3 de maio de 2005

Catolicismo 3. A justificação do desconhecimento que o soldado raso católico tem do catolicismo pode derivar do facto de o catolicismo apostar forte na mediação. Ao contrário, por exemplo, do protestantismo que tenta, – digo, e não mais, pois, levaria à discussão de pretensões – numa relação não mediada com Deus, o catolicismo aposta numa relação mediada pela Igreja. O protestantismo obriga a um conhecimento directo, o mais directo possível, por exemplo, a ler, conhecer, directamente, a Palavra. Uma imagem ortodoxa: o homem face ao Livro. Claro que em certos matizes protestantes, há também espaço para a mediação. No caso do conhecimento, e no caso do luteranismo, espaço ocupado pelas faculdades de teologia. Contudo, nenhuma com o peso de uma conferência episcopal ou de um concílio. Entretanto, isto é trabalhar cinzento. Voltemos ao preto e branco. Assim: no catolicismo, há espaço para outro homem: padre, bispo, cardeal, Papa. Fora de juízos de valor, é constatável que a introdução deste homem, pode evitar o desconforto de quem habita num certo registo de desconhecimento. Quando não conhece, conhece o padre, quando este não conhece, conhece o bispo, o cardeal e o Papa. O contrário, também, pode – deveria – ser verdade, mas levar-nos-ia certamente demasiado longe. Seja como for, esta cadeia de delegação, repartição, partilha, de conhecimento, por um lado, evita o problema do homem com pífaro, bombo e concertina na mão, por outro, permite que cada católico possa viver sem problemas de maior com aquilo que no catolicismo não conhece: o que não conhece é conhecido por outro, abaixo, acima, ao lado. No entanto, a cadeia só é funcional se for marcada pelo selo da confiança. O que nos leva então ao tema da confiança:

13 comentários:

Bastet disse...

Mais que à confiança leva muitas vezes à cega credulidade e ao confortável comodismo. Foi junto dos protestantes que aprendi a estar mais próxima da Palavra, conhecendo-a. Não entrando para já nos problemas interpretativos de ambas as partes - católica e protestante.

Anónimo disse...

Para mim, como evangélico, é interessante esta defesa dos intermediários. Parece, no entanto, que há aqui alguma confusão entre solidariedade e responsabilidade.
A grande revolução de Jesus Cristo foi a possibilidade do Homem ter acesso directo a Deus. Deixaram de ser precisos os secerdotes e os rituais. Através Dele chegamos directamente ao Pai.
Esta nova liberdade tem, no entanto, uma contrapartida: a responsabilidade. Tal como não é argumento para o polícia que nos viu passar o sinal vermelho dizermos que o amigo que levamos ao lado nos disse para avançarmos, também não podemos delegar a nossa responsabilidade perante Deus noutra pessoa ou instituição. Se Ele nos dá a liberdade total quem somos nós para abdicarmos dela?
E vem então a solidariedade. Se virmos a Igreja como Cristo a definiu, como um corpo do qual Ele é a cabeça, então percebemos que precisamos uns dos outros. Como orgãos destintos. Com qualidades, capacidades e dons diferentes. Mas "suportando-nos uns aos outros", como diz o Novo Testamento.
O facto de viver a minha fé em comunidade não diminui em nada a minha responsabilidade. Porque Cristo removeu todos separações entre mim e Deus deixa de ser possível argumentar como defesa com a ignorância ou o ensino errado.

a-bordo disse...

Bastet, dizes: «leva muitas vezes à cega credulidade e ao confortável comodismo», mas, por certo concordarás, que levará outras ao desconforto – pensa na posição perante o actual Papa de muitos católicos – ou, perante alguns problemas deste modo de funcionamento – e irei falar disso – que por isso se viram obrigados a afinar, muitas das vezes, com fortes dores pessoais, a sua fé. Por isso, penso que o problema não está propriamente neste modo de funcionamento. Onde estará?

a-bordo disse...

Caro amigo anónimo: não há confusão entre solidariedade e responsabilidade; nos termos que usa, há apenas um post que incide sobre a primeira; e apenas no que concerne ao conhecimento; é verdade, que se pode também fazer derivar desta noção de solidariedade, a questão da responsabilidade. Não a abordo aqui, não só porque tornaria a discussão demasiado alargada; e porque apenas tenho um ponto de vista, note, provisório sobre o assunto. Este vive da analogia: tal como no corpo da minha vida, o corpo que agora é, é responsável por todas as cabronices que cometi no passado – longa lista –, também a Igreja de hoje, como corpo que é, é responsável pela longa lista de crimes que o seu corpo cometeu. Como eu tenho que assumir o que antes fiz no corpo da minha vida, também os membros da Igreja têm de assumir e partilhar aquilo que a Igreja antes fez. Mais uma vez, sou eu a falar, provisoriamente… Quanto ao resto: é afirmada da sua parte a posição protestante. Poderíamos discutir a pretensão de uma relação sem mediação, discutir se Jesus não é o primeiro dos mediadores, em que medida, se a leitura “solitária” da Palavra não implica mediação porque interpretação, e muito mais, mas assim nunca mais acabávamos. Esperando que continue a ler e a comentar. Um abraço e um obrigado.

