. Tinha programado o seguinte: ele seguia para a Austrália, para uma série de conferências, eu ia para aí. Fui. Como? – Numa nave espacial, se quiseres, num objecto detectável pelos radares. Não sei porquê, falta de prática, não usava há muito o transporte, não acertei com a casa do professor. Dei um tombo, felizmente perto do destino. Encontramo-nos. A sorte acompanhava-me: a tua tia não é pessoa para se atarantar. Com o tombo, quem estava atarantado era eu. E tanto que quando te vi, apenas fui capaz de balbuciar a frase com que o professor iniciava as transmissões e que deviar estar bem colada na minha memória: um lençol de teologia para o espaço. Não demorei muito a recuperar as capacidades intelectuais e peço por isso desculpa por te ter feito tanto sofrer às mãos de tua tia. Mas, por outro lado, não podia desfazer o disfarce. Aqui, mistério. Sou pequeno. Mais pequeno do que possas julgar. Mas não marciano. Extra-terrestre, sim. Marciano, não. Fiquei marciano para não me tornar estranho ao ambiente do professor. Ele acreditava em seres espaciais, transformei-me num. Já viste a minha foto. Concederás que é mais fácil tornar-me numa bolinha marciana do que no ser cheio de ângulos que fui. Sabia que me seguiam. Mas sabia que não podiam aterrar perto de Amarante. Há o Sá Carneiro, bases aéreas, mas não poderiam aterrar sem terem de lidar com alguma confusão. Sabia que estava à frente. Mas, não confiando. Na casa do professor, tudo parecia correr bem. O professor era o que eu esperava: um grande homem! - O que eu não esperava era que tivessem ido a minha casa e vasculhado o escritório. Já me deviam ter sob vigilância. Só pode ser. Desde quando, não sei. Porquê, também não. Embora, o chapéu texano de que tanto gosto não seja para quem não quer dar nas vistas. Com os mapas e as garrafas de vinho, acho que seguiram um palpite que qualquer um teria seguido. Por isso, apareceram em casa do professor. Quando vi chegar a polícia, fiquei preocupado. Não comigo. Ando há muito nisto: séculos ao esconde, esconde. Já nos encontramos. Não conhecem o modo como me podem prender. Não que não possam. Ou que não possam tentar. Mas não sabem. O quê? – Manda a prudência que não o diga. O que te posso dizer é que estava preocupado com o professor. Com a tua tia não haveria problema. É uma mulher que conhece os limites da crença. E penso que gosta o suficiente de ti, para usar todos os meios que possam evitar que passes por maluco expondo publicamente esta história. Para mais nada, a não ser para dificultar essa tentação ao professor, coloquei fora de uso o computador e a aparelhagem rádio. Pede-lhe desculpa pelos estragos… Quanto ao resto: tudo o que fizeram foi observar-me; acumular dados. Não sabem que por mais dados que acumulem, falta ainda a boa hipótese. Dificilmente a encontrarão. Mas é como tudo: nunca se sabe… Poderás, então, perguntar porque é que fiquei tanto tempo. A razão é simples. Fiquei o tempo que julguei necessário para que vocês não pudessem duvidar da minha existência. Porque eu, mesmo eu, também eu, de vez em quando, preciso que alguém se lembre que existo.
1.5.05
28.4.05
Alvin 31.
Jipe, depois de olhar para o vidro, disse-nos adeus com o braço curto, mexendo os três dedos para a frente e para trás. Depois, mudou rapidamente de verde para verde-claro, de verde-claro para claro, de claro para transparente, de transparente para invisível. Na Judiciária, soavam alarmes e campainhas… Mister Jones, disse em inglês, sem desalento: «para já, é impossível apanhá-lo! Um dia havemos de conseguir! Ganhamos muita coisa! Muitos dados! Muitos dados! Very good!»
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27.4.05
Alvin 30.
«Bom vinho, professor!», disse Jipe, levantando-se. Aproximou-se do professor e deu-lhe um abraço: «não é fácil, professor, nada fácil! Não vai ser fácil arranjar nova identidade! Qualquer coisa se há-de arranjar!... Adeus e até ao meu novo regresso!» … Os agentes Roberto e Gonçalves assistiam impávidos. Esperavam.
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26.4.05
Alvin 29.
