29 de junho de 2005

Hoje, quase à meia-noite, tomei uma decisão assim. Tenho pena de não ter prestado maior atenção. Quero encontrar aquela mulher que no noticiário das oito, disse que acabou de ficar desempregada. Sei que felizmente não precisa da minha sopa, do meu pão, ou do meu copo de vinho. Nem é isso que me move. É outra coisa. Não sei o que é. Sei que vou telefonar para o monte da virgem e a telefonista que me vai atender, vai responder que não sabe do que se trata. Não deve ter prestado atenção, o passado é longínquo a cada minuto. Vai querer despachar-me. Deve estar farta de aturar outros tão tolos como eu. É noite, é tarde, é incómodo, mas, ainda assim, não vou desistir. Voltarei a ligar. Se ela tiver um identificador de chamadas e eu acabar por concluir que pelo telefone não chego, pego no carro, e planto-me à porta. Felizmente, o portão, mesmo a estas horas da noite, está sempre aberto. Se algum segurança me barrar a entrada, ou se a recepcionista me puser à seca, num banco que presumo que exista por lá, volto para o carro, fumo uns cigarros, e depois pinto no capot o que desejo, pois irei prevenido com os sprays que o filho do vizinho esconde na garagem. Espero que então venham com as câmaras para que possa dizer o que quero. Mas se não resultar, se não houver apreço pela excentricidade, se eles acharem que não devem dar troco a um chato, não desistirei. Quando for manhã, predisponho-me a dormir sentado, meterei o carro à rua, e embora saiba que não é agradável andar com “quero falar com a mulher do noticiário das oito, desempregada!», acrescentarei na porta do meu lado e na porta do outro, “mas a televisão não deixa!» – Regressarei a casa. Não quero saber do que poderão pensar os vizinhos. Telefonarei para os sindicatos, para verem se pelo menos eles sabem qual a fábrica que hoje foi visitada pela televisão. Pode ser que não saibam. Que vejam pouca televisão. Ou que tenha acontecido que eles, embora o problema lhes diga respeito, tenham também prestado pouca atenção. Contudo, acredito que tenham uma lista das fábricas que nos últimos tempos fecharam as portas. Não preciso de mais. São muitas. Mas vou visitar uma a uma. Vila do Conde, Póvoa, Guimarães, Vila Real, Paredes, Amarante, Monção, Valença, Santo Tirso. Perto de cada uma, não tenho dúvidas que alguém há-de saber. Ou que alguém saberá quem conhece quem foi despedido. E essa proximidade vai ser a solução. Por ela, vou encontrar a mulher… Leitores atentos, estareis a perguntar: então, morcão, porque é que não te deitas, acordas, e saltas para a segunda parte? - Para quê o spray, os graffittis, a televisão, a palhaçada? – Não tenho resposta. Mas penso que tem a ver com o facto de que depois de tanta conversa, tanta intenção, eu ter necessidade de qualquer coisa que me lembre que, meia-noite e vinte, ainda estou, aqui, sentado, a escrever.

9 comentários:

timshel disse...

belo post

a-bordo disse...

obrigado, tim!

Nuno Barreto disse...

interessante...

Anónimo disse...

Fernado
gostei de ler a tua declaração de intenções!
O problema é novo dia, não é?

M. Conceicao

a-bordo disse...

nuno: obrigado; espero vê-lo mais vez por cá.

maria da conceição: para mim, o problema, é não saber como lidar com as minhas intenções; como realizá-las, dia a dia.

Bastet disse...

Gostei de sentir a inquietude com deves ter estado sentado a escrever. Belo post. :)*

a-bordo disse...

obrigado bastet: vamos lá ver se gostas do que vem a seguir: o orgulho como medicina para várias excitações....

Anónimo disse...

"O problema, é não saber como lidar com as minhas intenções..."
Conheço muito bem esses "estados de alma". Deitamo-nos tranquilos e confiantes de que amanhã será um novo dia, e acordamos caguinchas, medrosos, incapazes de pôr em práctica as boas intenções que confiámos à almofada...Aí precisamos de nos lembrar de que até um copo de àgua, não passará sem recompensa. Gostaríamos e deveríamos dar a vida, mas comecemos pelo copo de àgua...
M. Conceicao

a-bordo disse...

É isso tudo, Maria da Conceição.