2 de novembro de 2005

Tenho uma divergência com o coreógrafo. Eu explico. Antes de fazer, como faço, de cisne, no São João, estava em casa, a fazer o que gosto de fazer. A pensar no que poderia fazer. E sem sofrer. Sou uma criatura a quem foi concedido o dom de pensar pouco no que não faz ou que não fez e muito ou quase tudo no que poderá fazer. É, não duvideis, grande medicina e bom remédio. De outro modo, seria como vós um grande sofredor. E a isso me agarro. Ora é isso que o encenador está a pôr em causa.
Há para aí alguns, não muitos, realizadores, encenadores e coreógrafos, que não gostam de profissionais. Dizem: os profissionais estão viciados, não conseguem espontaneidade. Afincam-se a isso, sofrem com isso, e procuram nos seus filmes, peças e bailados, pessoas como eu. Amadoras. Aqui, em abono da verdade, nenhuma poderá reclamar como eu tanta propriedade em tal estatuto. No casting, talvez tenha sido isso que jogou a meu favor. O coreógrafo – gostei do fato – não me deixou dar mais de quatro passos. Quero esse, disse. E fui seleccionado. Não me deu um papel principal. Nem um secundário. Deve ter pensado que eu merecia melhor: um papel especial. Era o lago dos cisnes. Por isso, deu-me o de cisne. Nos ensaios, tinha em tão grande conta a minha espontaneidade que nada me mandava fazer. Deixava-me deambular pelo palco, à vontade dos meus caprichos. Pedia-me apenas que não desse muitos encontrões à canastrona da primeira bailarina. Assim fazia. Na estreia, enfiei o fatinho justo no rabo, pus as penas a cair do pescoço, e marchei para o palco. Iria deslumbrar. Não tinha dúvidas. Já tinha deslumbrado um especialista. Todavia, não sei o que me deu, pois depois de entrar no palco, perante o balcão e a plateia, perante o teatro cheio, parei. E parado fiquei até ao final do espectáculo. Com o soar das palmas, fiquei na mesma. Não me aproximei para agradecer na boca de cena. Só me mexi, quando as cortinas foram definitivamente encerradas. Fomos até à Ribeira, a dar palmadas nas costas uns dos outros. Não foi, por isso, boa altura para conversa séria. Mas, eu precisava de a ter. No meio das cervejas, cheguei à fala com o coreógrafo. Que achas de ter ficado parado? – O que ouvi quase me tirava do sério. Era para ser surpresa. Mas não aguentava. Iria pôr o meu nome em primeiro plano no cartaz. Tinha dado ordens para que o novo cartaz começasse a ser feito amanhã. Que eu era, sem sombra de dúvida, um génio. Um génio da dança. Que poderia revolucioná-la. Que por favor, por favor, não me mexesse. Poderia ser equiparado ao negro sobre o negro da vanguarda. Para além dos minutos, poderia ser as horas de silêncio da minimal. Poderia ser o que Beckett não tivera coragem para fazer. Porra. Era demais. Era lisonjeiro. Agradável. Bonito. Mas não para mim. Eu quero pensar que posso mexer-me. Diga lá ele o que disser, só se pensar que me posso mexer, me sinto feliz.

5 comentários:

Bastet disse...

:) adorei! Nada como as interpretações técnicas, doutas, cheias de inteligência, de profundidade e genialidade, sobre a aparente boçalidade... Espero bem que o cisne se mexa! Eh, eh, eh!!!!

a-bordo disse...

:) para ti, bastet!

ernesto esteves disse...

Olá,
Quero deixar-lhe aqui um convite: vá até ao meu blog e faça o seu comentário ;)

Roberto Iza Valdes disse...
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Anónimo disse...

Enjoyed a lot! » » »