Jipe, tanto quanto podemos saber da psicologia marciana, mantinha-se calmo. Ouvia sem sobressaltos. Contudo, a dado momento, agitou-se. O agente Roberto dizia, levantando a voz e falando devagar: «sabia, caro professor, que o doutor Plantinga tinha comprado, há uns meses atrás, após inusitados esforços, algumas caixas do seu vinho ecológico? Sabia, caro professor, que o doutor Plantinga tinha desaparecido sem deixar rasto? Que há dias que ninguém o vê? Sabia, caro professor, que na casa do doutor Plantinga e mais particularmente no seu escritório, há mapas do distrito do Porto e mapas detalhados da vila de Amarante?» – O professor estava de boca aberta. Parecia parvo de todo. Fez-se silêncio. Mas, quando pensei que lhe iria dar uma síncope, vi-o virar-se para Jipe: «Jipe, porque me olhas assim!?»
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25.4.05
Alvin 28.
A meio da tarde, fomos levados para trás do vidro. Já lá estavam Mister Jones e Mister Smith. Cumprimentaram-nos, cerimoniosamente. Os agentes nacionais, o professor e o Jipe, entraram na sala, à nossa frente… Bom, não vou tentar adivinhar a estratégia seguida pelos agentes Roberto e Gonçalves. Roberto e Gonçalves procediam do seguinte modo. Relatavam um conjunto de factos. Paravam. Fixavam atentamente o professor e o Jipe. Pareciam à espera. Depois, continuavam. O que contavam, não inventavam nada, vim a saber depois, era incrível. Uma dor para um ser como eu de imaginação amarrada. Estava atónito. Como poderia ser? – Olhava para a minha tia, mas era de pouca ajuda. Também ela bebia avidamente cada uma das palavras, cada uma das informações. Não era para menos… Eis o resumo. Ou melhor, a minha interpretação. A polícia parecia convencida que havia grossa conspiração. Com o professor metido. O professor tremia. Jipe mantinha-se impenetrável. A polícia contava que o surgimento de Jipe tinha posto no ar forças de diversos países. Amigos e inimigos. Que a nave de Jipe continuava desaparecida. Que na casa do professor, os registos das comunicações via rádio haviam sido apagados. Que tinham sido apagados todos os dados do seu computador. Que na atmosfera linguarejavam códigos como antes não se havia visto. Que todo o vinho ecológico fora vendido a uma velocidade recorde. Que não se percebia o silêncio de Jipe. Em suma: não percebiam como os dados se conjugavam. Alguém teria de conjugá-los, a bem ou a mal… O professor pediu um copo de água e um pacote de açúcar. Gotas de suor rolavam-lhe pela face.
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24.4.05
Alvin 27.
«E a lealdade, Jipe e o professor!?» «Lealdade, carapuça!» – A tia queria pôr-se ao fresco. Ficar era uma tolice. «Aqui, não podemos fazer nada! Vamos embora!». Eu não estava assim virado. Estava sedento de aventura. Queria ver no que dava. Disse-lhe: se fosse, eu ficava. Ela, para me controlar, ficou. Circulamos pelo edifício, com um agente atrás. Os nossos desejos eram ordens. Quisemos comer, levou-nos ao refeitório. Quisemos o jornal, apareceram dois. Quisemos ver como ia o mundo, levou-nos à televisão do bar. Estava tudo na mesma. O Benfica em primeiro, a falta de sorte do Penafiel. A certa altura, tentei discutir o caso com a minha tia. Não estava interessada. Mandou-me calar. Não sei porquê, estava definitivamente convencida que eu era um tolhinho. Uma natureza, sem emenda.
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23.4.05
Alvin 26.
Na Polícia Judiciária do Porto, de manhã, o agente Gonçalves e o agente Roberto concentraram-se em mim e na minha tia. Levaram-nos para uma sala, coberta em grande parte do lado esquerdo, por um vidro. Perguntaram o que haviam perguntado. E não mudaram de atitude. Abanavam a cabeça, que sim, quando lhes dizíamos o que se tinha passado com o estendal, com o lençol, ou quando os informávamos da marca dos nossos telemóveis ou da hora da chamada que eu fizera antes de ir ter com a minha tia. Estávamos nisto, quando entraram Mister Jones e Mister Smith. «O.K., O.K.,!», disseram para os agentes nacionais. O agente Roberto sorriu: «sabemos que são pessoas de bem, verificamos o vosso passado, a idoneidade das vossas afirmações, e dá-se o caso de que, a partir deste momento, estão livres. Quando quiserem, podem ir embora. Todavia, gostaríamos de contar com a vossa colaboração para nos ajudar a desvendar este caso. Fica à vossa consideração.»
