9 de outubro de 2004

(6NP) Estamos quase a ficar com saudades de Bernard, porque se prepara para ir embora. Antes, então, da conversa final que teve com a tia acerca do Inferno, fica um breve apontamento para que possamos antever o tipo de conversa que com ela poderá ter.
«Ela preferia ter ido para um hospital católico, mas o seguro de saúde obrigava-a a ficar no Geyser. Disse-lhe que tinha a certeza de que o Padre Luke a iria visitar, só que ela tinha de aguentar que ficasse ali a rezar por ela e tudo. Respondeu-me que não gostava muito desse género de coisa, que aquilo era a que ela chamava religião à Bill Graham. «Mas parece que está a entrar à socapa na Igreja Católica. Quando comecei a ir outra vez à missa, aqui há uns anos, mal consegui reconhecer o serviço. Cá para mim, parecia mais um concerto ou uma festa. Havia um grupo de miúdos ao pé do altar, com pandeiretas e violas, que cantavam cantigas alegres do género das que se cantam nos acampamentos dos escuteiros, em vez dos hinos dos bons velhos tempos de que eu me lembro, Alma do Meu Salvador e Doce Sacramento Divino. E a missa não era em latim, era em inglês, e estava uma mulher no altar a ler a epístola, e o padre disse a missa voltado para as pessoas – senti-me tão embaraçada ao vê-lo mastigar a hóstia… Quando eu era miúda, no convento, diziam-nos que nunca deveríamos tocar na hóstia com os dentes. Era preciso dar uma certa volta com a língua e depois engoli-la.»
Uma antiga superstição assegurei-lhe eu, que já anos tinha sido retirada da preparação para a Primeira Comunhão. Dei-lhe uma rápida ensaboadela sobre teologia eucarística moderna: a importância da refeição compartilhada na cultura judaica, o lugar que o agape ou festa do amor ocupava na vida dos primeiros cristãos (…) Quando cheguei ao fim, ela perguntou: «o que têm os Judeus a ver com isso?» Disse-lhe que Jesus era Judeu, ao que ela respondeu: «pois até pode ser, mas não sei porquê, nunca o vi como judeu. Não parece judeu na mortalha de Turim. Disse-lhe que a mortalha de Turim tinha sido recentemente reconhecida como uma falsidade medieval. Ela ficou em silêncio durante um momento e depois perguntou: «essa Sophie Knoepfhmacher tem continuado a meter o nariz nas minhas coisas?» (David Lodge, obra usada, páginas 149 e 150).