4 de novembro de 2004

(20NP) Nunca mais chegávamos ao Purgatório mas estamos quase. Entretanto, por uma série de razões que não cabem aqui – porque temos de sair daqui, a verdade é que o crente durante séculos não teve uma forte preocupação com a elaboração de cenários que pudessem dar uma imagem dessa vida. Seja como for, o Paraíso estava prometido àqueles que estavam livres de pecado. Com a introdução da medicina penitencial o crente foi obrigado a preocupar-se com os cenários pós morte. Ele tinha de libertar-se dos pecados. A libertação era possível pela penitência. A penitência ocupava tempo. Muito porque os pecados eram muitos. Assim, talvez fosse preciso mais tempo. O tempo depois da morte. O tempo futuro. «Foi por esta razão que os cristãos do século sétimo do Ocidente se voltaram com notável precisão e com alto sentido dramático para o assunto da passagem da alma. A paisagem do outro mundo incluía, claro, o bem conhecido Paraíso e um Inferno (…) Mas incluía também uma nova região intermédia caracterizada por uma espera agonizante. Almas “não purgadas” tinham de esperar aqui. Um diácono (…) fez uma vez uma aparição após a sua própria morte numas termas romanas. Ele pediu a um conhecido bispo que rezasse por ele. As orações resultaram. Ele já não estava ali na semana seguinte. A sua alma residiu por algum tempo numa zona intermediária, tão penosa para ele como o escaldante e sufocante fluxo da fonte termal.» (Brown, op. cit. 258-259, com pequenas alterações.)