17 de fevereiro de 2005

Empastelar 12. Adensemos o delírio e comparemos a lustrosa bola de Berlim ao desgraçado pastel de carne. Que desgraçada composição a deste! - Como compreender tal insucesso!? – Não sei o suficiente acerca dos valores calóricos ou energéticos que justifiquem o abandono consensual do pastel quando os emagrecesses começam a sê-lo. De facto, qualquer candidato à saúde ou à linha deixa facilmente o folhado, e vê-se em obras para deixar de salivar perante a bola laranja. A razão que aqui deixo é estética. Massa e forma. Quando emagrecemos ou alinhamos, e preferimos o pastel à bola, estamos de sentido estético alterado. Bola e pastel vivem na fissura. Mas a bola, formalmente, por ser redonda, traz consigo uma ilusão de fechamento – e por isso de fechamento do problema da fissura – e de um fechamento que por ser geométrico apela para as noções intuitivas da perfeição – e por isso para um fechamento perfeito da fissura – um dos mais poderosos desejos. Já o de carne, não só vive o signo do rectângulo, como o vive de modo irregular e, digamo-lo, com toda a franqueza, do desleixo. Tal chegaria para justificar o seu abandono, mas mais o pastel junta a essa opção. Primeiro, porque se dobra triste sobre si mesmo e inclina desleixadamente a cabeça sobre os pés. Mete dó. Depois, porque quando comparamos os dois objectos massivamente, se ambos vivem da fissura, a fêmea exibe a fissura de modo cremoso, enquanto o macho vive a vergonha de a esconder, cobrindo-a com negros detritos orgânicos. Assim se a massa da fêmea é sólida e macia, a do pastel é estilhaçada e promete em cada estilhaço uma agressão às nossas delicadas gengivas.