2 de abril de 2005

O Timóteo, na terra, traz as Partículas Elementares e uma breve história de algumas preocupações comportamentais mais fortes do século vinte. A tese descrita e que percorre partes do romance de Michel Houellebecq parece defensável: a vida de Sade pode ilustrar o caminho que vai dos hippies a Charles Manson. Da procura da satisfação pelo sexo, à procura da satisfação pela violência. Tal trajecto é reactualizado de diversas formas. Essa tese é conjugada em Houellebecq com uma segunda. Vivemos para afastar a velhice. Velhos, queremos ser juvenis. Tese plausível. É a roupa, são os cremes, o modo como os velhos falam. No entanto, penso que, no século vinte, maior do que o medo da velhice é o medo da morte.

9 comentários:

timshel disse...

Penso que no referido livro a aversão à velhice surge como um sub-produto do hedonismo libertário. Parece-me de facto estruturalmente incompatível o exacerbar do princípio do prazer com a aceitação do princípio da realidade. Freud dixit...

a-bordo disse...

O que merece mais reflexão. Não prometo consegui-la, mas vou tentar.

Anónimo disse...

Fernando (e ao Terra)
Algumas reflexões (como leitor) que pretendo que não me sejam levadas a mal, mas apenas discutidas se achares que o merecem.
(1): Accionismo vienense, beatnicks, hippies e assassinos em série … , porque não o marxismo ou, agora tão em voga, as ciências da educação… nunca vi tamanha enormidade e não posso esperar que estejas de acordo. Associar modos da afecção de certas culturas juvenis (com o que tiverem de melhor e de pior) ao acto criminoso é pura e simplesmente uma reedição, em estilo pós liberal, do doce bode expiatório (bruxa, judeu, muçulmano, cigano… Maio de 68, um dia chegamos a João XXIII etc.). Associam-se efeitos os mais díspares – mas que comummente não apreciamos! - e postula-se o resto. Isso é simplismo! Como concordarás, não é amaldiçoando os passos anteriores que atendemos ao percurso, mas que o desbaratamos. Essa é a lógica da agressividade da criança que parte o brinquedo que a magoou. E nota que isto não é negar ‘atractores’ entre as vagas e as vogas do mundo, simplesmente exigir seriedade na sua procura e descriminação. Uma coisa é, porque os homens vivam em conjunto, tentar perceber como, de que modo e com que razões emergiu tal ou tal fenómeno, nomeadamente o crescente individualismo das sociedades ‘civilizadas’. Outra é atar tudo o que não gostamos num mesmo lenho e reclamar o fogo.
(2): Somos velhos e queremos ser juvenis ou tudo nos convida a isso? Dos anúncios ao adiamento da idade de reforma? E, desculpa-me a frontalidade, o medo da morte – pelo menos até àquele momento em que ela está aí – parece-me vício de um pequeno número de almas espiritualizadas, mas ainda não o suficiente para terem esse outro medo mais profundo, em minha humilde opinião: o de não se estar à altura da pouca porção de vida que lhes foi dado viver. Isso sim, considero importante e um medo digno de apreço. O ser humano quotidiano, homem saudável, esse, não pensa muito nisso, nem numa nem no outro (pelo menos nestes termos). Para isso, pacificadoras do nervo vital – o que não é retirar-lhes nada –, existem as Igrejas e as instituições do mundo civil. Para amparo do pensar bem com os outros, segundo os territórios. O homem no dia-a-dia não teme a morte. Na realidade muito raramente pensa nela, ela faz parte de outro filme, mesmo quando é certa para todos. E, nisto Nietzsche tinha toda a razão, é nesse poder de esquecimento, de ilusão, que pode vicejar qualquer coisa. É claro que ele simplesmente eliminou o problema do juízo que razoavelmente deve limitar o nervo vital (na realidade a outra face do nervo vital em seres possuidores de razão, seres que equacionam não só o ser mas também e poder e o dever ser), mas isso é o problema de como reaprender a re-integrar a morte e a crença, respeitosamente, no seio de uma sociedade hedonística.
(3): Finalmente, o José tem razão, no geral, embora o seu texto esteja repleto de ‘presumíveis’, eles próprios, extremamente ‘classificadores’…
Porque é que a moral, quase que inevitavelmente, usa de imagens moralistas e a sincera boa vontade pode, tão facilmente, cair nesse orgulho pessimista que exclui e classifica no próprio discurso com que pretende o avesso? Sinceramente, e precisamente porque, como sabes, aprecio o abordo e a terra, a mensagem, os interesses que pretendem manter vivos não ganhariam, não exigiriam mesmo o evitar a tendência ao ralho e à prédica (…e não é por estar na moda!) ? Não apenas a questão esquerda direita é, em certo sentido, tão relevante no Terra, como a questão da Trindade seria pertinente num debate entre Santana e Sócrates (o Diabo certamente escolherá, como sempre ao serviço do bem, Mefistófeles dixit), como, fora um ou outro aparte, tais questões da cultura religiosa ocidental são mal tocados, onde o contrário seria de esperar. Mais uma vez peço desculpa pela frontalidade, mas algo mais próximo do Mostarda mas mais elaborado seria, sem qualquer dúvida, mais enriquecedor do espaço que pretendem construir e talvez algo mais humilde.
Com um abraço
C.M.