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22.4.05
Alvin 25.
Quando cheguei à sala, levava a informação de que iríamos ser transportados para o Porto. Contudo, nenhum dos meus companheiros se mostrou disposto a comentá-la. A minha tia estava zangada. O professor tinha um ar enfadado. Mas, já dentro da carrinha, o professor, resolveu começar a contar-me a história da sua vida. Jipe ficou incomodado. A minha tia também: «outra vez!? Professor, será que não pode ficar calado!?» – «Com todo o respeito, minha senhora! Se há pouco não segui o seu conselho, não calei, como era meu dever, o campo das hipóteses, o nosso futuro, não vai ser agora que me vou calar no campo dos factos. Mais, porque, aqui, o seu sobrinho parece interessado e a última coisa que quero é defraudar o seu interesse!» – A minha tia olhou-me furiosa. Mas, perante esta retórica, o que é que eu poderia fazer?
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20.4.05
Alvin 24.
Mas, afinal, o que me perguntaram? - Coisas verdadeiramente triviais: quem era, o que fazia, amigos, como tinha encontrado o extra-terrestre, o que sabia do assunto; outras, insólitas: o que queria da vida; que línguas falava; se tinha ido à tropa; alguma vez aos estados unidos. No meio disto, ao contrário do que eu pensava e do que tenho visto em televisão, não punham em causa as minhas afirmações, nem colocavam questões para que as tornasse mais explícitas. Ainda bem, pensei. Por outro, lerdo que sou, desconfiava: mas que porra se passa aqui?
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19.4.05
Alvin 23.
O agente Roberto e o agente Gonçalves interrogaram-me. Mister Jones e Mister Smith assistiram. Pelo que agora sei, pelo que depois a tia e o professor me disseram de viva voz, – ao Jipe, como veremos, tal não foi possível –, perguntaram-me o que a eles tinham perguntado. Por isso, o meu interrogatório demorou pouco. O do professor mais, porque grande parte do tempo foi ele a interrogar: o que pensavam da contaminação química, era ou não o maior perigo para a humanidade, o que pensavam da existência de Deus ou da função da humildade na vida profissional, porque não aproveitavam Jipe para mostrar ao mundo que ainda havia no Universo quem se interessasse por teologia, ou porque não aproveitavam a presença marciana para fomentar o turismo internacional. Segundo o professor, os agentes não tinham ficado nada incomodados com o interrogatório. Antes pelo contrário. Mostraram muito gosto na conversa. Levaram a sério as perguntas, embora, apenas tivessem respondido ao estilo americano: «sim», «não», «talvez», «não tínhamos pensado nisso.»
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18.4.05
Alvin 22.
Quando a carrinha parou em frente da esquadra de vila, os quatro senhores vieram abrir a porta da carrinha. Entramos e a esquadra estava vazia. Meteram-nos numa pequena salinha, fecharam a porta e saíram. Sentamo-nos num banco corrido. Ficamos ali, seguramente, duas horas. Eu fui olhando para os meus companheiros. Nenhum parecia ter vontade de falar. O professor e a tia olhavam para a biqueira dos seus sapatos. Jipe assumira novamente a posição de bola. Rabo no assento, cabeça no chão… A porta lá se abriu. O agente Roberto, com um gesto, convidou Jipe a segui-lo. Passada uma hora, Jipe voltou. O professor continuou como estava. A minha tia olhou-o fixamente. Eu perguntei: «então, Jipe!?» – mas, ele nada respondeu. A porta voltou a ser fechada. Com isso, o silêncio restabeleceu-se na sala. Passou outra hora. Foi a vez de minha tia. Quando regressou, desabafou: «coisa esquisita!», mas, num tom que não convidava ao diálogo. Passada meia hora, foi a vez do professor. O professor esteve lá bem mais tempo. Duas ou três horas. Quando regressou, foi a minha vez de seguir para interrogatório.
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17.4.05
Alvin 21.
