9 de julho de 2005

Não estão a ver, mas a estrada vem a descer, passa por aqui, quarenta metros abaixo, é plana, sobe, íngreme, depois, sei lá, cem metros, vira à direita e desaparece no monte. Costumo sentar-me, nesta mesa, a ler o jornal, a corrigir os trabalhos dos alunos, sobretudo, quando faz sol. Não passam muitos carros. À semana, ao fim de semana, um pouco mais. Jipes, nem por isso. Às vezes, durante o ano, surgem, no entanto, algumas caravanas de todo o terreno. Mas nunca vi deles fazer o que ele fez. Vi-o, passar, jipe branco, descer, depois, subir e parar. Pareceu-me reconhecer o carro. Fez uma coisa estranha. Ficou ali, sei lá, dez minutos, no meio da estrada. Fiquei a olhar para ele. A certa altura, não sei o que lhe deu, arrancou e guinou para a esquerda, e, aos solavancos, começou, lentamente, a subir o monte. Nunca tinha visto ninguém fazer aquilo. E era algo de manifesto mau senso. Mesmo com o terreno coberto de urze, dá para perceber, a irregularidade, as rochas, as fendas no terreno. Mas, ele lá ia. Aos solavancos, calcando a urze. Não sei, até hoje não me dei ao trabalho de me informar, o que o fez inclinar para a direita. Virou. Lentamente, quase a não virar, acabou por virar. Caiu, deslizou um pouco para baixo, e ficou parado de rodas para o ar. Podereis pensar que sou impassível ou indiferente às desgraças alheias. Não sou. Mas não senti nada de especial. Não sei porquê, não acreditei que pudesse ter acontecido algo de grave. O motor calou-se. Pouco depois, o condutor acabou para sair. Saiu pela janela. Parecia aturdido. Fui lá dentro, buscar os óculos. Voltei até aqui. Sentei-me. Ele estava a olhar para o jipe. Por fim, deu um ligeiro abanão no carro. O carro deslizou ligeiramente. Ele baixou-se e espreitou para dentro. Por fim, resolveu deixar o carro em sossego. Olhou para o cimo do monte, olhou para baixo, virou-se, olhou para aqui. Quando o vi de frente, pareceu-me familiar. Esforcei-me por descortinar o que era. Quando começou a andar, tive a certeza. Era o médico dentista da vila. Alto, cabelo branco, mais velho do que eu, talvez, cinquenta anos, desengonçado. Sorri. O que lhe teria dado para se meter em semelhante aventura!? – Por momentos, vi-o caminho monte abaixo. Não era fácil, por causa da urze. Encaminhou-se para a estrada. Desceu, passou o plano, começou a subir. Ainda não o disse, mas estava uma tarde cheia do calor seco que faz zumbir esta serra. Vinha empapado em suor. Tocou, em baixo, na campainha. Fui lá dentro. Pressionei o botão que abre o portão. Voltei a sentar-me nesta cadeira. Ele entrou na quinta e subiu pelo caminho empedrado. Quando a meio me olhou, não me cumprimentou, e também eu não o cumprimentei. Parou ali à minha frente, em baixo, são cinco degraus de escada, e parecia à espera que eu lhe dissesse qualquer coisa. Estava manifesta e paradoxalmente orgulhoso. Não sei se viu, perguntou. Respondi-lhe com silêncio. Ficou ligeiramente confundido. Todavia, não desistiu. Capotei o jipe, acrescentou. Respondi do mesmo modo, sem conseguir disfarçar alguma diversão. Calou-se. Olhou para os pés, procurando o chão. Não o encontrou. Desculpe, disse, sou médico… Sim, na vila, eu sei, - sorri -, dentista. Ele tentou passar ao lado do sorriso. Se não se importasse, desculpe, a senhora é, gostaria de usar o telefone, é que… Parou ao perceber que a atrapalhação me divertia. Por fim, ficou completamente confundido. O que é que se passava ali? – Ao vê-lo assim, tive vontade de brincar um pouco mais. Mas fiquei apenas a olhá-lo em paz. Não sei se me reconheceu, nem sei o que se passou com ele. Virou-me as costas e começou a descer o empedrado. Depois, subiu a estrada. Perdi-o de vista… Não fiquei com pena de ter perdido o dentista, embora tenha de confessar que não sei se eu ou ele algum dia conseguiremos perceber o tamanho desta pequena maldade.

4 comentários:

dhuoda disse...

Muito interessante esse jogo do gato e do rato.
A jogadora,digo,professora,tinha uma imperturbável serenidade, decerto alicerçada num passado que deveria envolver os dois.Pobre idiota, a que portão foi ele bater!...Ou devo dizer, pobre professora?...

Bastet disse...

Hum... desafiar o bom senso parece-me algo de importante... mas lá tinha que vir a professora para chamar o pobre à realidade do convencionalismo.

Anónimo disse...

Reconheço essa impassibilidade de coração. Às vezes, tenho medo dela.
M. Conceicao

a-bordo disse...

dhuoda, parece-me que corrermos muitas vezes o risco do nosso dentista, porque não raras as vezes, batemos a portas que estão fechadas, e demorarmos a perceber a existência da trancas; depois, cabe-nos a nós a decisão de insistir ou deixar de insistir; maria da conceição, sendo verdade que a impassibilidade do coração é de meter medo, sem saber muito bem porquê, e tendo medo de me esticar ao comprido, penso que uma das razões que podem tornar positivo o sofrimento é o de permitir que sejam abertas as brechas necessárias para que o nosso coração não fique tão duro; por fim, bastet, penso que a professora está a chamá-lo para a existência e para a realidade da vingança: como tu, médico, não me reconheces, também eu não te reconheço; vê lá médico como lidas com isso...