28 de dezembro de 2005

«O quadro traçado por Strawson contém uma interessante «mudança gestaltista». A princípio pode parecer que as atitudes morais associadas à censura seriam duras e desapiedadas; podemos ser tentados a pensar que seria uma melhoria significativa se preferíssemos atitudes mais liberais e compreensivas para com coisas como crimes e «comportamentos desviantes». Tratar as pessoas como pacientes, e não como criminosos, parece um passo numa direcção humanamente mais correcta. Strawson pede que nos confrontemos com o que se perde com esta alteração. E sugere que muito daquilo que faz das relações humanas algo de especificamente humano se perde. Suponhamos, por exemplo, que pretendo explicar a alguém as razões de ter adoptado um certo comportamento. Verifico, afinal, que as pessoas ouvem a minha história olhando-me de uma maneira que sugere que aquilo que estou a dizer é mais um sintoma. Tratar-se-ia apenas de um sinal de que necessito de ser conduzido ou cuidado ou curado ou educado. Fui, portanto, desumanizado. Quero que a minha decisão seja compreendida e não encarada com paternalismo. Quero que as outras pessoas «ouçam a minha voz», o que significa compreenderem o meu ponto de vista, verem de que modo as coisas se me apresentam e não interrogarem-me quanto às causas que conduziram um organismo a comportar-se deste modo.» Simon Blackburn, Pense, Gradiva, 116.

7 comentários:

Anónimo disse...

Fernando, mais uma vez, provocatoriamente: Ok. A Antónia matou o Manuel. O Manuel há cerca de dez anos que bate desesperadamente na Antónia sempre que bebe. Fá-lo com tudo o que tem à mão, uma caneta de tinta permanente, uma cadeira, a garrafa partida, o cinto. Não há como sair dessa história porque o Manuel bebe sempre. Todo o santo dia. Antónia foge, mas o Manuel sempre vai no seu encalço e acaba por a descobrir. Sempre o faz. Antónia exibe fundas as medalhas de todas as fugas, de todas as vezes que enjeitou ser batida. Um dia, Antónia vê o Manuel ao longe, bêbado, absolutamente bêbado, nem mais nem menos do que em outras alturas de que guarda as marcas. A Antónia olha-o quando bate à porta, a seguir esvazia uma caçadeira. O Manuel está morto. Desta vez não é ela que está no chão, a esvair-se em sangue. Não desta vez.
Agora, segundo o Blackburn, ficamo-nos em quê? A censura dura e desapiedada a Antónia ou a Antónia paciente? É claro que Antónia, se ainda consegue querer alguma coisa, quer que as outras pessoas ouçam a sua voz, que compreendam o seu ponto de vista, que vejam de que modo as coisas se lhe apresentam. Se ainda quer alguma coisa, se ainda lhe interessa o que outros possam pensar, quer que a sua decisão seja compreendida e não encarada com paternalismo. Antónia foi paciente, demasiado paciente, deu demasiadas vezes a outra face, como poucos, mas não é a paciente necessitando ser conduzida ou cuidada ou curada ou educada. Fica a censura dura e desapiedada? Talvez. Apedrejar Maria Madalena sempre tem a vantagem do catártico que nos irmana entre boas almas que sempre somos. É curioso como os mais crentes são não raro os mais lestos com as fundas e as tochas. Como já gritaram ‘fogueira’, agora gritam ‘justiça preventiva’ ou justiça tout court (a de quem?). Antónia não é a paciente a exorcizar pelos doutores, talvez apenas uma alma doída no chão (não doida, mas doída). Agora, interrogarem-se as causas que conduziram um organismo a comportar-se deste modo é paternalismo? Olho por olho… seja o que for o que o olho viu… A velha grande justiça. Se assim vai o bem o que esperar do mal?
Sem fazer outros paralelos, que poderiam decerto ser feitos, talvez, antes, houvesse que pensar até que ponto a deriva securitária que hoje nos atinge, que ameaça tornar-se o único valor, justificando o rasurar de todos os outros, não é a última melodia popular que todos assobiamos, uns mais ingenuamente, outros escorando a sua beleza nos mais desumanos argumentos. Mas, desumanos, inumanidade, são os outros. São sempre os outros.
Que me desculpes, mas se queres que leia de outro modo, há que escrevê-lo de outro modo.
C.

a-bordo disse...

