6 de junho de 2006

Ao chegar ao mosteiro, à cela, ao pé de Zóssima, o jovem trazia um saco na mão; a mão, o modo como a baloiçava, o modo como o saco ia para a frente e como ia para atrás, os movimentos lentos, tensos, trémulos, diziam da sua dificuldade em expor-se... «Ouvi-te, ó santo, dizer: não tenhas medo, não te atormentes. O perdão de Deus é grande» … Zóssima olhou para o jovem: - e então!? – O jovem perguntou: Porque é que não paro de usar este chicote, disse, retirando do saco um chicote ensanguentado. – Não sei. Mas pára de usá-lo.

14 comentários:

Bastet disse...

Acreditar em Deus e não acreditar no seu perdão. Acreditar que Deus é amor e cultivar a infelicidade, o suplício, a dor, a penitência. Há muito quem seja responsável por isto. Quem venda esta doutrina.

Andarilhus disse...

Se o chicote rasga o espaço ao encontro da pele sedenta pelo impacto, foi porque dEUS instruiu o braço no fero suplício do corpo. É o corpo a corrupção da alma ou a alma a instrutora da imperfeição do corpo? Não sei. Mas para quê sermos perfeitos? Auguramos a ascensão a deuses? Ambicionamos o esquecimento dos chicotes? Entrei a bordo... "(º0º)"

a-bordo disse...

primeiro, muito bem vindo, padrinho ... aos dois: as leituras são como as cerejas, já que estamos no tempo delas e por isso é normal que tenham lido no post coisas que eu não leria ... bastet: não sei la muito bem porquê, mas é verdade que me desabituei da crítica institucional ... ouço, por vezes, pondero, mas disso poucas vezes saio ... andarilhus: há no que perguntas, parece-me, e sublinho este parece, um pano de fundo onde se joga uma antropologia e uma ética sobre a qual teriamos de conversar mais para saber se falamos do mesmo … entretanto, apenas quis dizer com esta pequena historieta que há coisas que devemos parar de fazer, antes de compreendermos porque as fazemos ... um beijo e um abraço, respectivamente ...

Andarilhus disse...

...exactamente: deixar de fazer aquilo que não sabemos para que serve fazermos. Deixar de querer superar o estágio do Homem, deixando em branco a sua real concretização, pelo enraizamento cabal do humanismo, na inglória - digo eu - e vã - também digo eu - tentativa de avançar para o desconhecido que é o divino, o poder omnipresente, o controlo, o domínio. No nosso pequeno Mundo, aqueles que deveriam dar o exemplo da tolerância entre Seres Humanos (e outros seres, menos humanos, talvez) são os que mais tolhem e embargam as coisas simples da vida: vive e deixa viver...

Anónimo disse...

... e no entanto Cristo brandiu o chicote no templo...

a-bordo disse...

... anónimo: leia isto, com algum humor, se fôr possível... mas não sobre si mesmo ...

Anónimo disse...

respeito quem quer parar de brandir o chicote contra si mesmo, quando percebo a força que teve que ter para o brandir... com todo o humor.
no fundo, um regresso, por cima, ao 'vive e deixa viver' do andarilhus?
abraço

Andarilhus disse...

Acredito que em alguns casos é necessária tanta coragem para fazer o bem como para fazer o mal. Tanto mais que o a "normalidade" está em não fazer nada, não ter reacção (nem aquece, nem arrefece). Devemos adulterar a nossa razão e sentido de justiça com o alheamento? O exemplo de Cristo é de extremos: Brandiu o chicote, mas também ofereceu a outra face ao martírio...

a-bordo disse...

Anónimo – quem és? - O vive e deixa viver pode dizer muitas coisas. Pode positivamente significar uma não interferência nas decisões positivas dos outros que andam à nossa volta. Pode positivamente significar que não interferimos no seu crescimento, nem que não somos obstáculos à sua liberdade. E penso que é assim que Andarilhus o entende. No entanto, como em tudo, há sempre um risco. E o risco que por aqui se corre é que pode querer dizer que nos predispomos à indiferença perante o sofrimento ou o desnorte de quem anda por perto de nós…


Andarilhus - tradicionalmente a coragem teve sobre si um sinal positivo. Era concebida como algo positivo. O mesmo ainda acontece hoje. Entretanto, a coragem, concebida como virtude, alimentou durante séculos algumas discussões interessantes. Acerca do que poderia ser. E sobretudo, se seria possível existir a coragem sem, por exemplo, a sabedoria. Poderíamos ter uma virtude e não ter alguma das outras? - O que se propôs nestes post é a renúncia ao chicote sobre si, sem que isso implique um saber; o deixar de chicotear sem que isso tenha como razão o saber porque me chicoteio e tendo como razão apenas que chicotear está mal. Porque é que está mal? – as razões que faltam por vezes a este saber… quanto ao exemplo de Cristo: Cristo se brandiu o chicote fez qualquer coisa que está para além do nosso poder; porque sendo o que era tinha a favor do seu chicote uma autoridade que nós nunca teremos; e no caso do castigo a única autoridade que nos concedeu foi a de perdoar…

Anónimo disse...

quem sou eu? alguém que por vezes sobe ao convés como um rato às migalhas.

a-bordo disse...

anónimo: bem vindo então nas vezes que vieres... abraço

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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