31 de março de 2005

p.s. o pecado e a afectividade. Tradução free.
Alvin 11.
«O pecado original envolve ambos, o intelecto e a vontade; é simultaneamente cognitivo e afectivo. Por um lado, transporta uma espécie de cegueira, uma espécie de não percepção, burrice, estupidez. Isto é uma limitação cognitiva que antes de tudo impede a sua vítima de ter conhecimento de Deus, da sua beleza, da sua glória, do seu amor; impede-o também de ver o que é necessário amar e o que é necessário odiar, o que deve ser procurado e o que deve ser evitado. O que implica que compromete quer o conhecimento de facto quer o conhecimento do valor. Mas o pecado é também e talvez primeiramente uma desordem ou disfunção afectiva. As nossas afeições são enfraquecidas, dirigidas para objectos errados; amamos e odiamos as coisas erradas. Em vez de procurar primeiro o reino de Deus, eu inclino-me a procurar primeiro a minha própria glorificação e engrandecimento, concentrando todos os esforços em parecer bem. Em vez de amar Deus acima de tudo e o próximo como a mim mesmo, eu inclino-me a amar-me acima de tudo e a odiar Deus e o próximo. Muito deste ódio e desta hostilidade sopra do orgulho, o pecado original, e das tentativas posteriores de auto-engrandecimento. Pensamos em obter as boas coisas do mundo como um jogo de somas: qualquer bocado que tenhas é um bocado que não posso ter – e querer. Eu quero ser mais conhecido do que tu, assim quando, por vezes, tu fazes algo de notável, fico com inveja de ti. Eu talvez queira ser rico. O que conta não é quanto dinheiro tenho, absolutamente falando: o que conta é se tenho mais do que tu, ou da maioria das pessoas, ou de toda a gente. Mas quando tu e os outros são obstáculos para a realização dos meus desejos, eu começo a ficar ressentido e a odiar. Deus, a fonte do meu ser, pode ser também uma ameaça. No meu desejo orgulhoso de autonomia e de auto-suficiência, posso vir a ficar ressentido com a presença de alguém de quem dependo quando respiro e que por comparação me mostra no tamanho de uma pequena batata. Eu posso vir a odiá-lo, pois quero ser autónomo, não estar dependente de ninguém. Isto talvez seja a raiz mais profunda da condição de pecado.
O defeito aqui é afectivo, não intelectual. As nossas afeições estão desordenadas; elas já não funcionam de acordo com o plano original de Deus para os seres humanos. Existe uma falha na sua função própria, uma desordem afectiva, uma espécie de loucura da vontade. Nesta condição, nós sabemos (em algum modo e em algum grau) o que é para ser amado (o que é objectivamente amável), mas, ainda assim, perversamente voltamos as costas ao que deve ser amado e substituímos o amor por outra coisa qualquer. (…) Nós conhecemos (em algum nível) o que é direito, mas fazemos o que é errado; nós sabemos que devemos amar Deus e o vizinho, mas ainda assim preferimos não o fazer. Isso, é claro, levanta uma questão antiga, que nos leva a Sócrates: pode uma pessoa realmente fazer aquilo que conhece ou crê como errado? Se ela vê o que é correcto, como pode ainda assim fazer o que é errado? A resposta é suficientemente simples: ela vê o que é correcto, mas prefere aquilo que é errado. Sócrates falhou ao ver a possibilidade da desordem afectiva, como algo oposto à deficiência intelectual ou ignorância. Na ausência da desordem afectiva, talvez, de facto, eu não possa ver o bem e preferir o mal, conhecendo-o como mal. Desafortunadamente, entretanto, eu não posso contar com a ausência dessa desordem; o pecado é, em larga parte, precisamente tal desordem. Por causa dessa disfunção afectiva, eu desejo e procuro o que sei ou creio que é mal.»
Alvin Plantinga, Warranted Christian Belief, Oxford University Press, New York, 2000, pp. 207-209.