14 de maio de 2005

Evangélicos e protestantes. Um esclarecimento. Por Mário Martins. Via mail. - Evangélicos e protestantes partilham a mesma base histórica e teológica. Em ambos os grupos a primazia é dada à Fé, à Graça e à Bíblia. Mas as divergências surgem logo nos primeiros tempos da Reforma. E relacionam-se com a forma de conceber a Igreja. Digamos que os evangélicos (que se chamavam por esses tempos radicais, puritanos ou separatistas) pretendiam levar a Reforma até às últimas consequências. Queriam igrejas separadas do Estado, formadas apenas por membros que aderissem consciente e responsavelmente e que se apagassem de vez os resquícios do passado (sacramentos, hierarquias nacionais e transnacionais, baptismo infantil, etc.). Estes movimentos surgiram dentro das igrejas reformadas e ou foram reabsorvidos ou foram expulsos ou auto – excluíram-se. Por exemplo, os puritanos permaneceram na Igreja Anglicana, enquanto que os separatistas romperam com ela (e foram os “Pilgrim Fathers” da América). Em Portugal as coisas não foram muito diferentes. As igrejas protestantes “tradicionais” chegaram primeiro, em meados do século XIX. As igrejas “livres” vieram mais tarde, no fim do século. No entanto, entre elas havia alguma ligação, e colaboração até, o que tornava o termo “protestante” perfeitamente aceitável para designar ambos os grupos. O século XX veio, no entanto, trazer o afastamento. Sobretudo com a teologia liberal dos protestantes, à qual os evangélicos opõem a teologia mais fundamentalista, e pelo ecumenismo, que os protestantes abraçaram como uma das prioridades. Com o concílio Vaticano II católicos e protestantes deram passos de aproximação, o que veio ainda ampliar mais o fosso entre estes e os evangélicos. Parece-me que faz sentido, em nome da clareza doutrinária, a diferenciação entre protestantes e evangélicos. Obviamente assumo, como evangélico, a minha herança teológica. E tenho orgulho nela. Mas evita-se com a designação mais precisa as incorrecções tão frequentes. Como a de João César das Neves, recentemente no Diário de Notícias. Dizia ele que umas das coisas que ainda separavam a Igreja Católica Romana das igrejas protestantes eram as questões da moral e da sexualidade. Ora, isto é verdade, se tomarmos em conta as igrejas protestantes “tradicionais”. Resulta do seu liberalismo. Mas se considerarmos as igrejas evangélicas veremos que esta é a área em que precisamente se dá a maior convergência com o catolicismo. As posições em relação ao aborto, à eutanásia, à homossexualidade, ao divórcio, etc., são praticamente as mesmas. Ou seja, em Portugal a maior parte dos protestantes, no uso abrangente do termo, defende a posição oposta à referida por César das Neves. Porque são evangélicos.