6 de novembro de 2004

(21NP) Disse Úrsula falando do Céu.
«
-Se a longo prazo não há castigo, porque não ser mau?
- Costuma dizer-se que a virtude é a própria recompensa – disse Bernard, com um sorriso.
- Vai para o Inferno! – retorquiu Úrsula, que depois se riu das palavras que escolhera. – Já agora, e quanto ao Inferno? Também se foi pelo cano abaixo?
- Quase completamente, e ainda bem.
- E estou mesmo a ver que o Purgatório também.
- Por estranho que pareça, os teólogos modernos, mesmo os não católicos, aceitam melhor a ideia de Purgatório, muito embora as Escrituras quase não façam referência a ela. Alguns encontram analogias entre o Purgatório e a ideia de Reencarnação das religiões orientais, que estão muito em voga hoje em dia, especialmente o Budismo. Sabe como é? Uma pessoa expia numa vida os pecados de uma vida anterior, até alcançar o nirvana.
- E o que é isso?
- Hum… Bem, grosso modo, significa a extinção do eu individual, a sua assimilação pelo espírito eterno do universo. A passagem do ser ao nada.
- Não parece lá muito agradável.
- Mas a tia quer mesmo viver para sempre?
(…)
- Claro – respondeu. – Não é o que toda a gente quer? Não é o que tu queres?
- Não – disse ele. – Bem gostaria de me ver livre deste homem que sou.
»
(Lodge, op. cit., 225-226)