27 de junho de 2005

Talvez seja mais fácil começar com a Lena de Água. A propósito dos kraftwerk. Poderíamos começar com o tecnológico corpo diplomático ou com os rapazes da rua, mas, poucos serão os que se lembram do remix do pauzinho na engrenagem do Zeca Afonso, ou de canções como supermercado, superpovoado. Por isso, fiquemos pela Lena. Não para falar de música. Aqui, a música é apenas pretexto. De resto, não sei, pode ser, talvez possamos dizer que a música é apenas pretexto para que possam ser satisfeitas as necessidades do homem. Por exemplo, a de dançar. Mas porque precisamos de dançar? – Perguntais bem. Haverá muitas respostas. A nossa começa com a Lena de Água. Porque ela pode refrescar as memórias. Se nos lembrarmos do olha o robô, é para a menina e para o menino, olh-ó, talvez, possamos chegar aos kraftwerk. E se chegarmos aos kraftwerk, poderemos chegar aos que dançavam, nessa sexta feira à noite, no Porto, numa discoteca tão obscura que nunca mereceu a pena de Hélder Pacheco. Na discoteca la vie en rose, nessa sexta, um bando de quinze malucos dançaram kraftwerk; o que deu, como podeis imaginar, a bonita soma de quinze palhaços armados em robôs, e levou as secretárias dos empresários do Norte, a sentarem-se quietas a um canto, mortinhas, vivinhas, cheias de vontade de entrar nessa cadeia electrónica de produção. Tudo factos incontestáveis. E que mostrarão que o pop-rock, a dança pop-rock, ao contrário do que se possa pensar, pode levar a transmutações místicas, sem, no entanto, negarmos que pode servir também para fins diversos que nos colocam no meio da existência não autêntica do saco de trinta minhocas. Categoria de Heidegger, dizemos aos que se deixam levar pelo sorriso. Façamos como Heidegger. Mostremos como a dança pop-rock pode levar à existência autêntica e à existência não autêntica. Antes, temos de conceder uma coisa a qualquer tipo de dança. Não é de bom-tom, boa máxima, não tem jeito nenhum, os dançarinos pisarem os pés dos outros ou lançarem copos de cerveja para o ar. De facto, o tomate, a via rápida ou o estado novo, se são espaços para libertar energias, mostram que as energias devem ser libertadas dentro de estreitos limites. Pode não parecer, mas toda a dança realiza a máxima fundamental: “a minha liberdade acaba quando começa a liberdade do outro”. Máxima que se impõe de modo napoleónico e imperial. Mesmo se o dançarino for do Porto. E cúmplice dos príncipes. Concedido este valor, vejamos como pode acontecer o mau uso dessa liberdade. Vai ser senso comum, e por isso, poucos de nós, poderemos escapar. A não ser que alguém se predisponha a reactualizar a palhaçada que se deu na vie en rose. Mas, investiguemos primeiro o saco. Hoje, nas pistas do mundo, ondula-se o tronco para o lado, para a frente, para trás. Os pés têm pouco uso. A partir desse ponto fixo, ligeiramente arrastado, os dançarinos projectam a imagem de trinta minhocas. Porque, embora os códigos existam, faz isto, faz aquilo, não faças esse passo, não tropeces no outro, os códigos não conseguem promover a estilização. Os dançarinos ondulam, sem pisar, sem esmagar, na maior proximidade possível, sem nunca conseguirem o gesto claro e preciso, do mesmo modo como as minhocas se mexem pertinho umas das outras, sem se pisarem, nem se esmagarem, mas estando longe de traçar figuras geométricas. Mas porque dizemos que neste saco de trinta minhocas se dá uma existência não autêntica? – Perdoem-me a rapidez da resposta – mas tenho de guardar o resto para o meu professor de ontologia existencial literária que obriga os alunos a trabalhos originais e não publicados; assim, apenas vos posso dizer o seguinte: o saco das minhocas promove a existência não autêntica, porque promove o esquecimento do vácuo. O vazio que existe dentro de nós. Há, sabemos, modos insignes de lembrar o vazio. De estar no vazio. Dançando. É o caso dos dervixes. Mas, deixemos Rumî de lado. E passemos ao que está à mão, aos nossos robôs com a febre de sexta à noite. Eles viviam, nessa noite, uma existência autêntica, porque, ao estilizar, ao concentrarem-se no esquadro dos braços, nas mãos que tinham de ser facas e cortar desastradamente o ar, ao tentarem mexer as pernas sem dobrar os joelhos, eram, por momentos, não homens, mas máquinas, abandonavam a humanidade, e em tal abandono, conseguiam o vazio que no final da dança lhes permitia sorrir às secretárias, sem que o poder empresarial pudesse entrevar o que lhes dizia existir outra existência. Igualmente autêntica.

