ia, como prometido, falar sobre o silêncio; mas não sei se isto é isso; de qualquer modo é isto; usualmente, não dizemos tudo; por isso, precisamos de continuar a falar; para dentro, para fora; mas, se dissermos tudo, se não ficar uma vírgula por dizer, ainda assim podemos necessitar de dizer mais; o que é estranho; porque dissemos tudo; o que não pode ser; acontece então que dissemos quase tudo; o que é que nos faltou dizer?
28.10.05
27.10.05
«Ve el dolor y la maldad en el mundo; pero, lejos de comprender que ambas cosas no son sino los dos lados del fenómeno único de la voluntad de vivir, le parecen cosas contrarias y con frecuencia recurre a la malicia, es decir, trata de mortificar a los demás para librarse de los dolores y afecciones de su propia individualidad extraviado por los errores de la individuación y engañado por el velo de Maya.» - Arthur Schopenhauer na net e na malícia humana.
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25.10.05
Uma colher não. Era demais. Costumo, exagero, faço-o algumas vezes, levar à minha vizinha um pouco de limão, quando mo pede nas escadas. É curioso, pois tem sempre limão. Por vezes, andrajoso. Limão. Não sei porque mo pede. Não precisa do meu para nada. Nem de mim. Não fala comigo. Mas sorri sempre que me vê. Não mais, nas escadas. E os olhos são verdes. Esmeraldas. Não sei porque lho dou. Não gosto de a ver assim. Teve graça. Agora, definha. Não gosto de sentir que contribuo. Não contribuo. E contribuo. Tarde ou cedo, fina-se. Fica numa viagem. Madrid ou Londres. Tanto faz. Quando penso nisso, fico triste. Não gosto da ideia de a ver morrer longe. De não olhar a última vez a sua face. Se pudesse, não lho dava. Dava. Que posso fazer? – Sinto-me mal. Subo as escadas, abro a porta, desço, dou-lhe o limão, regresso até cima. Rigorosamente incompreensível. Sobretudo, a necessidade que tem de se sentar nas escadas, fora de casa, abaixo de casa. Podia estar lá dentro. Senta-se ali. Com um amigo.
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22.10.05
Foi muito mau. E se não fossem os sapatos tinha sido pior. Tínhamos ido visitar os tios dela, faziam vinte e cinco anos de casados, o clima era de festa, e a festa era solene. Tinham-nos concedido a honra de um quarto. Não podia comportar-me de modo impróprio. Por isso, aceitei. Com compreensão. Com resistência. Penso que ela esperava pior. No caminho para a herdade do Alentejo, fomos em silêncio. Ela estava um pouco tensa. Os tios receberam-nos à porta, olharam-nos com simpatia, mandaram um empregado levar as nossas malas para o quarto. Ela tomou banho primeiro. Eu tomei depois. E ali estava em cima da cama. Uma prenda para ti, disse. Não esperava aquilo. De algum modo, ela tinha razão. Não era dia para calças de ganga, casaco de couro, mesmo que calças e couro fossem acabados de comprar. Compreendi, repito, e não gostei. Como compreendi e aceitei que não me tivesse comprado os sapatos. Não é fácil comprar sapatos para os outros. É a história da gata borralheira. E a minha. Sempre que compro roupa para a minha amante, evito sempre duas coisas. A roupa interior por opção. Os sapatos por impossibilidade. Por isso, perante o ar malicioso dela, o orgulho no resultado, enfiei o fato azul, a gravata branca e a camisa da mesma cor. As minhas meias e os meus sapatos. Entretanto, os carros chegavam. A azáfama corria o resto da casa. Antes de sair do quarto, senti-me menos-mal. Havia ainda o contraste entre a armadura e os sapatos. Ao sair, na sala, no jantar, de copo na mão, até voltar para o quarto, senti-me péssimo. Senti-me sobretudo dos pés para cima. E sabia que poucos poderiam adivinhar quem eu era dos tornozelos para baixo. Por isso, mexi e remexi, vezes sem conta, os sapatos debaixo da mesa, levantei e baixei mil vezes os pés em frente do sofá. Contudo, nem o facto de não ter perdido por completo a minha identidade evitou que eu fosse brusco na recusa de cumprir na cama os deveres conjugais. Ela sim. Quebrou uma regra. E foi excepcionalmente tolerante.
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20.10.05
vocês conhecem a paisagem de fotografia; ou podem conhecer; as explicações geológicas, alguns; não todos; e todos com dificuldade; dois montes arredondados, um de cada lado, do monte maior, escarpado, erguido ao céu; o conjunto é motivo de risos; de espantos e contemplação, se o Inverno o enche de neve; contudo, penso eu, não deve ter sido o conjunto que impressionou o monge que chegado de terras distantes, instalou no monte maior um convento; mas a oportunidade de estar longe de todos; perto do céu; os aldeões das aldeias em volta, reza a lenda, ficaram espantados; é sabido, também deles, como os movimentos religiosos, coabitam mal com o sexo; e desde tempos imemoriais, diziam eles, ali estava o falo do mundo; por isso, chamavam ao monte maior, monte da pila erguida; é essa a história, essa lenda que agora leio; e um episódio em particular me faz matutar; desde que se iniciara a construção, os monges iam às aldeias em volta, com os seus burros, mendigar tigelas de sopa; um pequeno grupo descia, ia às aldeias, e regressava com a caridade dos aldeões; no entanto, aqui e ali, ficavam acabrunhados quando ouviam os aldeões mais atrevidos, “pois, sim, com gosto, ofereço a minha sopa para a pila erguida”; por vezes, regressados às pedras amontoadas para lapidar, faziam queixa das graçolas ao monge fundador; um dia, coube-lhe a vez; assim, desceu, à frente do pequeno grupo de monges; como não podia deixar de ser a sua figura impôs respeito aos aldeões; e dessa vez, não se ouviram as graçolas; contudo, um aldeão não resistiu: não te incomodam as piadas que fazemos; como poderiam incomodar, retorquiu; gosto que riam; solta-vos os nervos; mas, e perdoai a minha seriedade, gostaria que não vos fosse estranho o pensamento que há coisas mais importantes do que o que pensamos ou dizemos; que há importâncias mais importantes do que as importâncias que temos; se isto fosse um guião para uma curta, poria aqui o vento a soprar e a zumbir; e depois deixaria o silêncio ribombar pelos vales em redor; e acabaria com dois grandes planos; a face do aldeão iluminada pela pergunta: mesmo que o mosteiro caia; a face do monge passando da tristeza à alegria de partilhar uma mesma compreensão.
