5 de maio de 2005

Catolicismo 6. Em muitas Igrejas reformadas, quando a liderança pessoal, teológica, não serve as orientações de parte dos indivíduos que compõem uma comunidade, essa parte da comunidade pode não a aceitar; quando isso acontece, é frequente, os indivíduos deixarem a comunidade a que pertencem, criando uma nova associação que seja capaz de cumprir as orientações que julgam pertinentes. Esta uma razão do pulular das comunidades protestantes na América. No catolicismo, isto não acontece, ou raramente acontece, mesmo quando a relação de confiança é fortemente abalada; para isso, contribuíram alguns mecanismos de precaução:

5 comentários:

Anónimo disse...

Caro a bordo

O que diz das igrejas protestantes é verdade. Apesar de haver entre elas uma variação muito grande quanto à tendência para a fragmentação. Por exemplo, dentro da Igreja Anglicana existem a "igreja baixa", do tipo evangélico, e a "igreja alto", que pode ser descrita como mais perto do catolicismo. Partilham a hierarquia e quase toda a teologia, mas a maneira de estar e viver a fé varia bastante.
Por outro lado, a separação nominal muitas vezes quer dizer pouco. Os evangélicos, por exemplo. Dezenas de igrejas diferentes (falemos apenas de Portugal) mas uma base doutrinária comum que permite aos membros das várias igrejas se considerarem perante Deus como irmãos, membros da igreja universal.
No catolicismo, no entanto, a divisão é muito mais problemática. Talvez porque a união se faz mais em torno de actos exteriores do que em volta de convicções doutrinárias individuais(esta é a minha provocaçãozinha...).
Mas já vi que o assunto deve ser tratado nos próximos posts.

Anonymous

a-bordo disse...

Mais uma vez obrigado pelo contributo. Não sou especialista, nem de perto, nem de longe, deste tipo de coisa. O que me leva a explicar porque as escrevo e a uma pequena brincadeira. Faço-o para que os meus amigos da TdA não coloquem em cima da mesa ordem de expulsão, porque de facto ultimamente nada tenho escrito para a terra. Penso que neste momento estou quase perdoado. Ou assim o julgo porque por aqui não os meus amigos não têm reclamado do que digo. Agora, relativamente ao comentário: de novo, no estatuto de não especialista, ainda assim diria que pelo menos em termos de sensibilidade não é de ignorar na igreja anglicana a sensibilidade liberal. No caso Protestante, ainda assim haverá diferenças entre o que é habitualmente é designando por evangélico e o que pode ser designado por luterano. Aqui um pedido a que não precisa de responder, ou que pode responder se for esse o seu interesse e tiver tempo e paciência para isso. Seria interessante que nos pudesse dar – nem que fosse de modo esquemático – as diferenças dentro do protestantismo. A colocar não apenas em comentário, mas se esse for o seu desejo, no próprio corpo do meu blogue. Abraço.

josé disse...

caro fernando:
confesso que só ontem comecei a ler a sério esta tua série que sem exagero me parece ser um "novo catecismo do ser-se católico". enquanto teu conterrâneo nada tenho a perdoar-te, apenas espero que as pistas de reflexão que aqui tens trilhado venham a ter uma súmula na Terra.
há talvez um ponto que queria introduzir: a liberdarde no ser-se católico. ela não é de modo nenhum coartada por todas essas intersessões, rituais e hierarquias que tanto repelem os nossos irmãos protestantes. a enorme diversidade entre as pessoas não pode deixar de provocar a mesma diversidade no ser-se cristão e no ser-se católico. isto não pode ser omitido e a nossa Igreja não quer sequer fazer. apesar de o nosso cardeal dizer que a nossa fé não é um menu onde vamos buscar o bocado que mais nos apetece, a verdade é que, na minha modesta opinião, a nossa Igreja é e deve ser mais do que um menu, deve ser um restaurante, com uma só cozinha, mas onde se pode comer à la carte ou ementa turística. a minha fé e a tua fé são diferentes da do Pe. Anselmo Borges mas também da D.Gertudes, vizinha, devota de Santa Maria Auxiliadora, mas no fundo são iguais, são dialectos duma mesma linguagem aplicados viver e entender uma mesma narrativa. apesar de inquisições e índexes não conheço nada tão inclusivo quanto a igreja católica. e o milagre é que isso não lhe faz perder de vista o essencial da Palavra feita Vida em Cristo. a diversidade não traz diluição e isso é espantoso.
quanto às famosas intersessões e rituais e, sobretudo, o conceito de sacramento, não será isso o que nos une e o que nos faz permanecer humildes.
não será uma comunidade evangélica, muito mais restrita e homogénea, uma forma muito mais potente e formatadora de intersessão. será que os protestantes a leitura individual da Palavra é assim tão mais importante que a prédica do pastor? será que eles conseguem todos ler a narrativa em liberdade face ao que lhes foi ensinado na escola dominical. não serão afinal semelhantes a nós na intermediação com Deus? eu penso e penso que a Bastet também o pensa, que permanecer na Igreja discordando dela é uma liberdade enorme, perante ela mas sobretudo pernate nos próprios, perna te os nossos egos. dizia há tempos o Tiago Cavaco que um protestante quando discorda do pastor sai da sua igreja e se necessário funda outra. será mesmo assim num meio fechado, numa comunidade tão próxima e tão zelosa da sua condição minoritária? sinceramente não me parece: um ex-evangélico (lembras-te do André Esteves?) é sempre alguém mais torturado que um ex-católico...
ao contrário do tiago, eu diria que se concordasse com tudo o que diz a Igreja católica (o que é impossível, tantas são as contradições) então sim é que eu sairia dela!

josé disse...

a frase «quanto às famosas intersessões e rituais e, sobretudo, o conceito de sacramento, não será isso o que nos une e o que nos faz permanecer humildes.» deverá naturalmente se rlida com ponto de interrogação no fim.

a-bordo disse...

José. Há muitos motivos para a desconfiança e eles aparecem todos e a toda a hora; e é essa desconfiança que é sublinhada nos nossos tempos, era da suspeita; daí, uma das motivações desta série de posts. Virar agulhas para outro lado. Sublinhar a confiança. E como ela pode subsistir no meio da desconfiança justificada e injustificada. Mais do que bater nos que desconfiam. Isto porque penso que a Igreja católica desperdiça capital acumulado; muitas das vezes porque vai a reboque das críticas; não que não as deva levar em consideração; isso seria o pior que poderia fazer; mas porque não raras as vezes se dedica mais a descontrui-las, destrui-las, do que em pensar alternativas; esse trabalho de procura de alternativas é um dos trabalhos que eu pessoalmente mais prezo: e uma das alternativas à desconfiança passa por realçar aquilo que merece confiança. Coisa que não é muito difícil de fazer: está ai à vista de todos; por exemplo, aqui não digo rigorosamente nada de novo; apenas repito. Enfim. Outros assuntos: já disse no corpo do blog e em comentários que não discuto pretensões; constato-as. No caso do catolicismo e no caso do protestantismo. O que não quer dizer que não possam nem devam ser discutidas. Quanto à unidade e à diversidade, há tempos, que ando para meter obra nisso. Mas por uma série de razões, penso que o tema não é nada fácil de tratar. Primeiro porque seria necessário conhecer toda a amplitude da diferença. Em segundo lugar porque seria necessário conhecer com rigor aquilo que nela é igual. Contudo, até porque recentes declarações contra o relativismo lançam algum fumo sobre este assunto, penso que seria uma tarefa bem interessante de ser levada a cabo. Um abraço.