27 de janeiro de 2005

Empastelar 4. Piscando o olho às problemáticas que se podem produzir pensando o empastelamento, surge aqui uma boa questão no complexidade e contradição: Sontag tem razão: «(...) discutia-se Paula Rego. A admiração pela simplicidade do discurso era generalizada: Paula Rego tem respostas desconcertantes e afirmações muito cruas sobre o que faz. Quando confrontada com a forte simbologia de uma rosa num quadro seu, Paula Rego respondia que apenas tinha pintado a rosa porque esse canto do quadro lhe parecia muito vazio. (...) O ponto importante nesta história era evidente: o artista nem sempre sabe o que faz. A intuição (ou outra coisa qualquer) gera um impulso irreflectido que só mais tarde, a posteriori, aparece descodificado por um terceiro: o crítico. Agora, é legítimo colocar a questão: qual a importância dessa análise, quando manifestamente é algo exterior à obra, para a valorização da arte? (...) Na altura fiz o paralelo com Souto Moura (não me lembrando que recentemente foi anunciado a construção do Museu Paula Rego, em Cascais, desenho do próprio, o que se assume como uma coincidência feliz). Souto Moura possui essa qualidade (que deixa sempre a dúvida de ser intencional ou não) de reduzir o seu trabalho a um discurso simples, quase simplista, de palavras secas e desconcertantes. «Faço as coisas porque me parecem bem», dispara, pondo de lado qualquer intenção intelectual de afirmação pessoal. Quer isto dizer que as palavras que são escritas sobre a sua obra o surpreendem? Quer isto dizer que, à semelhança de Paula Rego, Souto Moura não sabe o que faz? A resposta é óbvia e serve para descobrir a intencionalidade da atitude. Os adjectivos são correctos e colam-se bem à arte. Mas se a arte (e isto é que Souto Moura e Paula Rego sabem bem) só se descobre depois dos adjectivos, então os adjectivos serão, provavelmente, errados.»

4 comentários:

CAP disse...

Sim, se os artistas estiverem a ser sinceros quando desnudam de intenções as suas obras.

Softy Susana disse...

Tive oportunidade, há uns tempos, de privar com um grande artista, mas na área da música - bandas sonoras. Preisner, autor das bandas sonoras de filmes tão comoventes como a trilogia Azul, Vermelho e Branco, teve a humildade de afirmar - para quem quis ouvir - que a sua "obra" nada era senão o seu trabalho. "sim, mas como consegue criar tamanhas obras de arte?", perguntámos, "não crio. Faço-as porque me pedem para fazer coisas bonitas. E eu faço. É o que sei fazer." não se tente explicar o inexplicável. É isso a arte dos verdadeiros artistas.

a-bordo disse...

A ambos - e em particular à Susana - pode ser C.A.P.? - obrigado pelo pensamento e pela partilha de experiências.

Anónimo disse...

Keep up the good work » » »