a-bordo disse...

C.M. - são sérias as objecções e as razões, e por isso finda a leitura do comentário não posso responder de imediato. prometo pensar no que é dito e em devido tempo dar conta do que esse exercício tiver produzido. por fim: resta a agradecer tão pertinente reflexão. abraço.

a-bordo disse...

Deixo para o corpo do blog, alguns considerações que penso ser de interesse mais alargado e deixo aqui apenas algumas considerações cujo interesse penso ser mais “privado”.

Não tenho qualquer procuração do José, mas como poderá ser facilmente constatado nas referências que por aqui lhe vou fazendo, discordo da avaliação que é feita no comentário. Penso mesmo que a tradição cristã que o enforma o autoriza a usar o “ralho”; muito disso é parte integrante da tradição profética. Quanto à terra, e ao que se discute na terra, mais uma vez sem procuração, embora ache que a discussão da Trindade lá poderia fazer todo o sentido, também lá faz sentido a questão de traduzir ou não a mensagem intemporal cristã no contexto presente e esse contexto é marcado pela política e pela divisão esquerda, direita. Por isso, tenho perguntado aos amigos da terra, como jogam eles a mensagem cristã com a mensagem política que também professam. Embora, pressuponha, talvez, talvez, talvez, e um talvez a que não sei como dar a cara, que os cristãos, ou alguns deles, devessem mudar o rumo das usuais articulação entre política e cristianismo, ou com mais rigor, as habituais articulações entre o catolicismo e a política. Mas para mim, é cedo para esta conversa. De algum modo, penso, no entanto, que o parágrafo final do texto do José na última terra aponta qualquer coisa nesse sentido:
«Antes pelo contrário. Já que os partidos e os governos não fazem nada por isto, fica assim acrescida a nossa responsabilidade individual de cidadãos, de seres humanos, de cristãos. Olhemos à nossa volta e descubramos aquilo que podemos fazer para tornar a vida dos que nos rodeiam um pouco melhor do que é. Em casa, no trabalho, na rua. Recuperemos a ideia cristã da caridade, da solidariedade, do amor pelo próximo e ponhamo-la nós em prática. Talvez transformemos um pouco tudo isto, transforma-nos-emos certamente nós próprios.»

josé disse...

Fernando, não conhecia o teu amigo CM mas tenho de reconhecer que ele diz aí em cima umas coisas certas. Particularmente quando pergunta "Porque é que a moral, quase que inevitavelmente, usa de imagens moralistas e a sincera boa vontade pode, tão facilmente, cair nesse orgulho pessimista que exclui e classifica no próprio discurso com que pretende o avesso?" Muitas vezes tenho pensado nesse orgulho pessimista, de antiga tradição queiroziana, hoje com tantos seguidores sobretudo nesta área mais à direita (o VPV, o António Barreto, etc)e que tantas vezes me invade. Tu sabes bem que o orgulho é o pecados que mais temo e sem dúvida que aquele texto, escrito por irritação, foi também alimento para o meu ego. E o CM percebeu bem isso.
Quanto aos outros comentários que faz ele sobre a Terra e que são igualmente pertinentes, podias dizer-lhe que o que a Terra é não é mais do que o somatório das sensibilidades daqueles que lá escrevem. A melhor forma de ele lhe introduzir o que lá falta é ele próprio entrar também nela. Por mim recebia-o de braços abertos.

a-bordo disse...

José, por mim, apenas reitero o teu convite.

Anónimo disse...

