19 de maio de 2005

«Se o senhor, Don Pietrino, não estivesse a dormir, dizia logo que os fidalgos fazem mal em desprezar assim os outros e que todos nós, igualmente, sujeitos à dupla servidão do amor e da morte, somos iguais perante o Criador; eu só poderia dar-lhe razão. Acrescentarei, porém, que não é justo culpar apenas os «senhores», porque esse vício é universal. Quem ensina na Universidade despreza o mestre da escola paroquial, ainda que não o demonstre, e como o senhor está a dormir posso dizer-lhe sem reticências que nós, os eclesiásticos, consideramo-nos superior aos leigos, nós, os jesuítas, superiores ao resto do clero, tal como vocês, os ervanários, desprezam os tira-dentes que vos pagam na mesma moeda; quanto aos médicos, troçam dos tira-dentes e dos ervanários, mas eles próprios são alcunhados de burros pelos doentes, que pretendem continuar a viver com o coração ou o fígado feitos em papas. Para os magistrados, os advogados não passam de uns maçadores que tentam protelar o funcionamento das leis, mas a literatura está cheia de sátiras conta a pomposidade, a ignorância, ou pior ainda, desses mesmos juízes. Os camponeses são os únicos que se desprezam também a si próprios; quando aprenderem a troçar dos outros o ciclo fechar-se-á e terá de recomeçar do princípio.» - G. Tomasi di Lampedusa, Leopardo, 156.