15 de dezembro de 2004

«Estou assim a falar duma coisa que penso ser novamente necessária: um corpo de padres pregadores, com as características, a formação e o carisma necessários, que andassem de paróquia em paróquia, não apenas para comer as sopas do prior e ler o evangelho na missa, mas sobretudo para serem eles a dizer a homilia, como já antes se fez e devia voltar a fazer-se.» - Hoje na Terra, o José.

16 comentários:

a-bordo disse...

nota 1 de calcanhar. porque de facto independentemente do caso citado, a necessidade de pregação com qualidade, joga-se aqui um dos calcanhares de Aquiles das Igrejas que temos. E um dos calcanhares mais paradoxais do Catolicismo. Se este viveu e sobreviveu pela articulação de esforços, para isso serviu bem ou mal a hierarquia, hoje também ele parece viver no registo da atomização. Por isso, e pelo teu texto e pelo exemplo da concorrência atómica dos grupos corais, pergunto-me eu José, como seria a existir semelhante reactualização dominicana, o elaborar da agenda da passagem dos pregadores. No regime do cada um puxa para seu lado, do eu sei de mim e Deus de nós todos, o dia da prédica estranha parece-me que não seria fácil de determinar.

josé disse...

Desculpa usar termos um bocado empresariais mas não me ocorre melhor: se calhar começaria por fazer uma avaliação prévia e objectiva dos recursos humanos, da sua qualidade pastoral e sua adequação às paróquias enquanto realidade social; depois especializava a formação dos padres, talvez em área pregacional, área paroquial, área teológica, área monástica, etc., etc. Depois repensava o sentido e o carisma das várias ordens religiosas com vista a um melhor aproveitamento de recursos; depois definia claramente a mensagem pastoral que se pretende transmitir assim como o serviço de apoio social que forçosamente tem de se dar; a seguir reinventava-se a linguagem religiosa por forma a ser entendível pelos vários tipos de fiéis de hoje. E por aí adiante...Já sei o que tás a pensar: depois da empresarialização dos hospitais aparece aqui um gajo a propôr a empresarialização da Santa Madre Igreja!

a-bordo disse...

perdoa que continue num tom mais sério e que desperdice a oportunidade de algumas boas piadas. mas não deixa de ser interessante que estabeças uma analogia entre a Madre Igreja e a actividade empresarial. de ambas saberás mais do que eu. e da actividade empresarial certamente mais. no entanto, no pouco que sei, dá para reparar numa coisa: coercivamente ou voltunariamente, a empresa representa e é uma das poucas comunidades que vivem num registo claro de conjugação de forças. é essa conjugação e o melhor modo de obtê-la que me parece ser necessário pensar. o que entretanto é uma das coisas que me parecem bem interessantes no teu projecto; porque, em vez de um regime atómico homilistico, que é usufruido apenas por uma comunidade particular, ou ao seu lado, passaria existir um regime de cooperação homilistica - a tal ordem - que serviria um leque alargado de comunidades.

a-bordo disse...

e continuando transversalmente. há pouco tempo o JPP disse que uma das alterações que a política governativa do futuro deveria sofrer era a de passar pelo facto de para além da multidão de objectivos e iniciativas mais ou menos difusas e mais ou menos governamentais, determinar com clareza uma tarefa simples a avaliar no final do mandato. JPP forneceu exemplos que não recordo. forneço assim eu um. se o próximo governo conseguisse colocar os sinais de trânsito no sítio, penso que Portugal andaria perto de uma revolução. porquê? - porque ver algo no sítio e ver algo no sítio pelo País todo, atravessaria transversalmente outras actividades. de algum modo, é isso que esteve em jogo com a criação das ordens mendicantes, como esteve depois com os Jesuítas. e disso duas conclusões devem ser retiradas: o exemplo arrasta; desses exemplos precisamos.

josé disse...

só para dizer que concordo inteiramente com o que dizes. mas será que alguém nos ouve?

. disse...

Eu oiço-vos. E até subscrevo (com a excepção da "empresarialização" - até nos hospitais é o que se sabe...).
CC

Lutz disse...

Também vos oiço, embora essa conversa mesmo não me diz respeito...
Mas gostei imenso da ideia dos sinais do trânsito!
Abraços,

timshel disse...

Eu também apenas ouvia, porque apenas poderia dizer que concordo inteiramente com o que foi escrito, o que, convenhamos não era uma grande mais-valia para o debate.

timshel disse...

Já agora podeei acrescentar mais qualquer coisa. Infelizmente as afirmações sem nexo atraem mais comentários. E sempre que aqui venho a ideia de fazer comentários aparece-me sempre como algo ridícula. Do meu ponto de vista, o teu blogue é um blogue de reflexão e não de discussão. Seria interessante fazer uma divisão na blogosfera entre blogues de reflexão e blogues de discussão. Embora ache uma óptima ideia teres colocado a possibilidade de comentários (para dar voz a quem achar que tem algo para dizer) o teu blogue cria-me sempre mais a necessidade de reflectir do que de comentar.

a-bordo disse...

