9 de fevereiro de 2005

Empastelar 8. A propósito do Carnaval. O Carnaval é uma hipótese de des-empastelar. Usualmente, o que existe por cima, por fora, falando com os topos de Freud, empastela doses de creme, para colar o que existe por baixo, por dentro. O processo de aprendizagem cultural é também – é outras coisas, mas disso não tratamos agora -, um trabalho de empastelar e um empastelamento feito para ligar feridas narcísicas, desejos avarentos. Nessa perspectiva, podemos dizer que, ao contrário do que se pensa, a aprendizagem cultural nada tem nada a ver com as indicações que me foram dadas pela professora de Introdução à Política, nos idos anos da Revolução, “há que aprofundar, o menino não aprofundou a luta das classes”, para justificar os meus suficientes, pois, nesta perspectiva, o processo de aprendizagem tem sobretudo a ver com um processo desastrado e frenético de dar à barbatana para subir para a bóia e para cima da borracha aí ficar de gin na mão… No Carnaval, toda a gente o sabe, o processo posto em andamento pela cultivação cultural fica de pernas para o ar; de pernas que se esticam em direcção ao fora, embora, nunca ao ponto de as raparigas usarem longos pénis de silicone, ou de os rapazes… O Carnaval mostra que é possível viver num regime de des-empastelamento. Mostra que os traumas mais profundos, os desejos avarentamente modelados, encontram periodicamente uma forma que não desdiz o fundo. As calças não desdizem o cu. Mostra por outro, que o resto do tempo e o resto do ano, o empastelamento rules, e que o eu sou um outro rimbaudiano não é frase de marginal mas frase de um poeta que vota no bloco central.

P.S. - Obrigado ao C.A.P. e ao seu Rimbaud.

1 comentário:

CAP disse...

:) O Rimbaud nunca votaria no bloco central...