O aparato policial foi rapidamente desfeito. Apenas um carro seguia à frente, outro atrás, da carrinha blindada onde Mister Jones, Mister Smith e os agentes Roberto e Gonçalves nos meteram. Gentilmente, diga-se de passagem. Gentileza usada pelo agente Roberto, quando pediu licença para entrar em casa, para informar que tínhamos de acompanhá-los, que eram averiguações, que deveríamos compreender, que dado o caso, tudo estava debaixo de segredo militar e de estado. E que tinham de nos revistar. Não foi isso que esfriou o ânimo do professor; mas: «segredos e segredinhos, quando escaparei a tanto segredo!?» – Eu tentei animá-lo; disse-lhe que deveria ficar contente; afinal, a segurança do país, ao contrário do que julgamos, era célere a funcionar e capaz da mais alta colaboração internacional, que devíamos ficar contentes porque a polícia estava ali a mostrar alta inteligência identificando com rapidez um problema difícil, um problema com uma natureza verdadeiramente transcendental. «Desculpa Jipe, mas, é verdade, um problema é um problema mesmo quando é transcendental!», sentenciei eu, virando-me para o nosso amigo marciano que entretanto se fechara em copas. «Cala-te, não digas baboseiras!», ordenou a minha tia, também ela fechada em estado de profunda meditação.
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16.4.05
Alvin 20.
Quando ouvimos as sirenes chegar, carros e carrinhas, o professor parou o tam-tam e dirigiu-se para a janela. «Andem, venham ver!», disse, entusiasmado. Fomos. A rua estava cortada e era ocupada por uma pequena multidão de polícias armados. Eu, ao ver as viseiras fumadas, fiquei cheio de medo. O nosso anfitrião não: «vamos, vamos, vamos entregar-nos à polícia!» «Entregarmo-nos, senhor professor!? – admoestou a minha tia. Acalme-se, por favor!» – Eu acrescentei: «e nada de movimentos estranhos». Jipe, resignado, disse: «só nos resta esperar.» - Tinha razão. Por fim, lá vieram os helicópteros. O professor, quieto e à janela, perdia a alegria, sem perder a excitação; excitado, rabujou: «que descoordenação! Como é que se pode ir a algum lado com uma polícia assim?» – Calou-se. Quatro homens desciam por uma corda. As gravatas esvoaçavam no vento produzido pelas hélices. Já no chão, desamarrotavam os fatos. O professor exclamou: «ena, ena, isto, sim, é polícia!» – O responsável pela polícia no chão, aproximou-se dos homens. Trocaram algumas palavras. O polícia fardado ficou para trás. Mister Jones, Mister Smith, o agente Roberto e o agente Gonçalves vieram até nós. Bateram à porta.
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Alvin 19.
E foi assim que fomos detidos. O professor ficou inchado de vaidade. Tinha dado a conhecer ao universo um texto imprescindível. Foi buscar uma garrafa de vinho para comemorar. Quando regressou, a face irradiava contentamento. Estava tudo bem. Muitíssimo bem. Levantou um copo e brindou ao nosso encontro. E descambou. Começou a abraçar-nos. Duas ou três vezes. Depois, aos urros. Depois, a dar urros e pinotes. Pensei: o que irão dizer os vizinhos?
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15.4.05
Alvin 18.
O professor veio à porta e franziu o sobrolho, intrigado: quem serão? Que faz esta respeitável senhora acompanhada por este anão mascarado? «Bem, disse num tom de voz amável, então, a que associação pertencem? Não sei se terei meios para corresponder aos vossos…» A minha tia riu-se: «não, senhor professor, não somos de nenhuma associação de solidariedade. O assunto que aqui nos traz é outro…» «Um lençol de teologia para o espaço», acrescentou Jipe. O professor olhou-o atónito: corriam-lhe pensamentos em que não queria acreditar. A tia admoestou-o: «é, senhor professor, é. Talvez fosse melhor entrarmos!» - Na sala, perdi uma oportunidade para ficar calado. Resolvi ter protagonismo e contei a história e ao que vínhamos. Acabei assim: «Jipe queria conhecer quem tanto trabalho teve para dar a conhecer ao universo um texto fundamental!» O professor perguntou-me: «desculpe, mas será o senhor, por acaso, um dos poucos admiradores sérios de Plantinga!?» Perante o meu embaraço, riram-se todos; Jipe com os seus barulhinhos. Depois, Jipe falou pela segunda vez e agradeceu: «a esta senhora, ao seu sobrinho e a si professor, muito obrigado. Este texto, não imagina quanto, tem uma enorme importância para mim…»
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13.4.05
Alvin 17.