Inclino-me perante o José para quem vai também o meu reconhecimento, mas como o Fernando saberá não partilho a grandeza da vossa fé e sou demasiado pecador para tripulante, pelo que se agradeço tenho que declinar. Não deixo todavia de apreciar seriamente o vosso projecto num mundo como o de hoje – ou o exemplo de Frei Domingues – , e só por isso atrevi partilhar reflexões perante as quais, afinal, sois ‘responsáveis’. Também para isso servem os comentários.
A equação Sade=Hippies=serial killer alvoroçou-me. Não em defesa de qualquer contra cultura – que como tal se bastará –, mas por ver nela pairar a sombra da América Vermelha e, note-se, não falo primeiramente de política, mas do perigo de um integralismo intransigente que tem os seus sinais. Sei não ser esse o caso, também por isso quis que o deixassem claro. Para que também fique claro, falo da América Vermelha porque é o que aqui, na tradição ocidental de raiz cristã, é relevante e se tornou, temo-o, paradigmático.
Com que direito posso pedir-vos mais humildade – logo eu que recebi mais uma lição de humildade do José –, mais cultura religiosa e menos ‘esquerda/direita’? Porque me considere eu mesmo exemplar em qualquer dos casos? De modo nenhum. Em nenhum dos casos reivindico qualquer competência moral. Mas precisamente com o direito que me dá o vosso carácter público e valia. Passo a explicar-me. Primeiro, séria cultura religiosa, não necessariamente uma apologética, é algo de premente – hoje, facilmente alguém disserta com maior conhecimento de causa sobre o Tao ou os ensinamentos de Gautama, conhece algo da mitologia greco-romana do que entende esta tradição em que também cresceu (e digo também porque hoje crescemos em muitas). E nisso, se o coração é necessário, há que não esquecer que como corpos também temos mente.
Fala-se hoje muito em choques, o de gestão e o tecnológico. Mas o simples atrito há que estar, se em algum lugar, no cunho humanístico reflexivo e crítico que vai rareando. E uma tal cultura – ainda que, pessoalmente, não possa dizer fé – deverá certamente enformá-lo. O que vos obriga. Acho.
Daí a humildade a mais difícil, a de evitar julgar apressadamente todo o outro, tentação de toda a boa vontade – de que mais uma vez não sou parente, por defeito meu. Mas que tenho por idealmente exigível no vosso projecto enquanto público. Não, claro, que sejam santos.
Finalmente, a questão política. Não se trata de a menosprezar, mas de a deslocar no acordo do preceito a César o que é de César. Há toda uma grande política que é específica da cultura e teologia cristãs, há o ecumenismo, há a reflexão sobre os limites da política, etc. – veja-se o bom exemplo de Frei Bento Domingues. Mas precisamente porque a política se tornou, pelas piores razões, algo de extremamente sério, cumpre evitar confundir as coisas, característica dos integrismos, e proteger a separação dos reinos.
Quer isto dizer não tomar posições? De maneira nenhuma. Posições, melhores e piores, sempre a Igreja colectivamente e seus agentes, individualmente, tomaram. Mas tomá-las do ponto de vista da grande política que lhe será característica, não da pequena política, nem por isso menos importante – sobretudo quando nacional como internacionalmente ela efectivamente parece ter tocado o fundo.
A questão da morte é outro assunto. É a de uma moral sem a eternidade do eu. Não é a crença na imortalidade uma última vaidade?

Para acabar. A contra cultura ou as conjunturas que proporcionaram tal eclodir terá muito de criticável. Mas é Sade ou o fenómeno Beat apenas o ‘regresso ao culto brutal da força, a recusa das regras seculares construídas lentamente em nome da moral e do direito’? Podem os dois sequer ser assim equiparados? E pode dar-se o salto para o serial killer? Mas então e ao contrário? Gilles de Rais, século XV, e Jack o estripador terão causado o movimento Hippie? É só isso.
Quanto a esse orgulho pessimista, de antiga tradição queiroziana, nada tenho contra, embora a minha costela seja camiliana, e se acredito em causas todo o tribalismo também me pode enfurecer. Um abraço sincero ao José. E ao Fernando o de sempre,
CM

Anónimo disse...

Porque será que se fica angustiado depois de certos actos que tivemos por correctos? Talvez porque nos assalte a suspeita de que não o foram afinal, que não nos entenderam – ou que não nos entendemos nós mesmos – e isto apesar da intenção que nos animou. Bem hajas, a bordo.
CM