24.2.06

(3) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, tinha, antes, tido, portanto, um colapso nervoso com consequências teológicas que, agora, o tinham tornado uma autoridade gnóstica. Ora, pode ser curioso verificar quais as consequências destas consequências. E mais porque são sumamente curiosas. Se não vejamos. Vejamos como tudo – e, aqui, em rigor, quase tudo – retorna ao ponto de partida. O colapso nervoso, como sabemos, produziu em Fat uma produção teológica. Mas não sabemos, vamos ficar a saber que a produção teológica de Fat acabou por produzir uma visão de um universo nervoso e em colapso…. É assim. A partir de Heraclito: «É o que diz Edward Hussey, Leitor de Filosofia na Universidade de Oxford e «Fellow» do Colégio de Todas as Almas, no seu livro THE PRESOCRATICS, publicado por Charles Scribners Sons, Nova Iorque, 1972, páginas 37-38. Em todas as minhas leituras não encontrei – quero dizer Horselover Fat nunca encontrou – nada de mais significativo sobre a natureza da realidade. No Fragmento 123, Heraclito diz: «a natureza das coisas está no hábito de se esconder ela própria.» E no Fragmento 54 ele diz: «a estrutura latente é a mestra da estrutura óbvia», ao que Edward Hussey acrescenta: «portanto, ele (Heraclito) concorda necessariamente em que… a realidade está de certo modo “escondida”» (58) – Então, duas coisas podem ser derivadas daqui: é apenas real a realidade divina que está por trás e nos feixes que atingiram o cérebro de Fat; isto é, é real Deus e as suas teofanias; entretanto, se Deus é Logos, o nosso mundo habitual, o universo, porque ilusório, é ilógico, e por isso insano. É o que nos diz a página 59: «portanto quem esteja em contacto com a realidade está, por definição, em contacto com o insano, impregnado com o irracional.»

21.2.06

O que aconteceu nos Irmãos Karamázov: sendo Aliocha um santo rapaz, porque é que o santo Zossima não lhe permitiu que entrasse no convento e o obrigou a correr o mundo?

20.2.06

(2) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, lá se havia como podia com a morte do gato e com outras questões afins. Com o mal no mundo. 1 – O que elaborava era gnóstico. Soube que era um “profeta” gnóstico, depois de dar entrada no hospital psiquiátrico, após a última tentativa de suicídio. Fat informou o doutor psiquiatra Stone de uma das suas anotações: «- anotação numero vinte e quatro. Na forma adormecida de semente, como informação viva, o plasmato dormitou na soterrada biblioteca de códices em Chenoboskion até que… – Que é "Chenoboskion"? – perguntou o doutor Stone. – Nag Hammadi. – Ah, a biblioteca Gnóstica – confirmou o Dr. Stone com um movimento de cabeça – descoberta e lida em 1945 mas nunca publicada…» (88) 2 – Mais lhe disse Fat. E tanto e tão bem que « – Então, tenho razão quanto a Nag Hammadi? – disse ele ao doutor Stone. – Deve saber isso – observou o doutor Stone, e depois disse uma coisa que ninguém dissera a Fat – você é a autoridade.» (96)

18.2.06



Gerês - trilho dos currais. A pé.

17.2.06

(1) Fat, talvez, gordo cavalo do amor, tem em Valis 1, de K. Dick, um colapso nervoso. O que daí se segue pode ser explicado por 1 – «Os mentalmente perturbados não usam o princípio da parcimónia científica: a busca da teoria mais simples que explique o maior número de factos. Disparam logo para o barroco.» (31, Argonauta).
Assim, se explica que 2 – «Ao fim de um longo período (ou “desertos de vasta eternidade”, como ele diria) Fat desenvolveu uma quantidade de teorias invulgares para explicar o seu contacto com Deus e a informação dai derivada. Uma em particular impressionou-me como interessante diferente das outras. Consistia numa espécie de capitulação mental por Fat àquilo que na realidade ele estava a passar. Esta teoria afirmava que na realidade ele não estava a sentir coisa alguma. Sítios do seu cérebro estavam a ser selectivamente estimulados por finos feixes de energia emanados de muito longe, talvez a milhões de quilómetros de distância. Essas impressões selectivas (….)» (34-35, livros do Brasil) – provinham de Deus, eram o seu Logos.
Claro que alguém assim pode ser facilmente torturado pelos amigos. Era o que acontecia e não era preciso muito 3 – «Não era preciso apanhar Fat com perguntas tolas como «se Deus pode fazer tudo, poderá ele criar uma valsa tão grande que não a possa saltar?». Tínhamos abundância de problemas verdadeiros a que Fat não podia responder. O nosso amigo Kevin começava sempre o seu ataque do mesmo modo. «E o meu gato morto?»» (op. cit., 38).