C.
obrigado pelo comentário; acabei de o ler; depois, de meditar no que dizes, responderei... talvez leve algum tempo, vamos ver; abraço:)

a-bordo disse...

Um caso como é apresentado por ti pode constituir uma objecção ao que é apresentado por Blackburn. De facto, embora o que descrevas seja imaginário, situações como essas existem certamente. Quanto a isso e quanto ao facto de assinalarmos atenuantes para acções menos correctas, todos podemos estar em acordo. No entanto, o problema aparece na descriminação daquilo que pode constituir razão para atenuante. Por exemplo, a comum evocação da insanidade temporária deverá constituir motivo suficiente para justificar, por exemplo, o assassínio de um polícia só porque este se interpõe na fuga do presumível criminoso? – O que se joga nestes exemplos, no teu e no meu, é a dificuldade de encontrarmos o termo médio entre uma responsabilidade excessiva e uma desresponsabilização total, isto claro, partindo do suposto que não advogamos qualquer tipo de teoria de determinismo radical… abraço.

Anónimo disse...

Fernando, tens sem dúvida razão,trata-se, pelo menos em parte, da dificuldade de encontrar um termo médio entre uma responsabilidade excessiva e uma desresponsabilização total, mas essa dificuldade dificilmente terá uma solução, porventura felizmente. Não há método científico capaz de determinar a esfera do que se pode ter por razões atenuantes em cada caso. Há apenas o juízo e a lei. Ainda assim, se não temos um exacto termo médio, na realidade não temos outra coisa senão uma zona indeterminada de mediania entre um e o outro desses extremos absolutos e irreais. E é nessa zona que nos movemos, munidos apenas de símbolos (a começar pelo de Justiça!) e exemplos. Deste modo, parece-me difícil discriminar aquilo que pode constituir razão atenuante independentemente das situações concretas perante juízes concretos e de uma opinião pública; logo surgiriam contra-exemplos. No entanto, o problema não me parece ser o que assiná-las, mas outro, nomeadamente, que noção de justiça e de humanidade se perfila em Strawson, Blackburn ou outros.
O problema está numa redução de razões a causas. Ainda que nenhuma causa determine um assassino - na ausência do tal determinismo radical - haverá certamente boas razões que não são causas. Razões que ajudam a compreender certos comportamentos, no pressuposto de que o homem não nasça já bom ou mau, condenado ou salvo.
Ora, se alguém quer ser ouvido sobre um seu comportamento, como no exemplo de Blackburn, parte-se do princípio de que julga ter boas razões a dar, nunca causas (ninguém se vê a si próprio como determinado, salvo real patologia). Mas não é isso que Blackburn diz. Desumanizar é tornar alguém irresponsável, diz-nos, mas o que não é dito é que conhecer as boas razões não é conhecer causas, por isso mesmo se trata só de atenuantes e não de ilibações. O que está verdadeiramente em causa neste tipo de argumentação é aquilo mesmo que possa significar justiça e humanidade. A censura dura e desapiedada é ‘humanizada’ (afinal, ela até é responsabilizadora!) e é o ouvir o outro e ajuizar, a tarefa mesma do juiz, que é tido por transigência desresponsabilizante, e, atenção, algo que só pode ser insultuoso para o criminoso, assim reduzido a paciente. Supondo-se que são pessoas como eu aquelas que o reduzem a paciente, desumanizando-o, e pessoas como Blackburn as que lhe fazem justiça, humanizando-o, antes de lhe tirarem a cabeça; mesmo que para vestirem a pele de cordeiro, tenham de confundir boas razões e causas.
Trata-se exactamente do mesmo tipo de argumentação que justificou e justifica o eixo do mal: a solução para o problema passa pela eliminação do que faz (ou pode vir a fazer… ) problema. Não apenas o olho por olho, mas também o olho do outro antes que possa por em causa o meu olho. A segurança como valor único. É mais isto o que está em causa. E é a repetição assobiada desta melodia pergigosa que me choca, e ainda mais aqui.
Abraço e um bom ano para ti
C.

a-bordo disse...

tens de facto razão, de facto a grande questão é como se joga a reponsabilidade com a imagem que temos de justiça e de humanidade; questões que como é óbvio têm de ficar em aberto; é nessa abertura e nessa indecisão que habito, o que faz com que tenha de me manter atento ao que pode vir de posições como as tuas e daquelas que - fortes e talvez pouco afirmadas entre nós - aparecem pela pena dos autores em causa neste post.
abraço
bom novo ano para ti também

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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