Bastet disse...

Leva de facto muitas vezes ao desconforto. Não levará porventura ao afinar da fé mas sim do discurso e isto se quisermos ser com ele concordantes. A fé é em Deus. Não no sistema nem nos homens que o compõem. Não será?

a-bordo disse...

podia massar-te com alguma distinção que presumo - sem grande sustentação diga-se - existir na concepção da fé, conforme é pensada no lado protestante ou no católico; se alguém quiser entrar por aí, agradeço, porque neste campo todas as informações são bem vindas; eu não o vou fazer; mas para não deixar a questão sem resposta, digo que o melhor que encontrei quanto à fé é o seguinte: para mim, fé é uma crença que transforma; isto é habitualmente pensado em situação teológica: a fé em Deus é uma crença que nos transforma: melhora; penso, entretanto, que é possível e real - pensa nos filhos - acreditarmos em outra pessoa e que essa crença nos transforme e nos torne melhores; fica então a questão: não é isso também fé?

Anónimo disse...

Caro a-bordo

Eu é que agradeço o facto de ter este blog como leitura regular há mais de um ano.
Realmente tem razão. Estes assuntos da fé e da mediação levam-nos ao coração das divergências católicos/protestantes. Em última análise vamos ser confrontados com a Bíblia. Única regra de fé e práctica (protestantes)? Ou Bíblia + magistério da Igreja + tradição (católicos)? Também não tenho pretensões a resolver o "problema" num comentário a um post. Falei-lhe do que acredito. Apenas isso.
Só uma nota sobre a natureza da fé. Tem razão quando diz que a fé transforma, melhora. É verdade. Mas a característica mais importante é a salvação. Sem ela não podemos chegar a Deus. Talvez por isso a palavra "crença" não me pareça muito adequada. Porque dá a ideia de uma vontade, de um esforço, humano. um acreditar com muita força. Ora, a fé é um dom de Deus. Algo que nos transcende, e a que nunca chegaremos pelos nossos próprios meios.

Um abraço

Bastet disse...

Por motivos vários e alguns anos de dedicação não vinha questionar-te sobre a concepção da fé. A fé em Deus leva-nos a acreditar mesmo quando todos os dados racionais nos levariam à dúvida - Sei-o. Também nos transforma e também eu penso que em pessoas melhores. A "fé" nos outros é coisa diferente. Chamar-lhe-ia amor. Esse é o ensinamento de Cristo e forma de chegarmos a Ele e aos outros. Os sistemas das instituições levam-me muitas vezes à dúvida mais do que à fé. Não "afino" a minha fé pelo discurso do sistema. Um beijo e obrigada por me dares resposta.

a-bordo disse...

Começo por fazer um meta-comentário: os comentários são interessantes por várias razões; uma delas passa por permitirem derivas que à partida não seriam feitas; por isso, gracias; continuo com um intra-post: é uma constatação banal mas por vezes a linguagem que usamos é a mesma mesmo quando siginfica coisas diferentes, ou pelos menos matizadas; por exemplo, tenho razões não expostas para usar o termo "confiança" nesta série de posts e não o termo fé; entretanto, o termo veio à baila; e de conversa em conversa vai sendo afinado; digo aqui apenas o seguinte: penso a fé num ritmo trinário: 1. doacção divina - e acrescento assim aqui a aportação que ainda não tinha aparecido e que o amigo anónimo sublinhou, que 2. me leva a crer - que o amor nunca será vencido, por exemplo, e 3. - por causa dos demónios que murmuram e crêem e ainda não se modificam, crença que me modifica: melhora.

ps1. Bastet continuo a achar que é possível fazer o caminho ao contrário: a pessoa que me modifica e me melhora, quando creio nela, é para mim, um caminho para Deus.

ps2. ao amigo: como irão ser ditas coisas sobre o protestantismo que podem não estar correctas, nesta tentativa de clarificar uma visão sobre o catolicismo, gostaria de poder continuar a contar com a sua leitura e clarificação.

obrigado aos dois.

Bastet disse...

É claro que todos somos crianças aprendizes nalgum conhecimento e também na fé. Pessoas há que são bons mestres escola, que nos melhoram e transformam e nos ensinam o caminho e nessas temos confiança e amor mas a relação de fé é para mim apenas com O Mestre Escola.

Anónimo disse...

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