(2) Tornai-vos dia claro
(3) Afastai-vos de mim.
(4) Ó sombras que bailais e anunciais alegria
30.11.05
29.11.05
28.11.05
Quando depois de julgarmos ter dito tudo, sentimos que algo fica por dizer, falta dizer: escutaste, escutou, escutaram-me.
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26.11.05
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
das palavras de Madre Teresa: «No es tanto lo que hacemos cuanto el amor que ponemos en lo que hacemos lo que agrada a Dios.»
Marcadores: poema
25.11.05
Maria Pia Oliveira MPO 067... Home # 1 2003... - Duratran and light box Edition of 3.. 52 x 76 cm
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21.11.05
posso convidar o meu pai e a minha mãe para um passeio no parque; se forem, óptimo; se não forem, bom, fica feito o convite.
Marcadores: ocupação dos dias
Marcadores: visual
18.11.05
gosto deste tipo de exemplos: «suponhamos que estímulos auditivos eram fornecidos ao córtex visual e estímulos visuais eram fornecidos ao córtex auditivo. Que aconteceria? Tanto quanto eu sei, ninguém alguma vez fez esta experiência (…) Embora esta hipótese seja especulativa, tem algum apoio independente se reflectirmos no facto de que um soco nos olhos produz um clarão visual («ver estrelas»), embora não seja um estímulo óptico.» (Searle, Mente, Cérebro e Ciência, edições setenta, 14)
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Comecei a ler. Assim, começa: «O jardim está perfeitamente sereno. Varro um pó colorido de restos de flores e folhas e coloco o silêncio num prato branco.» O livro de poemas de Cristina Tavares de 2005. Irei continuar o seu Trabalho de Jardim. Antes disso, obrigado ao ar líquido.
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16.11.05
O lavrador ouviu o seguinte: o que te dirá Deus não sei, o que te posso dizer é o seguinte: que mais podes fazer? – O lavrador queixava-se ao superior do mosteiro do único campo que tinha; que trabalhava, de manhã à noite, do pouco fruto que dava. O jovem professor ouviu o seguinte: não sei o que te dirá o director, o que te posso dizer é o seguinte: que mais podes fazer? – O jovem professor queixava-se… O empresário. A empregada de limpeza.
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15.11.05
14.11.05
12.11.05
No Hidden God de Lucien Goldmann, o trajecto que vai de Agostinho a Marx, o pensamento que dá conta da relação entre dois mundos, o que temos e o que deveria existir, é descrito em função da tentativa marxista de inscrever a utopia no mundo; a meio, tem um momento importante em Pascal, pois, Pascal aspira ao mesmo tempo a aceitar e a rejeitar o mundo, aspiração que pode talvez possa ser descrita como uma aspiração que coloca Deus fora do mundo e o mantém debaixo do Seu olhar.
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11.11.05
Se não sabemos o que vai ser, esperamos que seja alguma coisa. Isso faz toda a diferença. Carrega ou alivia a carga que carregamos.
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9.11.05
a eterna adolescência; sou muito experiente; é; exemplo, no sexo; no corpo; natação, corrida, levitação; gripes, insolações; substâncias; exemplo: cocaína, heroína; vodka e laranja; na alma, mais; necrofilia, chega; não, não chega; tiques que mostram o meu receio pelo dia seguinte; ideias, ideias, ideias; razões, razões, razões; gestos mágicos; por falar em máquinas; lavar a roupa, torradeiras; depois da Arménia, senti-me soldado; poupei na bolsa; jogaram por mim; li com conta; não conto os obstáculos que enfrentei; sou experiente; consciente de que não se afastou de mim o cheiro a leite.
Marcadores: ocupação dos dias
O Tim escreveu na terra: «Os acontecimentos em França interpelam-nos. O que se passa na cabeça daqueles milhares de jovens? O que se passou na sua vida até este momento?»
Eu escrevi: «Retrato de um crente que precisa de lições de triciclo.»
5.11.05
Alasdair MacIntyre, A short history of ethics – a history of moral philosophy from Homeric age to the twentieth century, Notre Dame, Indiana, 1998. Mais do que uma sucessão de autores e teorias morais, o que se pretende aqui é tentar articular autores e teorias em três momentos significativos: primeiro: na antiguidade, de Homero a Aristóteles, de Aristóteles aos autores do helenismo e aos da Idade Média; segundo: nos séculos que trazem para a ribalta o individualismo e que passa por autores como Maquiavel, Hobbes, Locke e Kant, e que deixa marcas em Kierkegaard, Hegel e Marx; no terceiro: na contemporaneidade marcada pelo emotivismo, pelo prescritivismo, e pela filosofia analítica. Em cada período tenta-se articular as teorias morais com o tempo, as sociedades, em que foram expostas. E ver como jogam. É conhecida a tese do autor que não há pensamento moral sem pensamento social. É conhecida a sua preocupação com o modo como vemos e vivemos a moralidade hoje. Por isso, fica aqui uma longa citação que tenta exemplificar e sintetizar o modo como o autor vê o estado de coisas em que encontra hoje a coisa moral:
«Discutindo a sociedade grega, eu sugeri o que pode acontecer quando uma forma de vida moral bem integrada quebra. Na nossa sociedade os ácidos do individualismo corroeram para o bem e para o mal durante quatro séculos as nossas estruturas morais. Agora, nós vivemos não só com uma mas com várias moralidades bem integradas. Com o aristotelismo, com a simplicidade do primitivo cristianismo, com a ética puritana, com a ética aristocrática da consumação, com as tradições da democracia e do socialismo que deixam marcas no nosso vocabulário moral. Através de cada uma destas moralidades existe proposto um fim ou fins, um conjunto de regras, uma lista de virtudes. Mas os fins, as regras e as virtudes diferem. Para o aristotelismo, vender tudo o que se tem e dá-lo aos pobres seria absurdo e fraco de espírito; para o primitivo cristianismo, o homem tem de passar pelo buraco da agulha que é a porta da entrada no Céu. Um conservador católico deve tratar a obediência à autoridade como uma virtude; um socialista democrático que siga Marx considera esta atitude como servilismo e vê nisso o pior dos vícios. Para o puritanismo, a frugalidade é uma virtude maior, para o aristocrata tradicional, a frugalidade é um vício; e assim por diante.
