3 de julho de 2005

O meu patrão tem cara de cavalo, usa uma gravata vermelha, e tem preferência por fatos azuis. Os bicos das camisas estendem-se até ao peito. Não sei quais são os modelos. Nem onde é que ele os vai buscar. Mas, é um bom patrão. O modo como veste, não viria até aqui, não fosse tão contrastante com o ar moderno da filha. Dos novos que compõem a administração central, sou certamente um dos seus preferidos. Trouxe-me da comercialização de rações. É frequente convidar-me para acompanhá-lo ao pub irlandês da Avenida Brasil. Não sei como são as suas convivências. Comigo, fala pouco. Bebe e fica calado. Mas, sinto que fica bem ao pé de mim. A filha, única herdeira, rica, jovem, etecétera, etecétera, nunca me ligou nenhuma. Estou há três anos na Rua da Restauração, entra e sai, e nunca soube ao que vem, nem ao que veio. Boa tarde, bom dia, foi tudo o que lhe ouvi. Não nego: de longe já lhe espreitei as coxas, perto já dei ao decote as minhas esguelhas. Mas só. E sempre com máximo respeito. Não quero descer para burro, estou contente com a minha ração. A minha mãe, o meu pai, os meus familiares em geral, na província, nunca imaginaram, na pacata vida que levam, que eu fosse saltar para este poleiro. Por isso, todos os cuidados são poucos. Hoje, no entanto, não soube o que fazer. Manuela entrou no gabinete. Sentou-se à minha frente e bateu as pestanas. Se não queria ir beber um copo com ela. A menina sabe. Manuela, por favor, Manuela. A Manuela. Bem, se não quer. Não que não. Então. Acabamos por combinar para depois do jantar. Números de telemóvel e tudo. É sabido, estas coisas sabem-se, o patrão não gosta da vida que faz. Puro lusitano. Trabalho de dia, descanso à noite. Mas, ela não parece estar pelos ajustes. Eu, para ser sincero, ando pelo patrão. Não que seja retrógrado. Gosto da minha diversão, mas não durante a semana. Mas não fui capaz de resistir a uma miúda rica, loura, inteligente, mesmo se não soube, nem sei de onde vem o seu interesse por mim.

8 comentários:

dhuoda disse...

O interesse da menina loura e rica, por ti, vem, tão somente, da tua aparente indiferênça, consequência do teu esforço para manteres o empreguito.Mas acho que vale a pena arriscar,sempre ficas com um cargo mais importante no emprego e com a filha do patrão. A família lá na terra ia gostar.E, já agora, convida-me para o casório,não vá a pequena ter um irmão giro e inteligente, até pode ser careca.Beijinhos.

a-bordo disse...

olá dhuoda; é uma hipótese a ter em consideração; um beijo também para ti.

Anónimo disse...

O interesse vem só do facto, de a Manuela ter posto umas extensões nas pestanas, e quer ver o efeito que o seu novo bater das ditas, provoca.
Começa pelo meu amigo, segue-se o personal trainer, a seguir o monitor da piscina, o segurança do centro comercial, et., etc...
Eu não quero tirar as ilusões a ninguém, mas sobre este assunto não tenho dúvidas nenhumas.
A família que fique descansada, que não tem de tirar as roupas da naftalina.

M. Conceicao

a-bordo disse...

Obrigado, Maria da Conceição, sempre fica por aqui a tripulação mais sossegada. E já agora: parabéns pelo texto na terra.

LusoFin_oBlog disse...

Eu teria mais cuidado com as referências, Restauração, filha do patrão, Manuela, não é dificil ligar cpom o resto do blogue ;) talvez seja paranoico..

Eu não alimentaria ilusões (ou antes já as teria todas antes disso..)

a-bordo disse...

Um abraço, aí para o frio, homem das neves.

a-bordo disse...

homem das neves, acrescento apenas que o que por aqui se passa se não é a mais pura das ficções, é apenas porque estas nunca o são; ainda assim, tento. outro abraço.

Anónimo disse...

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