… e também ler, ouvir, e ficar calado, calado a ler e a ouvir, sem colocar outras palavras por cima, por baixo, ao lado …

13.2.06

Na Invasão Divina de Philip K. Dick, hologramas, uma Bíblia, por exemplo, em formato de holograma, com capacidade para se reorganizar em função do ponto a partir do qual se cria o holograma, naves espaciais, cápsulas, viagens no tempo, fazem o dia de hoje, hoje, a terra governada pelo Partido Comunista e pela Igreja cristã islâmica, Belial, o Grande Inimigo à solta. Por isso, de novo uma nova necessidade de salvação. Mas qual a nova encarnação de Emanuel? Como poderia passar a teia de defesa e de ataque tecnológica, sobrenatural, montada pela ordem deste mundo e pelo Inimigo que também anda no outro para o impedir? - É este o pretexto para a ficção que aparece na Invasão de Philip K. Dick, 328 da colecção argonauta, dos livros do Brasil. Deixo de lado, a análise, que me ultrapassa, dos elementos especulativos, cabalísticos (?), e mais do que pôr em destaque este longo fragmento: «- É o pai? – perguntou-lhe o médico. – Sim – respondera Herb Asher. O doutor sorrira e anotara isso no boletim. – Pensamos que devíamos casar. – É uma boa atitude (…) Sabe que é um rapaz? – Sim – certamente que era. – Há uma coisa que não compreendo – confessou o médico. – A impregnação foi natural? Não terá sido artificial? É que o hímen está intacto. – Sim? – perguntara Herb Asher. – É raro mas pode acontecer. Portanto teoricamente a sua esposa ainda está virgem.» (98) gostaria que a minha memória retivesse: «A imagem de Linda Fox no espírito de Herb Asher continuou a sofrer uma transformação desanimadora; ela via-a grosseira e de má pele, uma coisa flácida que comia demasiado e deambulava sem destino, e compreendeu que essa era a visão do acusador; a criatura cabrito era a acusadora de Linda Fox, era quem a mostrava – quem mostrava tudo na criação – sob a pior luz possível, sob o aspecto da fealdade.» (198-199)

12.2.06

Álvaro Lapa.

10.2.06

Uma Vida de Jesus, de Shusaku Endo, contemporâneo romancista católico japonês. É conhecido o longo fascínio das tentações no deserto, entretanto, interpretadas de diferentes modos. Aqui: «pessoalmente, penso que, enquanto Jesus fazia os Seus «exercícios espirituais» na solidão do deserto, a dois passos do mosteiro de Qumram, os monges não deixariam de O colocar numa situação de conflito ideológico. Porventura tentaram mesmo aliciá-Lo para o seu grupo. Jovem ainda, olhos doridos, devia por certo atrair as atenções do próprio superior religioso e dos seus principais colaboradores. Lendo atentamente o relato bíblico, a tentação em que o demónio O queria fazer cair cifrava-se nesta insinuação: «Busca a salvação terrena para o povo e dar-te-ei em recompensa todo o poder deste mundo». Era isso mesmo, dito porventura de outro modo, o que os essénios do mosteiro de Qumram visionavam para o seu próprio futuro.» (páginas 34- 35) – Isto é: interpretação interessante por colocar as tentações sobre terreno histórico.

7.2.06

Como ninguém nos ouve, podemos começar por escutar o ruído da loiça que cai ao chão da cozinha. O ruído do garfo, tlim-tlim, o rodopio do prato, ra-ra-ra, o plam-plam-e-o-toc-final do tacho que pára. Ruído desajeitado. Música desajeitada para uma pergunta que quando feita mostra a nossa melhor falta de jeito: então não é verdade que tanto custa deixar que nos amem?

6.2.06

... optimismo: não se, mas quando ...

Cadeia de manias, respondendo ao no adro: a primeira – ao começar do dia, antes, depois ou durante o pequeno-almoço, a necessidade de pelo menos dois cafés; a segunda – ao almoço, o não gostar de almoçar; a terceira – durante a tarde, olhar para trás e ver se já tenho a dose certa de tabaco de enrolar, cigarros, cigarrilhas, cachimbos, artefactos fumegantes; a quarta – ao final da tarde, a necessidade imperativa de pelos músculos e pela corrida, repor ordem no organismo; a quinta – durante todo o ano, toda a vida, a mania de só quando me cai o céu em cima deixar um desejo que tenha plantado na alma.

3.2.06

… um fundo de seriedade perpassa qualquer tom com que se pode cobrir um agradecimento …