6 de julho de 2005

Não vou fazer o exercício literário, «calei-me durante este tempo todo», e não sei quê, não sei quê, mas, só hoje o revelo. Não vou tentar fazer-vos crer que, entretanto, algo muito forte me impediu de o contar. Não é verdade. Já o contei. Posso contá-lo. Ainda me assusto e já assustei outras almas com esta história. Claro que demorou algum tempo, antes que pudesse contar algo de jeito. Não que fosse difícil narrar os acontecimentos. Pelo contrário. Mas, foi preciso tempo para acreditar que fossem assim… Um amigo meu tem uma quinta na Régua e a sua amizade leva-me algumas vezes a subir o rio Douro. Não recordo porquê, já passaram dez anos, era Julho, e ele tinha ido a um lado qualquer, Vila Real ou Lamego. Estava sozinho, não tinha nada para fazer e resolvi dar um passeio de mota. Levava uns calções por baixo das calças, para poder dar um mergulho no rio. Tomei a direcção do Porto. A mota era dele, uma Yamaha três e meio, uma trail refrigerada a ar. Quem tem uma mota daquelas, sabe que o motor torra os pêlos das pernas, mesmo se forem penugem. Por isso, quilómetros abaixo, vendo um areal, parei para me refrescar. Saí da estrada, rocei um pouco a pintura nas silvas, e depois de alguns solavancos, saboreei o prazer de abanar o assento, com dois ou três oitos no areal. Não dava para mais. Não me despi e devo ter acendido um cigarro, porque não foi logo. Todavia, não demorou. Eu estava sentado, quando um jovem passou ao meu lado, atravessou o areal e mergulhou no rio. Como nada tinha para fazer, fiquei a observá-lo. Vi-o nadar e afastar-se lentamente. No meio do rio, voltou para trás. Entretanto, perto do areal, deu uma guinada e começou a nadar para o outro lado. Nadou, desta vez, com grande rapidez e passou o meio do rio. Depois, abrandou, e foi com lentidão para a outra margem. A poucos metros da margem, deu uma nova guinada e voltou a nadar de modo acelerado. Depois, começou a repetir os movimentos. Para lá e para cá. Devagar e depressa. E assim se manteve, não sei por quanto tempo. Comecei a ficar preocupado. Notei que começava a ficar muito cansado. A certa altura, ele fez uma coisa esquisita: depois de desviar o olhar do local onde eu me encontrava, perscrutou com sofreguidão o areal. O que procurava!? – Na segunda vez que o fez, ultrapassei o medo de vê-lo olhar para trás, e quando o vi de costas, levantei-me e olhei em volta. Não vi nada, nem ninguém. Durante algum tempo, não o voltou a fazer. E eu fiquei pura e simplesmente hipnotizado a vê-lo nadar. Até que acabou por acontecer. Alguma cãibra, alguma coisa. Ou, talvez, não. Parou. Nadava, e depois de procurar no areal, não sei se foi assim ou se sou eu que invento, mostrou um sinal de desânimo. Um pouco para lá do meio do rio, começou a esbracejar. Esbracejava em câmara lenta. Ia ao fundo, voltava, levantava a cabeça, batia na água. Sem força, nem violência. Chapinava. Não tive tempo para decifrar o que aquilo queria dizer. Nem tempo para poder confirmar alguma pior conjectura. Vinda, não sei de onde, a jovem correu pelo areal, entrou no rio e em braçadas ansiosas encaminhou-se para ele. Olhei um e outro. Ela nadava com crescente ansiedade. Ele quando voltava à superfície, não batia os braços. Olhava-a. E voltava a afundar. Fui burro. Devia ter feito mais qualquer coisa. E fiz. Só que já era tarde. Não sei toda a história, mas para que possais saber o que sei, sempre vos digo que quando encontrei os pais de um e do outro, ambos foram sinceramente simpáticos comigo e tudo fizeram para me aliviar. De qualquer modo, castigo-me à mesma. Deve ser raro o mês em que não me vejo num sonho, a tirar o raio das botas, a descolar o couro das calças, a amaldiçoar o estupor das fivelas, a tirar a camisa, a entrar na água, a demorar por causa da merda das meias, e a vê-lo ao longe, a deixá-la aproximar, a aprisioná-la com os braços e depois mergulhar.

11 comentários:

Bastet disse...

O perdão não é só para os outros é fundamental saber exercê-lo em nós, para connosco próprios. Um beijo.

Anónimo disse...

Uauuu! Adorei!
Claro que há sempre, fivelas, meias, sapatos, calças...tanta coisa que nos impede de ser.
Livramo-nos de umas e logo aparecem outras. Temos de aprender a viver com isso e ao mesmo tempo irmo-nos livrando delas. É tarefa que nunca está terminada, por isso não há lugar para o desespero, mas sim, para a confiança.

Cada vez, sabe melhor vir a bordo.
M. Conceicao

Anónimo disse...

muito bom.
CM

timshel disse...

gostei do post obviamente

o comentário da M. Conceição é, no entanto, simplesmente espantoso: muito bom, muito bom mesmo

julgo que vai ecoar na minha cabeça pelos dias mais próximos

é uma espécie de oração

Anónimo disse...

Timshel, não o tinha pensado como oração, mas tens razão; é este o mistério da nossa vida.
Mas os louros vão todos para o Fernando, que nos encantou com esta bela metáfora. Dava um belo texto para a Terra da Alegria.
M. Conceicao

a-bordo disse...

olá bastet, m. conceição, cm, e tim, desculpem algum tardar de feed back, mas ao contrário do que é costume tenho andado pouco por aqui; quanto ao perdão e à função motivadora da esperança, fico contente por essas noções serem aplicadas ao pequeno conto; porque essas noções não são habitualmente aplicadas para ler; porque são boas noções para aplicar; e porque quando aplicadas podem acontecer duas coisas: uma que mostra que com isso não se tem um unanimismo de interpretação, por exemplo, eu nunca pensaria aplicá-las aqui, embora reconheça a sua pertinência, e por isso, podemos dizer que com elas não ficamos menos modernos; a segunda, que ficamos mais ricos quando as aplicamos; eu por exemplo, reavivei a riqueza de pessar a dificuldade de pensar o auto - perdão e a evidência da necessidade do trabalho perpétuo. abraços a todos.

Anónimo disse...

Gostei bastante da forma da narrativa, da forma como a atenção foi captada do princípio ao fim do texto.
Fazes-me lembrar alguém, um escritot que li há pouco e q admiro. Não me lembro, mas é.me familiar...

Anónimo disse...

sou eu a anónima, a vague :)

a-bordo disse...

Olá vague: a vaga de calor, de mar, também, graças a Deus, e a vaga de festas infantis que nesta altura do ano aparecem por aqui, têm-me afastado do blog. Por isso, os agradecimentos tardios.

a-bordo disse...

Ah: e se algum dia te lembrares do autor, p.f., diz-me.

vague disse...

Se eu me lembrar digo-te, claro. É uma determinada sennsibilidade q me lembra alguém q gosto muito de ler. Não era para ser elogio, mas toma à conta disso, pq considero uma honra para alguém q não é conhecido(?) ser comparado a um dos grandes.
Vou ler mais textos teus para apanhar o fio condutor, a pista, a alma das tuas palavras.
A Bastet bem me dizia que tinhas uma escrita muito bela.

Bom dia :)