22 de outubro de 2005

Foi muito mau. E se não fossem os sapatos tinha sido pior. Tínhamos ido visitar os tios dela, faziam vinte e cinco anos de casados, o clima era de festa, e a festa era solene. Tinham-nos concedido a honra de um quarto. Não podia comportar-me de modo impróprio. Por isso, aceitei. Com compreensão. Com resistência. Penso que ela esperava pior. No caminho para a herdade do Alentejo, fomos em silêncio. Ela estava um pouco tensa. Os tios receberam-nos à porta, olharam-nos com simpatia, mandaram um empregado levar as nossas malas para o quarto. Ela tomou banho primeiro. Eu tomei depois. E ali estava em cima da cama. Uma prenda para ti, disse. Não esperava aquilo. De algum modo, ela tinha razão. Não era dia para calças de ganga, casaco de couro, mesmo que calças e couro fossem acabados de comprar. Compreendi, repito, e não gostei. Como compreendi e aceitei que não me tivesse comprado os sapatos. Não é fácil comprar sapatos para os outros. É a história da gata borralheira. E a minha. Sempre que compro roupa para a minha amante, evito sempre duas coisas. A roupa interior por opção. Os sapatos por impossibilidade. Por isso, perante o ar malicioso dela, o orgulho no resultado, enfiei o fato azul, a gravata branca e a camisa da mesma cor. As minhas meias e os meus sapatos. Entretanto, os carros chegavam. A azáfama corria o resto da casa. Antes de sair do quarto, senti-me menos-mal. Havia ainda o contraste entre a armadura e os sapatos. Ao sair, na sala, no jantar, de copo na mão, até voltar para o quarto, senti-me péssimo. Senti-me sobretudo dos pés para cima. E sabia que poucos poderiam adivinhar quem eu era dos tornozelos para baixo. Por isso, mexi e remexi, vezes sem conta, os sapatos debaixo da mesa, levantei e baixei mil vezes os pés em frente do sofá. Contudo, nem o facto de não ter perdido por completo a minha identidade evitou que eu fosse brusco na recusa de cumprir na cama os deveres conjugais. Ela sim. Quebrou uma regra. E foi excepcionalmente tolerante.

4 comentários:

MRF disse...

estas cedências são tramadas :))

Bastet disse...

E quem é que ela queria na cama, o tipo dos sapatos ou o "gajo" de fato? :)

a-bordo disse...

mrf, pois são :):)
bastet: como é tipico nestes e noutros casos penso que os dois :) :)

Anónimo disse...

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