10 de abril de 2005

«Esta carta, se por um lado agradou a Nekliudov, desagradou-lhe por outro. Agradou-lhe porque se sentiu possuidor de uma grande fortuna, mas desagradou-lhe porque se lembrou da sua mocidade e do tempo em que fora um adepto entusiasta das doutrinas de Herbert Spencer. Na sua qualidade de proprietário de bens de raiz, a tese, desenvolvida no Social Statics, segundo a qual o ideal de justiça não podia conciliar-se com a posse da terra, atingira-o com particular premência. Nessa época, animado pela franqueza e pela decisão próprias da juventude, não se contentara em proclamar que a terra não podia estar sujeita a uma apropriação privada nem se limitara a escrever, na Universidade, trabalhos sobre este assunto; fora mais longe. Passando da teoria à prática, renunciara a uma parte das propriedades, que lhe vinham da herança paterna, em favor dos camponeses, não querendo assim possuir terras que contradissessem os seus princípios. E agora que se tornara, mais uma vez por herança, um grande proprietário, tinha de seguir um de dois caminhos: renunciar aos direitos sobre duzentos hectares da herança paterna ou, por um acordo tácito, reconhecer como falsas e mentirosas as ideias que outrora sustentara.
Nekliudov não podia adoptar a primeira solução porque não possuía outro rendimento a não ser o das suas terras. Também não estava disposto a reingressar no exército e, por outro lado, não achava possível perder os hábitos de luxo a que se sentia muito ligado. Além disso, para que serviam todos esses sacrifícios se ele já não sentia a convicção, a capacidade de resolução, a vaidade e o desejo de surpreender que o moviam na juventude?» – Leão Tolstoi, Ressurreição.