2 de novembro de 2004

E de um filme fala o meu amigo José António Henriques. «Abril, de Nanni Moretti. Não se trata de um filme recente. Pode ser considerado um filme político já que refere aspectos da vida política italiana, sobretudo a partir da chegada de Berlusconi ao poder na Itália. Pode ser um filme autobiográfico, que invoca aspectos da vida privada do realizador/actor como o nascimento do seu filho Pietro. Mas o objectivo aqui é destacar um momento do filme: quando a personagem Nanni Moretti faz quarenta e quatro anos e, numa pequena festa, recebe alguns amigos, um há que lhe apresenta uma fita métrica e argumentando que Moretti nunca mais fez um filme, pergunta: quanto pensas viver? Setenta? Setenta e cinco? Oitenta é a resposta categórica do realizador. Assim, com a fita nos cem centímetros, o sarcástico amigo, numa atitude de gozo e amizade à mistura, faz os ajustes: reduz de cem para oitenta centímetros e, destes oitenta, subtrai quarenta e quatro. Apanhou Moretti desprevenido, que olha estupefacto para a fita métrica diminuída. É o que lhe resta. Já na sua lambreta, circulando pelas ruas, Nanni faz as contas, sem responder: "oitenta menos quarenta e quatro. Oitenta menos quarenta e quatro.". Ainda com a fita, reconhece que deve concentrar-se no essencial e não em filmar coisas feias; deve deitar fora artigos de jornal que havia guardado desde há vinte anos só porque o deixavam irritado. Diremos que é uma parte do filme muito reveladora: deitemos fora tudo quanto nos angustia e persegue; deixemos de dar relevância a coisas bem pouco importantes e às quais tantas vezes concedemos tempo. Em que nos temos desgastado? Há razões para perguntar, pois a fita métrica só diminui.»