8 de novembro de 2004

A metáfora da troca de lugares como solução para os problemas é uma metáfora corrente. Ei-la via alerta amarelo na terra da alegria.

«Contam os homens dignos de fé (mas só Alá é omnisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem possuidor de riquezas, mas tão magnânimo e liberal que as perdeu todas menos a casa de seu pai e se viu forçado a trabalhar para ganhar o pão. Trabalhou tanto que o sono o venceu uma noite debaixo duma figueira do seu jardim e viu no sonho um homem todo encharcado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse:
“A tua fortuna está na Pérsia, em Isfaján; vai lá buscá-la.”
Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfaján, mas no recinto dessa cidade surpreendeu-o a noite e deitou-se a dormir no pátio duma mesquita. Havia junto à mesquita, uma casa e pelo decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladrões atravessou a mesquita e meteu-se na casa, e as pessoas que estavam a dormir acordaram com o barulho dos ladrões e gritaram por socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquelas redondezas acudiu com os seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou revistar a mesquita e nela encontraram o homem do Cairo e deram-lhe tantos açoites com varas de bambu que esteve às portas da morte. Ao fim de dois dias, recuperou os sentidos na prisão.
O capitão mandou-o buscar e disse-lhe:
“Quem és tu e qual é a tua pátria?”
O outro declarou:
“Sou da famosa cidade do Cairo e o meu nome é Mohamed El Magrebí.”
O capitão perguntou-lhe:
“O que te trouxe à Pérsia?”
O outro optou pela verdade e disse-lhe:
“Um homem ordenou-me num sonho que viesse a Isfaján, porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfaján e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser os açoites que tão generosamente me deste.”
Perante semelhantes palavras, o capitão riu-se até mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer:
“Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio de sol uma figueira e a seguir à figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu contudo, aborto duma mula com um demónio, vagueaste de cidade em cidade, somente por acreditar num sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaján. Toma estas moedas e vai-te embora.”
O homem guardou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte do seu jardim (que era do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençoou e o recompensou e exaltou. Deus é o Generoso, o Oculto.»
(“História universal da infâmia”, Jorge Luis Borges, ed. Assírio & Alvim)