5 de novembro de 2005

Alasdair MacIntyre, A short history of ethics – a history of moral philosophy from Homeric age to the twentieth century, Notre Dame, Indiana, 1998. Mais do que uma sucessão de autores e teorias morais, o que se pretende aqui é tentar articular autores e teorias em três momentos significativos: primeiro: na antiguidade, de Homero a Aristóteles, de Aristóteles aos autores do helenismo e aos da Idade Média; segundo: nos séculos que trazem para a ribalta o individualismo e que passa por autores como Maquiavel, Hobbes, Locke e Kant, e que deixa marcas em Kierkegaard, Hegel e Marx; no terceiro: na contemporaneidade marcada pelo emotivismo, pelo prescritivismo, e pela filosofia analítica. Em cada período tenta-se articular as teorias morais com o tempo, as sociedades, em que foram expostas. E ver como jogam. É conhecida a tese do autor que não há pensamento moral sem pensamento social. É conhecida a sua preocupação com o modo como vemos e vivemos a moralidade hoje. Por isso, fica aqui uma longa citação que tenta exemplificar e sintetizar o modo como o autor vê o estado de coisas em que encontra hoje a coisa moral:
«Discutindo a sociedade grega, eu sugeri o que pode acontecer quando uma forma de vida moral bem integrada quebra. Na nossa sociedade os ácidos do individualismo corroeram para o bem e para o mal durante quatro séculos as nossas estruturas morais. Agora, nós vivemos não só com uma mas com várias moralidades bem integradas. Com o aristotelismo, com a simplicidade do primitivo cristianismo, com a ética puritana, com a ética aristocrática da consumação, com as tradições da democracia e do socialismo que deixam marcas no nosso vocabulário moral. Através de cada uma destas moralidades existe proposto um fim ou fins, um conjunto de regras, uma lista de virtudes. Mas os fins, as regras e as virtudes diferem. Para o aristotelismo, vender tudo o que se tem e dá-lo aos pobres seria absurdo e fraco de espírito; para o primitivo cristianismo, o homem tem de passar pelo buraco da agulha que é a porta da entrada no Céu. Um conservador católico deve tratar a obediência à autoridade como uma virtude; um socialista democrático que siga Marx considera esta atitude como servilismo e vê nisso o pior dos vícios. Para o puritanismo, a frugalidade é uma virtude maior, para o aristocrata tradicional, a frugalidade é um vício; e assim por diante.
Disto se segue que podemos encontrar dois tipos de pessoa na nossa sociedade; aqueles que falam através de alguma destas moralidades que sobrevivem e aqueles que estão fora dela. Entre os que aderem a uma destas moralidades rivais e entre os aderentes de uma moralidade e os aderentes de nenhuma não existe um tribunal de apelo, nenhum padrão neutro e impessoal. Para os que falam através de uma dada moralidade, a conexão entre facto e valor é estabelecida em função do significado das palavras que usam. Para os que falam de fora, aqueles que falam de dentro aparecem como afirmando meramente expressões imperativas que expressam o seu próprio modo de ver e as suas escolhas privadas.» (266)

p.s. tradução livre.

5 comentários:

cbs disse...

Dizia Kant que o Direito (denominador comum das Morais?) é a determinação das condições que permitem à liberdade de cada um coexistir e harmonizar-se com a liberdade de todos.

Um balanço entre exigencia (mais comigo) e tolerancia (mais com o outro), ajudaria muito a vivermos todos em conjunto.

a-bordo disse...

cbs: o problema está de facto em encontrar um modo de pensar a diversidade que está em cima do tabuleiro, sobretudo quando essa diversidade obriga a escolhas que entram em choque e em rivalidade umas com as outras; o problema está em que é frequente que aquilo que queremos fazer com a nossa liberdade entra em choque com a liberdade dos outros... se quiseres e sem entrar em rivalidades filosóficas - mac opõe-se por exemplo fortemente a kant - a questão é a seguinte: dando por suposto que aquilo que Kant diz é correcto como se faz?... um abraço na perplexidade, fernando.

Joao Galamba disse...

caro,

ja que fala de MacIntyre, deixe-me que lhe sugira um livro que considero uma obra prima da filosofia moral contemporanea. O Sources of the Self do Charles Taylor. Ele tem uma perspectiva diferente da de MacIntyre, embora sejam dois neo-aristotelicos. Usando o conceito de self-interpretating beings que ele retira de Heidegger, Taylor articula uma narrativa historica da evolucao de concepcoes do sujeito desde Platao aos pos-modernistas, passando pela arte, politica, religiao (com particular enfoque para a reforma e o puritanismo). O que e interessante e que a narrativa dele nunca abandona totalmente uma perspectiva religiosa. Taylor e um catolico canadiano que tambem escreveu, entre outros, A Catholic Modernity (que ainda nao li) ele e um pluralista e o Sources of the Self , embora um pouco grande de mais, e absolutamente imperdivel.

Cumprimentos,
Joao Galamba

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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