Jipe fez a viagem na posição da bola. Cabeça nos pés. Hábitos marcianos, pensei. Adiante. O professor era um solitário que ocupava o tempo livre com trabalhos na sua quinta de vinho ecológico, actividades radioamadoras, e alguma teologia. Como vim a saber, nas entrelinhas da prisão, filósofo, procurava ser coerente. Tinha começado com as actividades radioamadoras para enviar teologia para o espaço, pois pensava que os santos ouvintes não habitavam na terra. Queria instruir os galácticos, mas não deixava, por isso, de se preocupar com as almas em terra e com o que delas existe mais próximo: o corpo. Deixava aos ricos a tarefa de evitar as mutações genéticas, porque, segundo sua opinião, a mutação genética era sempre coisa de rico. O que realmente o preocupava era a contaminação química. Depois de ter visto o doutor estranho amor centenas de vezes, reclamava para o filme o estatuto de filme profético. Sexto evangelho. Por isso, empenhava-se na produção do maior número de litros possíveis de vinho ecológico. Com êxito assinalável, como se verá depois.
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12.4.05
Alvin 16.
A minha tia ainda propôs que fossemos de tractor. Ela no banco com o marciano ao colo, chamava-se Jipe, assim, ele traduziu o seu nome. Queria ensiná-lo a conduzir máquinas humanas. O tractor era lento e por isso pouco perigoso. Eu não fui na cantiga. Chegava de nódoas negras no corpo. E de sofrimento. Ainda por cima, o caminho levava uns bons dezoito quilómetros. Não sei se algum de vocês já foi transportado no engate traseiro de um tractor. Não só a trepidação faz saltar as banhas aos músculos, como se corre um risco permanente de entorses, ou – pior - de queda para o alcatrão. Para além disso, já estava farto da figura de palhaço. Fomos no meu carro.
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Alvin 15.
Tenho de ser honesto. Os factos são estes – e outros; mas, a interpretação correcta pode andar longe. Por exemplo, que ele aterrou na quinta parece coisa evidente; mas, essa evidência não justifica o facto de não nos ter dito porque não tinha aterrado na quinta do professor; era evidente que era inteligente e que tinha capacidade para apreender rapidamente; mas, já não era tão evidente a razão porque, ali e aqui, produzia algo parecido com um riso, mesmo se não estava em jogo graça alguma; por exemplo, eu a tentar cobri-lo com o lençol e o pano sempre a cair ou eu a apontar para a casa e a dizer casa, é casa... Era riso. E o mesmíssimo barulho que fizera quando me viu de pescoço para dentro… Honra lhe seja feita, rapidamente se controlou. Por isso, façamos o mesmo. Sigamos a lição que aprendeu o desgraçado que Descartes pôs no meio da floresta: mesmo com dúvidas, há que andar para a frente.
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9.4.05
Alvin Alvin 14.
O marciano tinha recebido a comunicação via rádio e tinha vindo para tentar falar com o responsável pela mensagem. Contudo, aterrara na quinta da minha tia, e, por isso, alguns quilómetros ao lado. Eu e ela não sabíamos das suas intenções, pois o marciano não sabia falar português. A minha tia decidiu ensiná-lo. E usou-me. Começou quando eu trouxe o lençol; apontou-o e disse lençol. Depois, disse pecado e apontou maliciosamente para mim. De seguida, deu-me alguns estalos e apertou-me o pescoço; quando a minha língua saiu para fora, disse: desprezo… E pior não aconteceu, sorte a minha, pois, o marciano aprendia depressa.
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Alvin Plantinga, Warranted Christian Belief, Oxford University Press, New York, 2000, 210: «Como Agostinho e Pascal notaram, este conjunto complexo e confuso de atitudes, afeições e crenças que constituem o estado de pecado é fértil campo para a ambiguidade e a auto-decepção. (…) Talvez eu reconheça, numa espécie de modo semi-subliminar, que o que está aí é profunda desordem e o pior na minha vida. Quase reconheço o egoísmo e o modo auto centrado que caracterizam a maior parte dos meus momentos acordados. Talvez note ainda que quando (ou talvez especialmente) estou em solilóquio privado, quando não se coloca a questão da influência dos outros, eu imaginativamente crio, procuro e contemplo várias situações, nas quais saio vitorioso, ou heróico, ou sofrendo por muito tempo de modo virtuoso ou de uma outra qualquer admirável forma. Talvez tenha um vislumbre desta tolice e desta corrupção, mas a maior parte do tempo não lhe presto nenhuma atenção e ignoro-as; escondo-as de mim, escapando para o trabalho, para os projectos, para a família, para a realidade do quotidiano.»
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