Olá a todos. Há por aqui algumas reflexões que talvez se traduzam em posts. Não sei, vamos a ver. A minha sociologia e a minha moral, isto para já não falar na política, andam à espera de melhores dias. Mas nunca se sabe. Quanto ao carácter reflexivo deste blog e ao silêncio que ele motiva, tudo quanto tenho para dizer é que devem existir poucos blogs que se possam aut(o)urgar o título que posso reclamar: o de quase campeão das desaudiências. E isso, amigos, já é alguma coisa ---- Esta piada, ou esta pretensão a, bastava. Mas não resisto a dar conta daquilo que verdadeiramente me consola. Os antigos saberão do que falo. No antigo totobola quem não acertasse em nenhum 1 x 2 tinha direito a uma camisa. Ganhava a camisa o zero. Ora, o zero é uma noção altamente mística. É o nada, o zen. É a plenitude e a harmonia. Por isso, fico chateado quando por aqui andam dez, um, dois. Desgraçadamente, julgando que fazem bem, não só impedem o zen, como me impedem de ir à caixa de correio à espera de algo mais do que o plástico às bolinhas amazon. Um herói de um romancista da minha adolescência gritava em alta voz: quero a minha vida de volta. Eu não quero tanto. Espero apenas que com vida ou sem ela tenha pelo menos direito a poder comparecer na próxima liturgia sem o ar desgraçado que me dá esta minha velha camisola de lã.
abraços

a-bordo disse...

Dito isto fui ao metter. Podia ter ido a sítio melhor. Mas enfim. Com os 45 deste momento só tenho vontade de chorar. Tantos!? Ainda se habituam. Que dia aziago!

a-bordo disse...

57. Como!? - Continuam assim e juro que abro um blog ainda mais elíptico do que este...

timshel disse...

salvo as figuras públicas que atraem audiências de per se sem ser preciso comentários, os blogs de anónimos (em sentido lato) só atraem audiências se lhes cheirar a sangue, se sentirem debate e discussão

timshel disse...

Ed regarded his father with affection. "He has one quality of genius," Ed would say. "He is always wrong. If a man makes a million decisions and judgments at random, it is perhaps mathematically tenable to suppose that he will be right half the time and wrong half the time. But you take my father—he is wrong all of the time about everything. That is a matter not of luck but of selection. That requires genius."

John Steinbeck, The log from the sea of Cortez, excerto tirado de uma espécie de prefácio a este livro, prefácio este que tem por nome "about ed ricketts", pag. XX. Este "prefácio" (do qual tirei este pequeno excerto) é (mais um) das mais extraordinários escritos de Steinbeck (do meu humilde ponto de vista).

josé disse...

ó fernando, quando perguntei quem nos ouvia estava também a pensar nas audiências. pois se o meu guia é uma coisa reflexiva, para falar baixinho, onde gosto de conhecer os poucos que me visitam, de vez em quando apetece que algo espcífico que eu disse seja mais ouvido. aquele artigo da terra foi precisamente um caso. mas que se lixe. temos sempre a memória futura...

a-bordo disse...

Olá a todos. Algumas coisas andam a pairar por aqui e não sei se sou capaz de as dizer. But i gonna try. Uma das mais evidentes é que parece existir alguma surdez contemporânea à mensagem cristã. E aqui todos os intervenientes deste mini debate apenas levam por tabela. Por contador. A segunda tem a ver com o modo com que reagimos aos contadores. Primeiro à evidência de que projectos como os da terra em que todos participamos não têm o eco que à partida poderíamos supor que tivesse. Pelo número, senão pela qualidade, pelo menos pela diversidade das intervenções. Como é óbvio, as nossas reacções pessoais variam de acordo com aquilo que cada um de nós é. E aí cada um tem de falar por si. Embora, isso não implique nem de perto nem de longe que tal não devesse ou não pudesse ser discutido por todos. Mas para mim, ainda mais evidente é a necessidade de pensar em que poderá consistir a vivência nética do cristianismo. E o modo como isto pode ser pensado de modo ainda mais positivo. Mais activo. Porque me parece fácil a constatação de que não nos ouvem. Pior: que não ouvem a mensagem cristã. E que se assim acontece está mal. Bem mais interessante parece ser pensar aquilo que poderíamos fazer para que aquilo que está pior em nós – neticamente falando – pudesse ser melhorado. Quer nos ouçam ou não.

Nota: não arranjei melhor termo do que este nético para dar conta deste fenómeno.