1 de maio de 2005

Alvin 32.
Apanhei o Almanaque do Tio Patinhas que a minha mãe me tinha atirado à cabeça. Ao apanhá-lo, uma carta caiu ao chão. Estava aberta: «Mãe, a Luísa deixou uma carta!» – Ouvi-a responder: «A tua irmã disse que a carta era para ti!» – Havia dentro outro envelope dirigido a mim. Abri-o. Era Alvin: «Olá, espero que esteja tudo bem contigo. Manda um beijo à tua tia. Diz-lhe que foi minha felicidade conhecer uma senhora tão perspicaz. Manda um abraço ao professor e não te esqueças de ir visitá-lo. Eles merecem. E merecem também que seja dissolvido algum mistério que lhes foi bater à porta… Eis, entretanto, o que posso contar. Tudo começou quando comecei a escutar emissões de rádio, onde o meu actual nome, bem, actual não é, era sistemática, repetida e obsessivamente evocado. Fiquei curioso. Indaguei. Certamente saberás que o professor tem uma página na net onde relata os seus interesses. Quanto mais o conhecia, mais intrigado ficava. É de convir que vinho, Kubrick, teologia contemporânea, astronomia, objectos vistos e não identificados, solidão, é uma mistura intrigante. Contudo, podia ser apenas um excêntrico. Não seria mau. Todavia, depois de ter encomendado vinho, pude constatar que se era o professor era um homem excêntrico, não se ficava apenas pela conversa. Era empenhado, fazia. E crente: um crente excentricamente fazedor. Sei que o interesse pela teologia é recente. Mas depressa aprenderás que muito do que melhor apareceu na sua história, veio por mãos excêntricas. Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino. Por isso, fiquei alerta. O professor não dava sinal de abrandar. Não obtinha resposta do espaço e continuava. Coisa difícil, mesmo para o mais abnegado dos pregadores. Tudo isso fazia crescer em mim o desejo de o conhecer. Resolvi-me. Contudo, tinha, tenho, sempre tive, uma série de trabalhos… Poderás constatar que Alvin continua por cá. Se Deus quiser, continuará. Quando resolvi conhecer o professor, tive de pôr em cena um duplo. Surpreendente!? – Nem tanto. Talvez, todos tenhamos um. Não só Elvis. Ou Sadham. Eu tenho. Conheci-o há anos num bar e ficamos espantados com a semelhança nos traços fisionómicos. Mantivemos contacto durante anos, ele acabou por ler tudo o que escrevi, e mesmo antes, já me tinha ajudado. É uma longa história. E isto é uma carta, não um romance. Mas posso dizer-te que foi ele quem apareceu, por exemplo, na série de conferências que fiz em Londres. Conferências que nos deram mútuo gozo e proveito. Poderás inquirir: não poderão agora as autoridades pôr em causa a sua identidade? – Podem. Mas nada adianta. E só lhes pode trazer problemas. Teriam de explicar mais do que querem. E arriscar perder uma fonte de receitas. Alvin vende. Por isso, penso que lhe estarão a facilitar as coisas e que os dados biológicos do antigo Alvin devem ter desaparecido. Espero que sim. Todos ganham com isso... Bom, voltemos ao assunto. Tinha programado o seguinte: ele seguia para a Austrália, para uma série de conferências, eu ia para aí. Fui. Como? – Numa nave espacial, se quiseres, num objecto detectável pelos radares. Não sei porquê, falta de prática, não usava há muito o transporte, não acertei com a casa do professor. Dei um tombo, felizmente perto do destino. Encontramo-nos. A sorte acompanhava-me: a tua tia não é pessoa para se atarantar. Com o tombo, quem estava atarantado era eu. E tanto que quando te vi, apenas fui capaz de balbuciar a frase com que o professor iniciava as transmissões e que deviar estar bem colada na minha memória: um lençol de teologia para o espaço. Não demorei muito a recuperar as capacidades intelectuais e peço por isso desculpa por te ter feito tanto sofrer às mãos de tua tia. Mas, por outro lado, não podia desfazer o disfarce. Aqui, mistério. Sou pequeno. Mais pequeno do que possas julgar. Mas não marciano. Extra-terrestre, sim. Marciano, não. Fiquei marciano para não me tornar estranho ao ambiente do professor. Ele acreditava em seres espaciais, transformei-me num. Já viste a minha foto. Concederás que é mais fácil tornar-me numa bolinha marciana do que no ser cheio de ângulos que fui. Sabia que me seguiam. Mas sabia que não podiam aterrar perto de Amarante. Há o Sá Carneiro, bases aéreas, mas não poderiam aterrar sem terem de lidar com alguma confusão. Sabia que estava à frente. Mas, não confiando. Na casa do professor, tudo parecia correr bem. O professor era o que eu esperava: um grande homem! - O que eu não esperava era que tivessem ido a minha casa e vasculhado o escritório. Já me deviam ter sob vigilância. Só pode ser. Desde quando, não sei. Porquê, também não. Embora, o chapéu texano de que tanto gosto não seja para quem não quer dar nas vistas. Com os mapas e as garrafas de vinho, acho que seguiram um palpite que qualquer um teria seguido. Por isso, apareceram em casa do professor. Quando vi chegar a polícia, fiquei preocupado. Não comigo. Ando há muito nisto: séculos ao esconde, esconde. Já nos encontramos. Não conhecem o modo como me podem prender. Não que não possam. Ou que não possam tentar. Mas não sabem. O quê? – Manda a prudência que não o diga. O que te posso dizer é que estava preocupado com o professor. Com a tua tia não haveria problema. É uma mulher que conhece os limites da crença. E penso que gosta o suficiente de ti, para usar todos os meios que possam evitar que passes por maluco expondo publicamente esta história. Para mais nada, a não ser para dificultar essa tentação ao professor, coloquei fora de uso o computador e a aparelhagem rádio. Pede-lhe desculpa pelos estragos… Quanto ao resto: tudo o que fizeram foi observar-me; acumular dados. Não sabem que por mais dados que acumulem, falta ainda a boa hipótese. Dificilmente a encontrarão. Mas é como tudo: nunca se sabe… Poderás, então, perguntar porque é que fiquei tanto tempo. A razão é simples. Fiquei o tempo que julguei necessário para que vocês não pudessem duvidar da minha existência. Porque eu, mesmo eu, também eu, de vez em quando, preciso que alguém se lembre que existo.

