8 de novembro de 2004

(22NP) Por lá andamos. No Inferno e no Purgatório. Mas o pretexto, o título da obra de Lodge é Notícias do Paraíso. É irónico. Bernard o grande protagonista deste livro é o único que não procura o Paraíso nas ilhas azuis do Pacífico, pois só até aí foi para visitar uma tia doente. Todos os outros – quase – que o acompanharam no avião desde Inglaterra, foram à procura do Paraíso. Mas se o título é irónico, relata a pouco irónica crença contemporânea que é mudando de lugar. Por isso iremos falar de lugares. De troca de lugares… Uma das crenças mais enraizadas na cultura contemporânea afirma que a mudança de lugar pode ser uma solução para os problemas. Nos problemas sexuais, dando como suposto que existem problemas sexuais, diz-se então que por exemplo após a longa prática do por cima e por baixo, um sempre por cima, outro sempre por baixo, será bom para acabar com a monotonia trocar de altitude, antes de algum dos dois ser capaz de praticar a posição canina. Que quando esses problemas existem a variação de lugar pode ser uma boa solução. Entretanto, se os gestos mais íntimos – ou antigos e íntimos – parecem ter encontrado um elixir na mudança espacial, os gestos mais públicos parecem muitas vezes viver da mesma solução. Pense-se por exemplo no acto de ensinar e no facto da carteira do professor se ter movido para o nível do aluno. Isto para não falarmos dos gestos que envolvem público e privado e que são tão bem sustentados pelos tacões. Com eles, as faces aproximam-se no hálito. E publicamente esta ascensão pode ser olhada como uma expressão de ascensão social, pelo preço envolvido nos tacões, ou ainda mais radicalmente como uma fuga ao determinismo genético, mesmo que o custo desta oportunidade se traduza pela possibilidade da entorse. O que no dizer de Baden Powell diz muito da personalidade da pessoa. Pois se esta – pessoa - no dizer do fundador do escutismo se define primeiramente pelos sapatos que usa, o uso de sapatos que arriscam a entorse, diz radicalmente a presença de alguém que faz da genética e da capacidade económica uma fonte de risco. E aqui, convenhamos, que estamos muito necessitados de este tipo de pessoa. De facto, … mas, antes disso, leiam a terra. Já saiu.