Disto se segue que podemos encontrar dois tipos de pessoa na nossa sociedade; aqueles que falam através de alguma destas moralidades que sobrevivem e aqueles que estão fora dela. Entre os que aderem a uma destas moralidades rivais e entre os aderentes de uma moralidade e os aderentes de nenhuma não existe um tribunal de apelo, nenhum padrão neutro e impessoal. Para os que falam através de uma dada moralidade, a conexão entre facto e valor é estabelecida em função do significado das palavras que usam. Para os que falam de fora, aqueles que falam de dentro aparecem como afirmando meramente expressões imperativas que expressam o seu próprio modo de ver e as suas escolhas privadas.» (266)
p.s. tradução livre.
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2.11.05
Tenho uma divergência com o coreógrafo. Não tem a ver com o facto de eu não saber dançar sem tropeçar. Nisso estou como os outros. Não. Tem a ver com o facto de após estas duas semanas, continuar parado. Agora, sem delongas, passo a explicar. Antes de fazer, como tenho feito, de cisne, no São João, estava em casa, a fazer o que sempre faço. A pensar no que poderia fazer, a pensar no que não faço. Não sofro muito. Sou felizmente uma criatura a quem foi concedido o dom de pensar pouco no que não faz e muito no que poderá fazer. É, não duvideis, grande medicina e melhor remédio. De outro modo, sofreria muito. Sofreria com a ignorância do que não sei. Sofreria com os esforços para adivinhar o que poderá ser. Ou, talvez pior, com as dores de saber que quando souber, o sonho poderá não ser realizado. Acontece. E a quem acontece, acontece sofrimento. Não sou desses. Quando não tenho consciência do que quero, algo vago me serve. Quando não o consigo encontrar, penso que se sempre encontrei, não vai ser agora que a regra se irá quebrar. E a isso me agarro. Todavia, não posso dizer que não me preocupe a distância entre o que poderei vir a ser e o que realmente faço. Tenho consciência do que quero e do que faço, preocupa-me a distância, e a distância dói-me. Mas a dor é curta e de pouca monta. De facto, quando me assombra a distância, fixo fixamente o horizonte. O que não acontece com o cisne. Não conheço o horizonte. Há-de vir, mas enquanto não vier, nada posso contrapor ao que me disse o coreógrafo. A nossa relação – que palavra feia – começou assim. Não é de agora. Há para aí alguns, não muitos, realizadores, encenadores e coreógrafos, que não gostam de profissionais. Dizem: os profissionais estão viciados, não conseguem espontaneidade. Afincam-se a isso, sofrem com isso, e procuram nos seus filmes, peças e bailados, pessoas como eu. Amadoras. Aqui, para abono da verdade, nenhuma poderá reclamar como eu tanta propriedade em tal estatuto. No casting, talvez tenha sido isso que jogou a meu favor. O coreógrafo – gostei do fato – não me deixou dar mais de quatro passos. Quero esse, disse. E fui seleccionado. Não me deu um papel principal. Nem um secundário. Deve ter pensado que eu merecia melhor: um papel especial. Era o lago dos cisnes. Por isso, deu-me o de cisne. Nos ensaios, tinha em tão grande conta a minha espontaneidade que nada me mandava fazer. Deixava-me deambular pelo palco, à vontade dos meus caprichos. Pedia apenas que não desse encontrões à canastrona da primeira bailarina. Assim fazia. Na estreia, enfiei o fatinho justo no rabo, pus as penas no pescoço, e marchei para o palco. Iria deslumbrar. Não tinha dúvidas. Já tinha deslumbrado um especialista. Todavia, não sei o que me deu, pois depois de entrar no palco, perante o balcão e a plateia, perante o teatro cheio, parei. E parado fiquei até ao final do espectáculo. Com o soar das palmas, fiquei na mesma. Não me aproximei para agradecer na boca de cena. Só me mexi, quando as cortinas foram definitivamente encerradas. Fomos até à Ribeira, a dar palmadas nas costas uns dos outros. Não foi, por isso, boa altura para conversa séria. Mas, eu precisava de a ter. No meio das cervejas, cheguei à fala com o coreógrafo. Que achas de eu ter ficado parado? – O que ouvi quase me tirava do sério. Era para ser surpresa. Mas não aguentava. Iria pôr o meu nome em primeiro plano no cartaz. Tinha dado ordens para que o novo cartaz começasse a ser feito amanhã. Que eu era, sem sombra de dúvida, um génio. Um génio da dança. Que poderia revolucioná-la. Que por favor, por favor, não me mexesse. Poderia ser equiparado ao negro sobre o negro da vanguarda. Para além dos minutos, poderia ser as horas de silêncio da minimal. Poderia ser o que Beckett não tivera coragem para fazer. Porra. Era demais. Era lisonjeiro. Agradável. Bonito. Mas não para mim. Eu quero mexer-me. Diga lá ele o que disser, só quando penso em mexer-me, fico feliz.
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1.11.05
FNV no Mar Salgado: «O luto pelos vivos é o mais livre do calendário, sabia-o bem a pobre Helvia. Todos os dias é feito, confesso que sobretudo num sorriso que se abre para mim: amanhã estarás cá?»