ps. o a-bordo errou: via comentário, via Rui fica desfeito o erro: "[um pauzinho na] engrenagem" é do José Mário Branco (álbum "Margem de Certa Maneira") e não do Zeca Afonso. Ao Rui, mais uma vez, obrigado.

13 comentários:

Bastet disse...

Hum, faltou o link para o blog da lena! É bem verdade que a dança nos liberta quando nos conseguimos abstrair das figuras que fazemos, quando isso perde importância face à corrente do momento.

Anónimo disse...

o senhor escreve bem. é pena eu não perceber nada de tanta alusão que não diz a que alude. o problema deve ser meu.

a-bordo disse...

Batet: não sabia, ou melhor não me lembrava que a Lena tinha um blog.

anónimo: completa razão no reparo. Vejamos se posso fazer mais alguma coisa. assim: início =» fim:
bandas: corpo diplomático, street kids: bandas do primeiro rock português que fugiam ao rock "puro" do amigo Rui Veloso, e da Lena!?, e que tinham marcadas caracteríticas "tecno";
musicas: não sei títulos; ainda assim, o olhó robô era da Lena, o corpo diplomático refez em batida "tecno" a canção do Zeca Afonso um pau na engrenagem, o povoado era uma das canções dos street kids;
Helder Pacheco - cronista do Porto esquecido e popular;
Heidegger usado - Ser e Tempo, onde se pretende fazer uma ontololiga existencial, e onde o homem é definido como ser para a morte;
tomate, via rápida e estado novo - discotecas do Porto;
princípe - nome dado ao copo de cerveja alto no Porto, copo entre o fino e a girafa;
curso que frequento - não frequento;
dervixes, Rumi - ver o blog erro de paralaxe, link na coluna ao lado;
não sei se está tudo; de qualquer modo, estou aberto a desfazer outras alusões.
um abraço

Bastet disse...

Acho que vais ter de fazer um dicionário! Que tal?

Rui disse...

Caro,
são coisas da minha infância e da tua adolescência... hehehe, mas faço o reparo: "[um pauzinho na] engrenagem" é do José Mário Branco (álbum "Margem de Certa Maneira") e não do Zeca Afonso. Já agora, informo-te que a FNAC (calculo q tb no Porto) está a oferecer o livrinho "Para um percurso pela música urbana em Portugal" escolhidos por Henrique Amaro, Jorge Mourinha e Pedro Félix, q refere alguma dessa História/estória de q falas.
Abraço.

Rui disse...

o título do livrinho q refiro é: "231 disco para um percurso pela música urbana em Portugal" escolhidos por Henrique Amaro, Jorge Mourinha e Pedro Félix (falhou-me a 1ª parte)

a-bordo disse...

De facto, a voz original na soava na minha cabeça a Zeca. Mas quem é que se ia lembrar do José Mário? - Obrigado Rui.

Bastet: pelo que disse ao Rui, é melhor nem começar...

Anónimo disse...

Caro,
agradeço a ironia. mas o que eu pretendia saber é onde queria chegar. a moral da história ou lá o que seja.
abraço

a-bordo disse...

anónimo: para que fique claro, da minha parte, não existe ironia nenhuma; apenas forneci um conjunto de dados que julguei pertinentes, e se calhar não muito conhecidos, para compreender o ambiente da pequena cena descrita; quanto à moral da história, compreenderá, por certo, que o que pergunta é muito vago; se for mais preciso poderemos então continuar a conversar...

Anónimo disse...

vago? moral da história? quer dizer que não tem? Então conversar para quê?

a-bordo disse...

desculpe, mas não está a ser preciso; um abraço.

cbs disse...

Anónimos são moventes, como sombras.
Quando nos chegamos... movem-se.
Vale falar para o espelho.

Apesar da simpatia, anónima :)

a-bordo disse...

obrigado cbs: passemos então a um herói que uma noite se viu a braços com a figurinha na parte de trás dos fatos dainese...