21 de julho de 2005

Um gajo tem de ganhar a vida. Há para aí uma quantidade enorme que não tem nada para fazer. Fica em casa e por melhor que seja, ninguém lhe dá trabalho. Há gente a mais, é o que é. Já se foi o tempo em que podíamos escolher. Mesmo quando isso tinha o seu preço. Porém, quando muito, as actrizes levavam na pita. Depois, lá vinham uns papéis decentes. Agora, só nos sai disto. O que explica porque andei, faca na mão, na Marechal, autêntico palhaço, cara pintada de roxo, olhos carregados de vermelho, num enredo, como chamá-lo!? – A ideia foi fazer terror. Português. Na reunião no café da Praça do Império, o realizador explicou: há poucos. São precisos mais. Como se pode perceber, é um indivíduo empreendedor. E deu-me dinheiro a ganhar. Mas foi isso, só isso, sublinho, que me levou a entrar na maquinaria da morte. O filme começa com a reunião dos ricos da Gomes da Costa, no pequeno jardim que existe em frente das bombas de gasolina, antes da Marechal entrar na Boavista. Uma reunião americana. Os senhores e as senhoras estão sentados na relva em cadeiras de praia. Uma bela quarentona, saia e casaco azul, loura e platinada, discursa em cima do estrado. Não se ouve o que diz, pois o que diz está coberto por acordes nervosos de violino. No fundo do estrado, há um painel onde se pode ler: um novo monumento é um novo caminho para a felicidade. Entretanto, o guru passa na sua carrinha quatro éle. Pára o veículo. O que vê? – A oradora a apontar para o embrulho e a assistência a aplaudir em pé. Não é para menos. Penso que o realizador insinua qualquer coisa do género: o que obelisco não pode, podem os anjos. O monumento, o obelisco aos empresários, está coberto à Christo e tem um anjo estampado. Isso deixa o guru indignado. Ouve-se. Vocifera: há que chaciná-los. É o título do filme. Deduzo eu, mas tenho de vos fornecer mais dados. Antigamente, os marginais de diversa proveniência costumavam reunir-se em frente ao cat, centro de apoio à toxicodependência, que existe por perto. Agora, reúnem-se neste jardim. Bebem cerveja e trocam impressões. Civilizadamente, diga-se de passagem, e coisa só vista nas melhores cidades da Alemanha. A água que cai no obelisco, sossega-os. Por isso, raramente incomodam os transeuntes que passam de carro ou a pé. Entretanto, depois do guru ter dito o que disse, o filme dá um salto. Tipo Nova Iorque fora de horas, segue nove moços em momentos significativos do quotidiano. Todos estudam na Católica. Vemos sair um, depois outro, depois outro. Num grande plano sobre as fitas das capas, identificamos o que estudam. Dois são de Direito. Três de Teologia. Quatro de Artes. A seguir, somos confrontados com os efeitos dos seus desejos. Vemos as caras dos de Direito, num toque de cinema russo, de Ivan, de terrível, a esganarem longas masturbações. Os teológicos a arrancarem páginas à dentada, punho no ar, em quartos decorados com fotos de Estaline. O primeiro artístico a dar um acorde e a destruir a guitarra eléctrica. Outro a deitar fogo aos quadros. A mim – um poeta – a olhar bisonhamente o bairro da Pasteleira. O último, de vocação indistinta, sentado com a cabeça enfiada entre as mãos. O filme dá novo salto. Estamos numa sessão de esclarecimento. No seu quarto, o guru está em contra-luz, perto da janela, e nós espalhados pelo chão. Diz que faz falta ao mundo mais sexo, mais ignorância, mais fama. Pergunta o que achamos. Os das gajas dizem que está bem, que ficam com elas. Os teológicos que está mal, que nada aprendem em latim. Os artistas respondem com o conhecido «porque não?» – O guru adverte: é preciso dar cabo da cabeça da hidra. Dos poderosos, dos ricos. Dos responsáveis pelo mal que andam a colocar Christos entre a Marechal e a Boavista. É mau exemplo. O orçamento não dá para mais. Na cena seguinte, numa sala sombria, na poeira, – no ritual que despoleta a chacina –, um zoom sobre o símbolo satânico leva-o a invadir a tela. A câmara salta, pica a cabra, e afasta-se rapidamente para fazer uma fotografia de família. Os dez em redor do círculo. Nove com a cabeça enfiada em capuzes de serapilheira negra. O guru, a meu lado, numa túnica de cetim amarelo… Algaravia, mas percebe-se: «é dia, é dia!» – Damos urros em estilo gregoriano. Estamos contentes. A rodagem está a meio. E o filme inova. Não começa à noite. Entro em acção às cinco da tarde. Subo a Marechal, toco à campainha, degolo a empregada. Avio a família: o pai, a mãe, as duas filhas, os dois avós, o cão e o periquito. Mal acabo, entra em cena um sexual. Depois, um teológico. E assim, sucessivamente. Cada um com a sua arma: um machado, uma pistola de Carnaval com ácido, um agrafador industrial, um macaco assassino, a incontornável moto serra, um simples calhau, um implante dentário afiado. Até que chega a vez do último artista, o jovem de vocação indistinta. É ele quem tem a responsabilidade de executar o gesto simbólico final. Uma rajada de metralhadora corta os baraços que seguram o plástico. Depois, quando a ventoinha põe o anjo cravejado no ar, o jovem continua a disparar sobre o obelisco. Dispara. Dispara. Dispara. A câmara recua. O jovem fica mais e mais distante e quase desaparece. Felizmente, por sintonia, a ficha técnica é pouco clara. As letras não têm o tamanho necessário para que qualquer um de nós possa ler aí o seu nome.

5 comentários:

Bastet disse...

Li, reli. Está estuporadamente envolvente, surpreendente, enigmático. Não aspiro a percebê-lo por inteiro. Pelo menos para já. Mas quero vir a pedir explicações. Agosto está à porta. :)

MC disse...

Fernando, desta desgraceira toda-calor, fogos, política-salvam-nos as tuas histórias.

Bagaço Amarelo disse...

obrigado pelo voto suspeito. Um gajo tem de ganhar a vida...

a-bordo disse...

bastet: nem eu percebo muito bem; há demasiados deslizes semânticos; um beijo para ti

maria conceição: e também o jardim que abriu na esfera blog

bagaço amarelo: é verdade, é verdade...

Anónimo disse...

Cool blog, interesting information... Keep it UP » »