9 de maio de 2005

Catolicismo 10. É pelo menos do tempo de Agostinho a concepção de uma Igreja a duas velocidades. Numa imagem a preto e branco: uma Igreja dos santos que coexiste com uma Igreja dos pecadores. O preto e o branco simplificam um pouco as coisas, mas servem. Comecemos por ver como esta concepção possibilita prevenir a desilusão, e por isso, prevenir o despoletar de altos graus de desconfiança. De uma coisa está livre o católico. Que lhe digam que o padre, bispo, cardeal, Papa não têm pecado. Que já alcançaram a Iluminação. Que lhe digam que o irmão que se senta a seu lado na Missa é um eleito. Que pode ter a certeza que carimbou o bilhete para o Céu. Antes pelo contrário. Se a Igreja é uma Igreja de pecadores, dizem-lhe – por pouco que seja e não é preciso muito, pois ele sabe porque anda por lá – que o seu irmão é pecador, dizem-lhe – por pouco que seja e não é preciso muito, pois ele sabe porque anda por lá - que o padre come vezes de mais à mesa com o rico e se esquece frequentemente do pobre, que o bispo, o cardeal, o Papa, se ocupam mais com sotainas, e menos, muito menos, com as vestes que vestem a alma. Assim, alertado, e num alerta mil vezes confirmado, se não pode reclamar inocência, se não pode reclamar ilusão, ainda assim pode continuar confiante, porque a sua Igreja resolve de vez em quando acentuar outra velocidade: