28 de junho de 2005

Fazíamos longos passeios a pé. Um belo dia, depois do jantar, fomos beber um cálice de Porto a um local onde depois só voltei para a apresentação de um livro. É para os lados do Palácio, por trás do Palácio, mas foge-me a localização e o nome. Hoje, à noite, chovendo, está, também, um belo dia. Tenho ali, quase no fim, um policial, o Dinheiro Negro de Ross MacDonald. Traz no enredo: uma jovem loura, romântica, inocente, é posta em perigo porque se liga a um jovem moreno, cínico e oportunista. Isto lembra-me o que li nos Pássaros de Seda, de Rosa Lobato Faria, onde uma jovem morena, romântica e inocente é seduzida por um jovem louro, cínico e oportunista. Mas a minha memória fica bem melhor quando recua até xis. O meu amigo xis, alto, moreno, jovem, não inocente, nem cínico, nessa noite, não sei se seduziu, se foi seduzido. Havia já qualquer coisa. De facto, algo se passava, porque à saída do Porto, embateu violentamente contra a porta de vidro. O seu nariz aquilino ficou um pouco amassado, mas isso não impediu que na descida para a marginal fosse um dos que mais discutia a sedutora figura do diabo. Éramos cinco ou seis, talvez mais, não muito mais, e as opiniões variavam. Nas escadas, eu, como sempre, resolvi contar umas historietas com que me assustaram na aldeia e que conto sempre que o tema vem à baila. Ficaram-me para sempre na memória. E isto porque, na roda do milho, as mulheres juravam a pés juntos já terem visto a terrível figura do Maligno. Mas, deixemos o campo. Voltemos à cidade. Andávamos na marginal em direcção à Ribeira, estavam caladas as teorias, e eu era o único rei e senhor da indignação com que julgavam a crença no que talvez astuciosamente me havia sido contado. O meu amigo xis puxou-me pelo braço e obrigou-me a ficar para trás. Estava com uma cara pouco amigável. O que se passava? - Eu estava incomodá-la. A quem? – Ela, disse, apontando a jovem que pela primeira vez fazia um trajecto connosco. Ora, xis! Deixa-te disso! - Disse-lhe e tomei contacto com o pelotão da frente. Eles continuavam no tema, mas tinham aproveitado a minha ausência para discutir o Inferno e os Papas de Dante. Calei-me. Reconheci que o meu tempo de antena passara. Não fiquei preocupado. Sabia que voltaria logo que viesse o breu da noite, as latadas, e em cima de nós, pousassem as uvas. Assim, foi. Mas, na subida para o colégio dos órfãos, o meu amigo xis e a jovem não me escutaram, porque há muito se tinham deixado ficar para atrás. No dia seguinte, depois do almoço, xis telefonou-me agitado. Resolvemos encontrarmo-nos a meio, e o ponto ficou por vinte e quatro de Agosto. E foi então a sua vez de me contar uma história. E uma história que não posso esquecer. Também ele jurava a pés juntos que era o diabo, que ele não a merecia, que ela era inocente e muito maltratada pelo namorado.

5 comentários:

Bastet disse...

A capacidade das mulheres fazerem os homens acreditar que eles são o diabo não é assim tão grande o que é enorme é a vaidade que os leva a facilmente quererem assumir esse papel. Um beijo. :)

a-bordo disse...

gracias pelo comentário. um beijo.

maopesada disse...

eu passei por cá e gostei destas coisas com o diabo no corpo.

a-bordo disse...

maopesada: obrigada pela visita e pelo cumprimento; um abraço.

CAP disse...

Esse sítio não é o Solar do vinho do Porto?