13 de julho de 2005

Alguns vão certamente acusar-me de ser um refinado cínico. Que estou apenas a chorar lágrimas de crocodilo. Que sou um grandessíssimo filho da puta. Que a dor deles não me diz nada. Que apenas estou à espera de nova oportunidade. Tento que não seja assim. Não nego que tenho a alma pesada. Não nego que posso estar em vias de sobrecarregá-la. Não sei. Se vos der para isso, ajuízem vocês. Eu não o consigo fazer, mesmo quando, como vereis, sei muito mais do que deveria saber.
Tomé poderia ter ido para outra cidade. Foi para Paris, e Paris é uma cidade que conheço bem. Por isso, posso descrevê-lo, sentado no Pompidou, tentando, infrutífera e desgraçadamente, distrair-se com os artistas de rua. Posso também descrever com algum rigor os dias de Telma. Primeiro, porque me telefona. Depois, porque conheço Moledo. Se Telma tivesse ido, por exemplo, para Vila Praia de Âncora, teria mais dificuldades. Não sei porquê, embora aprecie todas as praias do Minho, em Vila Praia, apenas consigo ir aos cafés. Conheço os locais para onde foram. Conheço os locais de partida. O Porto e a Madalena.
Conheço as personagens. Os dois são meus amigos. Primeiro, Tomé. Tomé, nessa noite, não foi à festa, porque tinha um exame do décimo segundo na manhã seguinte. Contudo, depois do almoço, apanhou o comboio. Bateu à porta. Luís, nosso amigo e filho do dono da casa, abriu-a. Tomé perguntou por Telma. Recebeu um ensonado “deve estar lá para baixo!» – Tomé desceu as escadas e quando chegou à cave, ficou em pânico ao ver a mancha vermelha no meio das flores do vestido. Não entrou no quarto, não desligou o candeeiro. Subiu as escadas. Ouviu Luís na cozinha. “Que se passa?”. Não se despediu. Foi até à praia. Devia estar aturdido. Incapaz de rir, chorar, incapaz de olhar o mar, incapaz de se mexer. Na Estação, teve sorte. O comboio não demorou. Pelo caminho, não tinha bilhete, o revisor não apareceu. Durante dias, ninguém soube dele.
Agora, Telma. Telma, a meio da noite, sob o efeito do álcool, caiu pelas escadas e perdeu na cama o que tanto e tão bem tinha guardado… Bem. Podeis recriminá-la. Pensai o que quiserdes. O que vi, o que sei, diz-me que ama Tomé. Isto justifica o modo melodramático como arrancou os cabelos, ao ouvir dizer que ele tinha lá estado, que tinha saído. Chorou. Berrou. Chorou. Pontapeou a mesa. Saiu desvairada da cozinha e correu louca pelo jardim. Felizmente, Luís conseguiu agarrou-a. Eu ajudei a segurá-la. Estava fraca. Deixou-se cair. Prometeu tudo e mais alguma coisa. Jurou que nunca mais beberia. Jurou que nunca mais sairia à noite. Jurou que iria matar o Luís. Jurou que acabaria por me matar. Olhava com nojo o vestido húmido da lavagem. Quando acalmou, levantamo-la. Caminhou, passo a passo, tentando a todo o custo enfiar o vestido entre as pernas.
Depois, foi com os pais para Moledo, para a casa que fica atrás da Estação. Telefonou-me várias vezes. Primeiro, a perguntar se eu sabia alguma coisa. Que tentasse. «Como, Telma, posso ter a lata de indagar?» – Depois, repetidamente, queixou-se que não conseguia contactá-lo. Por fim, disse-me que Tomé tinha atendido o telemóvel. Que Tomé não aguentava estar mais tempo sozinho em Paris. Que o tinha convidado para Moledo. Que já tinha falado com os pais. Perguntei: «e Tomé, o que respondeu?» – Respondeu: «que está em Paris à minha espera». «E tu o que pensas fazer?» – «Para já, penso ficar à espera. E tu o que achas?».
O que acho!? – Grande pergunta. Percebo porque querem ficar como estão. Tomé lá. Telma cá. Se Telma for a Paris, corre o risco de ver o arrependimento ultrajado. Se Tomé vier, corre o risco de ver o perdão diminuído. Contudo, se isto ficar como está, todos ficam mal. Tomé fica mal, Telma fica mal. Eu fico mal. Melhor seria que alguém desse um passo. E que o passo fosse dado por Tomé. O arrependimento teria acolhimento e o perdão seria claro. Se o passo for dado por Telma, a viagem pode servir para mostrar o arrependimento, mas, dificilmente, poderá criar o espaço onde Tomé possa mostrar o perdão. E se Tomé não quiser regressar? – Devo dizer a Telma para ir? – Não é fácil. São estes momentos que fazem ver que nos movemos na escuridão.
Eles estão com a escuridão deles. Eu estou com a minha. Se disser a Telma para esperar, posso contribuir para que ela fique parada em Moledo, deixando Telmo quieto em Paris, e isso pode ser o fim do namoro. Se lhe disser para ir, não sei se não estarei a contribuir para que possa sair humilhada ou para que acabe por ficar com tanta incerteza que o encontro acabe por ter o mesmo resultado. E pior, muito pior: não sei se não é isso que quero. Não sei se o álcool que bebi nessa noite não foi um pretexto para que pudesse cumprir um dos subtis mandamentos do pequeno tesão. Agora, não sei se falar, se os meus conselhos a Telma não serão apenas um outro pretexto para continuar na sua obediência. Contudo, também, não sei se devo manter-me calado. Quem poderá garantir que se o fizer, se como Pilatos lavar minhas mãos, não estarei apenas a ver se acabam, não estarei apenas a procurar uma nova oportunidade para matar a sede dos meus suplicantes testículos?

8 comentários:

MRF disse...

Muito bom. Sabes porquê. Uma história "simples" e todas as motivações-derivações "nossas" vêm ao de cima... ou não :)

MRF disse...

A Lilly manda dizer que tb gostou ;)

Afonso Azevedo Neves disse...

Boa,o pormenor bem conseguido. Até estou a ver a casa atrás da estação de Moledo e o cheiro a sargaço.

Anónimo disse...

Aí no Norte, é tudo assim? Na base do drama? Deixa correr os dias, quem tiver que falar fale.
M. Conceicao

Anónimo disse...

camilo em versão cosmopolita?

Anónimo disse...

não faço A porque x ou y. não faço B porque y ou x. mas se não faço nem A nem B...
puxa!

a-bordo disse...

Divas: diz então à Lilly que por aqui se aprecia a sua poesia, e que se continua à espera que não perca a sua marca mais "experimental";

Afonso: não: foi pena ter-me esquecido do sargaço;

Conceição: é mesmo assim; drama pegado;

Anónimo: coincidência das coincidências: tenho por aqui algum camilo à espera de re-leitura;

De facto, anómimo: puxa: é a exclamação que também faço quando descubro que alguém nos conduz quando tudo é cegueira;

Anónimo disse...

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