15 de março de 2006

Na sacristia pergunta-me o que penso da distância que vai da letra, espírito, do Evangelho à sua concretização na prática. E eu penso algumas coisas. A primeira é que posso estar redondamente enganado. Contudo, e ainda assim, com ou sem erro, aqui vai. Por vezes, grande parte das vezes, há de facto, uma dificuldade em vê-lo realizado na prática. Porque também é assim que muitas vezes vejo a sua concretização, posso dizer que pelo menos no meu caso, isto tem por trás do fenómeno o seguinte. É uma das leis da óptica – ui, o que é que eu disse – que vejamos melhor o que é maior. Como é uma das leis do pensamento que compreendamos melhor o que se encontra em sistema. Por isso, observamos com maior facilidade os grandes gestos e as grandes decisões que os inspiram. E passa-nos ao lado os pequenos gestos e as pequenas decisões. Os pequenos gestos de amor. Um professor debruçado e preocupado com a aprendizagem de um aluno que se mostra recalcitrante. Um grupo de alunos preocupado com a saúde de um professor que sai da sala subitamente zangado. Uma prostituta que ali para os lados da Avenida da Boavista é capaz de superar a frustração de não sermos seus clientes e que nos diz com gentileza as horas. Outros gestos e outras decisões assim. Ora, a esta dificuldade de visão soma-se uma dificuldade de teoria. Tanto quanto eu sei, com dificuldade construiremos uma extensa e sistemática teoria que seja capaz de dar conta das semelhanças de motivação que ocorrem nas acções do professor, do aluno e da prostituta. Claro que podemos dizer que todas elas são fruto de generosidade e que a generosidade é cristã. Se o dissermos penso que dizemos muito. Chegados aqui, pergunto-me vezes sem conta se é preciso dizer mais. Seja lá como for, a minha opinião é então que se não vemos a concretização do Evangelho, não é porque ele não se concretize. É porque não temos olhos para ver a sua concretização e porque temos um pensamento que tem tendência para se deixar arrastar para o inchaço.

8 comentários:

josé disse...

Olá Fernando. O que aqui escreveste lembra-me um trecho de Michel Tournier que tenho aqui guardado para me ir consolando:

«Na última fila estava um velho enfermo que não tinha a menor possibilidade de encher a panela de cobre que estendia a tremer para o bocal. Foi então que a mulher, que tinha acabado de encher a sua ânfora, se dirigiu para o velho e partilhou a sua água com ele. Não era nada. Não passava de um gesto de amizade ínfima entre uma humanidade miserável onde acontecem todos os dias acções sublimes e atrozes. Mas o que é inolvidável foi a expressão desta mulher a partir do momento em que viu o velho até quando o deixou, após ter feito o seu gesto. (...) E que é isto? Um fugitivo reflexo de amor numa existência de amargura. Um momento de graça num mundo implacável. O instante tão raro e tão precioso em que a semelhança contém e justifica a imagem.»

E já agora, a reciprocidade existe mesmo em nós, sem o esperarmos: há grandeza na Boavista na protituta que diz com gentileza as horas e há-a também em quem se lhe dirige simplesmente para lhas pedir.
Abraço, pá.

Aires Montenegro disse...

É interesante: levas mesmo a sério o
"quem tem olhos para ver, veja..." E isso é bom, apesar de muitas distâncias!... Abraço.

Sofocleto disse...

Eu gostaria de compreender uma coisa:

Se Deus é omnipotente e é o criador de todas as coisas, como é que Ele criou este mundo, com tanto sofrimento e tanta morte, sabendo antecipadamente tudo o que se iria passar?

MC disse...

Fernando

tens toda a razão. O mal dos religiosos católicos é que querem ver o resultado do Evangelho traduzido em missas e novenas. Também enfermo desse mal às vezes. Para mim e para os outros.
Mas como comenta um anterior comentador:"quem tem olhos, veja..."

Mas não admira termos estes pensamentos/sentimentos, somos catequisados com isso a toda a hora. Na passada quarta feira sua santidade o papa, na sua catequese, bem se fartou de dizer que é Cristo e a Igreja. Se assim fosse, eu entrava já numa profunda depressão, tantos que eu amo, tantos que eu conheço, tantos que eu imagino, não estão nem aí para a Igreja. O que seria feito deles então? E eu que desanimada por cá ando?

Não, não, mil vezes não. Cristo é maior que o cristianismo. Onde está um gesto de amor, está Deus.

MC disse...

Para o sofocleto

Havia tanto para te responder, que nem ouso começar. Tenho um esboço começado, para responder a essa pergunta. Ainda não o consegui pôr intelígivel.
Mas adianto que, Deus não assobia para o lado, perante o sofrimento. Está mergulhado nele.
A prova disso, temo-la em Jesus Cristo. Mas descobrir isso é um longo caminho. Para perguntas difíceis, não há respostas fáceis. Espero não ter caído nesse erro.

a-bordo disse...

olá josé: como sabes, é sempre com grande alegria que te vejo pela net seja em que estatuto for; por isso e pelo comentário, obrigado; já agora e para que também eu diga alguma coisa sobre o que dizes, penso que esses gestos são sem dúvida gestos que deviam ter mais atenção da nossa parte; era bom que lhe chamessemos cristãos; mas se não o fizermos, eles valem sem dúvida mais do que o nosso gesto de lhe colar etiquetas...

aires: obrigado pelo comentário; pela minha parte apenas posso dizer que quando - sublinhe-se este quando - me esforço, mesmo aí não estou muito certo quanto à dose com que o faço e quanto aos seus resultados que produzo... abraço


sofocleto: a conversa está muito bem entregue e por isso também um obrigado a maria da conceição... para ela: beijo

Bastet disse...

Catalogar gestos em grandes e pequenos não é tarefa para quem está de fora e lhes observa apenas a visibilidade, é tarefa para quem os dá e recebe, e assim neles pode perceber a magnitude do esforço e do prazer, emprestado e sentido.

a-bordo disse...

bastet: verdade; e o que é grande ou o que é pequeno depende do que somos, do que fazemos, dos gestos que temos, e por isso, quando somos de um determinado modo coisas que antes nos pareciam pequenas tornam-se grandes e vice-versa... um beijo