30 de junho de 2005

Não devíamos dizer nada, e devíamos deixar a cena a seco. Mas, o que se passou é tão pouco usual que podemos não estar preparados para reparar. Não acontece todos os dias. Dificilmente alguém dirá que o orgulho é solução. Mas foi o que se passou naquela cena em Madrid. A cena não estava a resultar. «Cavalga!» – disse o realizador irritado – «Cavalga! Porra! Cavalga!» – A intenção do realizador era mostrar o contraste entre a beleza e a fogosidade da jovem e o ar frio do namorado, acentuar o lado cómico da relação entre os dois. Um interessado, ela, outro, desinteressado, ele, um fruindo, ele, o ambiente permissivo da noite madrilena, o outro, ela, com dificuldade de encontrar um rumo para a coca e para os copos. Ao ouvir aquilo, ela parou. Saiu de cima do jovem, pôs-se de joelhos na cama, e virou-se para o realizador: «Roberto, já viste a cara deste filho da tia!? Tu – disse para a assistente – o que estás para aí a fazer!? Não vês que preciso da toalha!?» – Tinha razão. Gotas de suor rolavam pelo corpo moreno e bronzeado. Roberto levantou-se: «acendam a merda das luzes! E tu, Francisca, deixa-te de merdas! É preciso mais!» – «Merdas, Roberto!? Isto não é indiferença! Isto é de sonso! Não posso fazer mais com este sonso por baixo de mim!» – No estúdio, a tensão crepitou. A assistente levou a toalha a Francisca. Francisca sentou-se na borda da cama. Começou a limpar-se com um ar muito zangado. Atrás de si, o actor abrira finalmente os olhos. Parecia divertido. Sorrindo, levantou-se e sentou-se ao lado da actriz. Deu-lhe um toque com o cotovelo e disse num tom amigável: «desculpa lá!» – O realizador ao ver o gesto e o sorriso de Pablo, perguntou-lhe: «posso saber que merda se passa, Pablo!?» – Pablo disse com calma: «queres ouvir!?» – «Despacha-te!» – «É rápido! Eu não aguento!» – Roberto exclamou: - «o quê!?» – Pablo respondeu: «é capaz de ter razão! Francisca é boa demais!» – Calou-se. Roberto olhou-o furioso: «que maluquice vem a ser essa!?» – Pablo respondeu: «a minha cara, o meu ar, sei lá!» – «Vai mas é à merda!» – Pablo continuou: «pode ser, pode interferir! Não sei como fico! Quando Francisca abana os seios em cima de mim, para aguentar, fecho os olhos, saio da cama, desço para o metro, hora de ponta, dou um soluço com a multidão, entro, e, apertado, de braço no ar, sorrio; olho à minha volta e fico orgulhoso de ter comigo a imagem dos seios!...» – Calou-se. Roberto reflectiu por momentos; perguntou-lhe: «actor’s studio!?» – Pablo: «actor’s studio!» – Francisca resolve intervir; olha Pablo: «é mesmo assim, Pablo!?» – Pablo olha para ela: «é mesmo assim, Francisca!» – «Tens orgulho!?» – «Tenho orgulho!» – Francisca sorri: «então, não tem mal!» – Roberto aproveita o balanço: «apaguem as luzes! Toca a voltar às filmagens!»

7 comentários:

Migalheiro disse...

Amigo, excelente!

Passar por aqui é certeza de boas histórias.

Abraços.

jorge disse...

eheheheheheh...

a-bordo disse...

Abraços, obrigado, a ambos. Ainda bem que gostaram.

carlos disse...

Como se disse acima: passar por aqui é certeza de boas histórias.
Acrescento eu: de excelente escrita (mesmo quando mais à pressa…) e de uma cabeça e um coração que transpiram da letra. Ambos grandes.
Obrigado por sempre me pores a pensar…
CM

A disse...

Gostei do blog convido-vos a visitar este blog deveras interessante pelo simples facto que lá na Arca escrevem os mais prodigiosos inventores da escrita zoófila. Passem e comentem...abraços bloguistas

www.arcadobue.blogspot.com

a-bordo disse...

carlos: são elogios que não mereço; mas é bom ouvi-los. um abraço para ti.

a-bordo disse...

a: obrigado. vou passar por aí.