15 de outubro de 2004

(12NP) A tese de Peter Brown acerca do cristianismo é no mínimo interessante: para este autor, muito daquilo que hoje entendemos por cristianismo nos seus traços gerais, preocupação com o além e crença na vida após a morte, fé na recompensa das boas acções e castigo do pecado, institui-se por volta do século sétimo. Século, entretanto, pródigo em acontecimentos, pois século da morte do fundador do Islão. Deixando o Islão de lado, podemos dizer que é ainda este quadro que hoje aceitamos ou que é a referência das nossas renúncias. Disso dá sem dúvida conta o Notícias do Paraíso de Lodge, onde no meio da trama romanesca e a propósito do personagem principal ser um padre ou ex-padre católico, são traçadas algumas coordenadas de algum ambiente teológico contemporâneo, e de um ambiente teológico que marca forte presença não só nos círculos do pensamento “erudito”, como ao nível da prática religiosa quotidiana em alguns países, como se pode ler nas crónicas de Frei Bento Domingues no Público que foram assinaladas pelo José no seu Guia - Segunda-feira, Outubro 04, 2004 - Veritas filia temporis. Assim, antes de chegarmos às curiosas razões porque paradoxalmente o Purgatório é num parco dizer de Lodge dos três locais do além o que parece hoje mais privilegiado, seguiremos a propósito do penúltimo post, os mecanismos que permitem a Brown justificar os tempos que rodam o século sétimo como tempos da instituição da preocupação com o mundo além morte.