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17.10.05
Há noites destas. Blof, blof. O carro sem gasolina. No Porto. Disse-me ela, ao lado, estava o jardim de São Lázaro. Situação complicada. Precisávamos de um sítio para dormir. Não íamos ficar o resto da noite no carro. Eram três da manhã. Saímos para fumar um cigarro. Demos uns passos na rua. Chovia, regressamos ao carro. Não tens mais!? - Não tenho, disse-lhe. E tu!? – Também não. Dois cartões de crédito a zero. De manhã, podia telefonar para Lisboa, para ver se alguma alma caridosa seria capaz de depositar dinheiro na minha conta. Agora, não. Matavam-me. E tu!? – Não posso acordar os meus pais. Seria a morte certa. Era duro. Eu tinha vindo de Lisboa, ela viva aqui. Tinha acabado de conhecê-la. Mas isso pouco interessa. Foi, como sempre, longo e trivial. Embora, não pareça. Copos, sorrisos, conversa. O interessante veio depois. Ficámos no carro, em silêncio, sem saber o que pensar. Nem eu, nem ela. Ela a ver se eu tinha coragem. Eu a tentar decifrar que coragem seria a minha, se aceitasse usar o cartão Multibanco que o seu último namorado lhe tinha emprestado.
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15.10.05
um pensamento feliz recorda-me que continuarei a ver a tua face na eternidade.
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13.10.05
Estava de café e Porto, quando Barros Novais me perguntou: então e tu o que fazes!? – Havia algum travo de álcool, acidez em excesso, uma intimidade que me humilhou. Mais quando despachei: bom, neste momento, nada faço! – Ia para continuar, mas não o pude fazer. Naquele preciso momento, passaram para os charutos e para o sofá. Fiquei envergonhado. Arrogantemente envergonhado. O que tinha sido motivo de orgulho, agora, era motivo de vergonha. Tenho de perceber melhor como estas coisas funcionam. Como deixamos que se imponham. Mas uma coisa já sei: instalam-se como vírus e produzem doença. Permanecem idênticas nas mutações e adaptam-se às novas situações. Por exemplo, àquele jantar. Jantávamos: duas das eminências em biologia, Barros Novais, doutor, o doutor Fontes Carvalho; a esposa de Fontes Carvalho, o assistente de Barros Novais e a nova assistente de Fontes Carvalho. Corriam, na casa de Fontes Carvalho, ostras, limão, peixe grelhado, pato, vinho do Douro, e uma sobremesa esquisita. Nunca pensei sentar-me em tão magno repasto. E foi com dificuldade que aceitei o convite da minha amiga, a filha mais nova de Fontes Carvalho. Tinha ido ter com ela, de vespa, à chuva. Estava encharcado. Pediu: os pais queriam que ficasse e que não havia mal que eu ficasse também; se não me importasse, adiávamos o restaurante para outro dia; seduziu-me: estava lá Barros Novais, o nosso ídolo. Aceitei. Na casa de banho, passei o cabelo e a roupa pela toalha. Atravessei a largura da sala e sentei-me à ampla mesa. Mantive-me calado. Eles brincavam com as pequenas malandrices do meio. Eu quanto mais os ouvia, mais consciente ficava da distância que nos separava. Apenas queria poder continuar a fazer investigação em biologia. E tanto que tinha largado o ensino na esperança de uma bolsa que nunca mais vinha.
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11.10.05
7.10.05
tenho obrigação de o dizer, é da mais elementar justiça; o quê, fica para mim, como muitas vezes, fica dentro de vós, o que me leva a dizer que Deus existe.
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6.10.05
se o povo tiver razão, se Deus escreve direito por linhas tortas, porque nos afadigamos a procurar - e a escrever - linhas direitas?
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5.10.05
hei-de pensar no que acontece à minha vida quando se levanta a meu lado; quando a meu lado caminha; teimosa, metida consigo; como resmunga quando a chamo até mim; gosta de fazer de menina púdica, que não vai a ninguém, quando não pode negar o que tem de sórdida; hei-de pensar; como me resiste; mesmo quando não preciso dela.
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3.10.05
quando não pode deitar-se para fora, anda muitas, muitas, vezes, dentro; esse é, sem dúvida, um dos seus paradeiros habituais; quem? - a irritação.
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1.10.05
e perceber o que diz o que diz o meu amor por ti se esvai; talvez seja dizer que nunca amou; talvez seja dizer que não sabe como amar; talvez seja só um lamento; talvez por isso passe.
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