13 comentários:

Bastet disse...

Temos pois que os extra-terrestres também precisam de que nós nos lembremos da sua existência e de que acreditemos nela. A nossa fé e memória é-lhes fundamental. Mas a nossa fé e memória precisa de alimento. Creio que andamos carenciados dele. Falo por mim. Um beijo.

CAP disse...

Gostei! :)

Bastet disse...

os extra-terrestres deveriam ter sido ladeados por aspas e quem sabe se iniciados por maíscula majestática. Assim: "Os Extra-Terrestres". E talvez no singular... Diz-me tu.

a-bordo disse...

obrigado C.A.P. por teres deixado aqui o teu apreço.

a-bordo disse...

Bastet, não sei se percebi; eu que cultivo a alusão, tenho agora que me queixar: o que dizes é muito alusivo.

Bastet disse...

Deus é um Extra-Terrestre? E precisa que nós nos lembremos Dele?

a-bordo disse...

Uma coisa é segura: nós precisamos. Embora talvez devêssemos procurar compreender melhor a atenção de que precisamos. Outra segura: longe de mim imaginar o marciano extra-terreno Alvin debaixo da figura de Deus. Há outras possibilidades. Tenho pena que a cultura que temos, tenha deixado o maravilhoso de lado. Anjos, arcanjos, potestades, tronos. Outros. Já um dia me meti por aqui na aventura de pensar o maravilhoso, mas não cheguei a grande lado, confesso. A terceira: a natureza de Jipe foi pensada preguiçosamente. Ninguém ligou muito a isso. Eu também não. Tem por isso, contornos pouco definidos. Saindo disto: se Deus precisa que nos lembremos dele, é uma questão difícil. Porque depende do modo como é concebido Deus e do que entendemos por precisar. Aqui, fazendo uma pirueta para a frente, e com um golpe de parafuso voador, para não ficar nas alusões do costume, sempre te digo que gosto de pensar que Deus sofre com as nossas crueldades. Mas, não sei se este é apenas um gosto meu.

Bastet disse...

Esteve sempre claro para mim que não tinhas pensado o Jipe de forma divina mas encontrei algum paralelo na necessidade de acreditar. Paralelo extensivo ao maravilhoso e ao fantástico de que não prescindo. Acredito que Deus tenha necessidade dos homens e da sua fé e também por isso partilho contigo a ideia de que ele sofre com as nossas crueldades como um pai sofre com as dos seus filhos. Um beijo e obrigada por teres dado vida ao Jipe.

a-bordo disse...

Bastet: para ti hoje logo pela manhã um muito obrigado pelas conversas que me possibilitas ter.

Bastet disse...

Retribuí como pude no meu blog frágil e piegas LOL. Um beijo.

vague disse...

Entrei a bordo via felina Bastet e encontro aqui tb o meu amigo Cap :)
Bem frequentado este blog, diga-se :)

Gosto pq sim, sabe-se lá porquê. Pq é um texto estranho, sinuoso, bonito? Pq está no limbo entre a realidade e o etéreo?
Gostei :)

a-bordo disse...

Vague, bem vinda, então:)

Anónimo disse...

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