20 de outubro de 2005

vocês conhecem a paisagem de fotografia; ou podem conhecer; as explicações geológicas, alguns; não todos; e todos com dificuldade; dois montes arredondados, um de cada lado, do monte maior, escarpado, erguido ao céu; o conjunto é motivo de risos; de espantos e contemplação, se o Inverno o enche de neve; contudo, penso eu, não deve ter sido o conjunto que impressionou o monge que chegado de terras distantes, instalou no monte maior um convento; mas a oportunidade de estar longe de todos; perto do céu; os aldeões das aldeias em volta, reza a lenda, ficaram espantados; é sabido, também deles, como os movimentos religiosos, coabitam mal com o sexo; e desde tempos imemoriais, diziam eles, ali estava o falo do mundo; por isso, chamavam ao monte maior, monte da pila erguida; é essa a história, essa lenda que agora leio; e um episódio em particular me faz matutar; desde que se iniciara a construção, os monges iam às aldeias em volta, com os seus burros, mendigar tigelas de sopa; um pequeno grupo descia, ia às aldeias, e regressava com a caridade dos aldeões; no entanto, aqui e ali, ficavam acabrunhados quando ouviam os aldeões mais atrevidos, “pois, sim, com gosto, ofereço a minha sopa para a pila erguida”; por vezes, regressados às pedras amontoadas para lapidar, faziam queixa das graçolas ao monge fundador; um dia, coube-lhe a vez; assim, desceu, à frente do pequeno grupo de monges; como não podia deixar de ser a sua figura impôs respeito aos aldeões; e dessa vez, não se ouviram as graçolas; contudo, um aldeão não resistiu: não te incomodam as piadas que fazemos; como poderiam incomodar, retorquiu; gosto que riam; solta-vos os nervos; mas, e perdoai a minha seriedade, gostaria que não vos fosse estranho o pensamento que há coisas mais importantes do que o que pensamos ou dizemos; que há importâncias mais importantes do que as importâncias que temos; se isto fosse um guião para uma curta, poria aqui o vento a soprar e a zumbir; e depois deixaria o silêncio ribombar pelos vales em redor; e acabaria com dois grandes planos; a face do aldeão iluminada pela pergunta: mesmo que o mosteiro caia; a face do monge passando da tristeza à alegria de partilhar uma mesma compreensão.

4 comentários:

Bastet disse...

Mais um magnífico texto "o monge do monte do falo" (perdoa-me a liberdade) na cumplicidade do entendimento da relatividade da importância das coisas.

a-bordo disse...

bastet, não diria melhor; acrescentaria duas coisas: a nossa tendência para a idolatria, para criarmos ídolos "positivos" e "negativos" e a nossa tendência para o esquecimento do que é verdadeiramente importante... beijos

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

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