13 de outubro de 2005

Estava de café e Porto, quando Barros Novais me perguntou: então e tu o que fazes!? – Havia algum travo de álcool, acidez em excesso, uma intimidade que me humilhou. Mais quando despachei: bom, neste momento, nada faço! – Ia para continuar, mas não o pude fazer. Naquele preciso momento, passaram para os charutos e para o sofá. Fiquei envergonhado. Arrogantemente envergonhado. O que tinha sido motivo de orgulho, agora, era motivo de vergonha. Tenho de perceber melhor como estas coisas funcionam. Como deixamos que se imponham. Mas uma coisa já sei: instalam-se como vírus e produzem doença. Permanecem idênticas nas mutações e adaptam-se às novas situações. Por exemplo, àquele jantar. Jantávamos: duas das eminências em biologia, Barros Novais, doutor, o doutor Fontes Carvalho; a esposa de Fontes Carvalho, o assistente de Barros Novais e a nova assistente de Fontes Carvalho. Corriam, na casa de Fontes Carvalho, ostras, limão, peixe grelhado, pato, vinho do Douro, e uma sobremesa esquisita. Nunca pensei sentar-me em tão magno repasto. E foi com dificuldade que aceitei o convite da minha amiga, a filha mais nova de Fontes Carvalho. Tinha ido ter com ela, de vespa, à chuva. Estava encharcado. Pediu: os pais queriam que ficasse e que não havia mal que eu ficasse também; se não me importasse, adiávamos o restaurante para outro dia; seduziu-me: estava lá Barros Novais, o nosso ídolo. Aceitei. Na casa de banho, passei o cabelo e a roupa pela toalha. Atravessei a largura da sala e sentei-me à ampla mesa. Mantive-me calado. Eles brincavam com as pequenas malandrices do meio. Eu quanto mais os ouvia, mais consciente ficava da distância que nos separava. Apenas queria poder continuar a fazer investigação em biologia. E tanto que tinha largado o ensino na esperança de uma bolsa que nunca mais vinha.

5 comentários:

dhuoda disse...

Conheço esses jantares, essas arrogâncias,esses ares enfatuados, a forma displicente como sabem fazer-nos sentir um nada, apesar de lucidamente sabermos que eles não são mais do que uns hipócritas que bajulam e lambuzam os chefes, os directores,os senhores
professores doutores, os
banqueiros,etc. Não os respeitam. Invejam-nos. E querem
desesperadamente subir o mais alto possível.
Há muitos anos atrás sentia vómitos só de ser convidada.Hoje só vou onde quero ir.E foi sempre a minha liberdade que nunca me deixou misturar com eles.Belo real ficçionado!

Bastet disse...

Transportaste-me para a cena. Fiquei sentada a vê-la e a senti-la de tão realista. Está soberba a descrição da alteração progressiva das sensações e dos pensamentos do "herói", a vergonha e o desprezo simultâneos. Um romance impõe-se. O meu quero-o autografado sobre a mesa do café :)

a-bordo disse...

dhuoda: grato pelo testemunho e sim o que se joga é o que fazemos com a liberdade.

bastet: por vezes a nossa realidade é demasiado cheia destes espinhos e menos o perfume das rosas...

alfabeto disse...

Óptimo na verdade e na escrita. Mas nem todos serão assim, mesmo gostando de ostras.

a-bordo disse...

ar: é verdade; uma das maiores doenças mentais - minha também - é a generalização.