8 de setembro de 2009

- Estúpida! – disse o major.
- E o senhor é um imbecil.
- Anda! Insulta-me!
- Mas, dá-me licença, major Maximovitch. O senhor foi o primeiro a dizer que não acreditava em Deus – interveio Liputine, da outra ponta da mesa.
- E que importa isso? Comigo, a coisa é outra! Pode ser que eu creia, mas não em absoluto. Agora, posso não acreditar inteiramente, isso não quer dizer que seja necessário fuzilar Deus. Estava eu ainda nos hussardos e já me acontecia meditar nisto de Deus. Nas canções, admite-se sempre que o soldado bebe e anda na pândega; ora eu bebia, mas, podem crer, à noite saltava da cama, apenas com as meias calçadas e fazia o sinal da cruz diante do ícone, para que Deus me concedesse a fé, porque até nessa altura eu não podia estar seguro sobre se Deus existe ou não. A que ponto isso me atormentava! De manhã, naturalmente, uma pessoa distrai-se e a fé parece desaparecer outra vez, e pude notar que em regra durante o dia a fé desaparece sempre mais ou menos.
Dostoievsky, Possessos II, EA, 169-170

10 comentários:

Vítor Mácula disse...

E dirão os sábios, e dirão os sensatos, e dirão os justos: "Senhor!, por que os aceitas?" E ele dirá: "Aceito-os, ó sábios, aceito-os, ó sensatos, porque nenhum deles se considerou digno disso.

(Crime e castigo)

abraço, Fernando

a-bordo disse...

... e como é díficil encontrar o caminho da humildade!!! abraço para ti, vitor

anareis disse...

Estou fazendo uma Campanha de Natal para crianças necessitadas da minha comunidade carente aqui no Rio de Janeiro,são crianças que não tem nada no Natal,as doações serão destinadas a compra de cestas básicas-roupas-calçados e brinquedos. Se cada um de nós doar-mos um pouquinho DEUS multiplicará em muitas crianças felizes. Se voce quiser ajudar é fácil,basta depositar qualquer quantia no Banco do Brasil agencia 3082-1 conta 9.799-3 Voce verá como doar faz bem a Alma,obrigado. meu email asilvareis10@gmail.com

antónio davage disse...

... ah, major!

a-bordo disse...

olá antónio: é um grande!!! major... abraço

Anónimo disse...

Caro Fernando: Compreendo que depois de tantos anos a bordo apeteçam outros caminhos, não posso é deixar de sentir saudades das suas palavras acesas e acutilantes.obrigada sempre por elas. Muitas venturas para 2010!Cristina Tavares(ar líquido)

a-bordo disse...

cristina: obrigado e votos de um novo ano cheio de palavras que (nos) façam bem

Vera Y. Silva disse...

D. é um escritor muito peculiar: escrevia mal e de modo descuidado, mas nos seus livros existem reflexões e descrições sem igual na literatura.

Carlos Pires disse...

Como é que alguém que nem sequer escrevia muito bem conseguiu escrever livros tão geniais? Conseguiu porque a boa literatura não é aquilo que a maior parte dos escritores portugueses julga que é. O D. tem muitos parágrafos demasiado palavrosos e displicentes, a organização dos romances nem sempre é a melhor, mas isso conta pouco, pois em contrapartida ele oferece-nos ideias e emoções inesquecíveis. Em vez de perfeição formal ele oferece-nos metafísica e psicologia subtil.

a-bordo disse...

vera e carlos: a arte do romance em d. tem de facto muito que se lhe diga; no entanto, aquilo que a motiva faz com que todas as lacunas que a arte de d. possui sejam facilmente postas de lado ... pena é que não existam muitos mais como ele ... abraço aos dois